O designer de sapatos Christian Louboutin em seu ateliê, em Paris - Foto: reprodução/Harper's Bazaar
O designer de sapatos Christian Louboutin em seu ateliê, em Paris – Foto: reprodução/Harper’s Bazaar

Escarpins com plataforma meia-pata devem ser usados com calça. De saia, sempre, solas simples. Essas são apenas duas “regras de estilo Louboutin” que aprendo no papo com ele, nos fundos do número 23 da Rue Jean Jacques Rousseau, onde fica o ateliê do estilista, em Paris. “As plataformas servem para dar mais pernas à mulher, mas o truque só dá certo com calças, porque você as esconde ali embaixo”, explica. “Já com saias, os sapatos devem sumir, e funcionar apenas para melhorar as pernas e a postura”, continua.

Percebo que Louboutin é, na verdade, um profundo conhecedor da alma – e do corpo – femininos. “Você tem de ver os escarpins apenas depois de a mulher passar, já de costas, pelo salto. De frente, ele deve desaparecer. Quanto mais alto o salto, mais funciona.” Tudo isso para que as mulheres fiquem com pernas perfeitas e curvatura de corpo sexy – é essa a imagem que nosso personagem mais gosta.

Estou ali para ver e conversar sobre a recém-lançada coleção da Christian Louboutin, mas o foco dele é outro: “É sempre difícil falar de coleções, porque, at the end of the day, meu trabalho é sempre um work in process”. O lançamento em questão tem, além dos clássicos escarpins, detalhes-desejo de peso, como spikes e biqueiras metálicas, como em botas de caubói. Pergunto novamente sobre a coleção. “O que mais gosto é de misturar referências. Faço isso no meu trabalho e na decoração da minha casa, adoro mesclar shapes mais hard com cores mais leves, por exemplo.” Lembro das ankles e bolsas com spikes em tons pastel.

Os saltos altíssimos e a ausência de plataformas seguem firmes e fortes como assinaturas de Louboutin - Foto: reprodução/Harper's Bazaar
Os saltos altíssimos e a ausência de plataformas seguem firmes e fortes como assinaturas de Louboutin – Foto: reprodução/Harper’s Bazaar

“Você trabalhou com o estilo navy também. Como foi sua leitura?”, tento voltar para os lançamentos. E, quando vejo, meu entrevistado já está me dando outra aula: “O azul-marinho é um preto mais quente. Não tem coisa mais linda e chique do que pessoas negras usando azul marinho”, conta.

Desisto da coleção. Já entendi, Louboutin gosta mesmo é de pensar seus sapatos acompanhados de mulheres. Tendências e afins são puros coadjuvantes. Pergunto, então, sobre a mulher brasileira. Ele aproveita a deixa para solar: “Alguns países, como a Inglaterra, são essencialmente masculinos. O Brasil não poderia ser mais feminino. Por isso me encanto tanto com o País. As mulheres são bonitas, mas de um jeito eterno, nada simplista. Onde quer que você vá, percebe que elas cuidam até da maneira com que andam. Até o clichê mais óbvio do Brasil, Garota de Ipanema, fala sobre uma mulher caminhando.”

Já sei onde isso vai parar… “O movimento das brasileiras ao caminhar funciona muito bem com saltos!”, empolga-se. Sabia. E, se tivesse de desenhar um único sapato, que traduzisse a mulher brasileira? “Seria uma sandália de tiras, sem plataforma, com salto curvo, que falasse a língua do Brasil, de Niemeyer” A cor? “Em todos os tons de nude que a brasileira precisa.”

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