
As referências familiares, sua formação na área e experiência de mercado resultaram na Mondepars, que já soma duas lojas e três desfiles. Foto: Reprodução
Certa vez, aos nove ou dez anos, Sasha Meneghel recebeu uma tarefa que, à primeira vista, poderia parecer uma brincadeira: escolher a roupa que Xuxa usaria em uma visita pública a um hospital. Ela evitou o branco, cor dos profissionais que estariam no local, e também descartou tons escuros. Para que a mãe pudesse conversar com as crianças, escolheu uma camiseta colorida, com um pouco de brilho, outra peça por baixo para evitar desconfortos e finalizou com tênis, já que a apresentadora provavelmente precisaria subir escadas. A lógica era simples, mas revelava um entendimento que continua presente em seu trabalho: Sasha não pensa somente na roupa, também leva em consideração a pessoa, o ambiente em que será usada, o movimento e a função daquela imagem.
Nesta terça-feira (28.07), a estilista completa 28 anos e sua relação profissional representa uma grande parcela desta idade. Do estágio com Lenny Niemeyer, passando por sua formação pela Parsons School of Design, em Nova York, e colaboração com outras marcas, entenda todos os caminhos que levaram (e influenciam) à criação de sua marca, a Mondepars:
A moda antes de ser profissão

As referências familiares, sua formação na área e experiência de mercado resultaram na Mondepars, que já soma duas lojas e três desfiles. Foto: Reprodução
As provas de roupa de Xuxa foram um dos primeiros ambientes adultos em que Sasha sentiu que sua opinião tinha algum peso. Ao lado do figurinista Marcelo Cavalcante, da avó Alda Meneghel e de outros profissionais, acompanhava ajustes, observava combinações e participava das escolhas feitas para shows, eventos e aparições públicas.
Foi esse convívio que apresentou a roupa como instrumento de comunicação. Sasha ouvia a mãe comentar o que havia funcionado em determinado trabalho, conhecia suas preferências e prestava atenção às soluções encontradas para diferentes corpos, climas e compromissos. Enquanto Xuxa fazia as unhas, a filha desenhava croquis usando os esmaltes disponíveis. Também montava roupas para amigas e experimentava formas de relacionar peça, pessoa e ocasião. O repertório não vinha de uma referência única ou de um consumo sistemático de revistas, mas nascia, principalmente, da observação.
Xuxa se tornaria sua primeira grande referência de moda, não apenas pela dimensão do seu guarda-roupa, mas pela liberdade com que sempre misturou códigos tradicionalmente masculinos e femininos. Algumas de suas calças jeans, por exemplo, vinham da seção masculina porque funcionavam melhor em seu corpo. Anos depois, esse acervo passaria a ser pesquisado dentro do processo criativo da Mondepars. Em vez de olhar apenas fotografias antigas, Sasha passou a tocar as peças, estudar seus botões, experimentar as proporções e entender como determinadas ombreiras, tecidos e acabamentos haviam sido construídos.
Do vôlei à Parsons

Durante parte da adolescência, o volei era o principal foco da atenção de Sasha. A mudança de direção aconteceu depois de um estágio com Lenny Niemeyer, quando acompanhou fornecedores, conheceu tecidos e observou o funcionamento cotidiano de um ateliê. A experiência não serviu apenas para ensinar processos. Aos 16 anos, ela decidiu deixar o esporte e procurar uma formação inteiramente voltada à moda.
Sasha se candidatou à Central Saint Martins, à London College of Fashion (ambas em Londres) e à Parsons School of Design. Escolheu a instituição nova-iorquina, onde estudou modelagem, história da moda, desenvolvimento de projetos e as relações sociais e ambientais que atravessam a indústria. Também realizou um curso na Inglaterra, aproximando-se de uma abordagem mais experimental do que a encontrada na formação norte-americana.
Antes da Mondepars, vieram trabalhos com empresas de escalas e segmentos distintos. Na H.Stern, desenvolveu uma coleção de joias inspirada em constelações e precisou lidar com a precisão de medidas e encaixes. Na Coca-Cola Jeans, observou como a substituição de um tecido pode alterar completamente uma modelagem. Na Cantão, aprofundou o conhecimento sobre denim e processos de lavagem. Ao lado da melhor amiga, Bruna Marquezine, também colaborou com a C&A. As experiências ajudaram a organizar uma visão menos romantizada sobre a profissão. Entre o desenho e a peça pronta, existem fábricas, fornecedores, prazos, testes e calendários que obrigam uma equipe a desenvolver uma temporada enquanto a anterior ainda nem chegou às lojas.
A criação da Mondepars

As referências familiares, sua formação na área e experiência de mercado resultaram na Mondepars, que já soma duas lojas e três desfiles. Foto: Reprodução
A concretização de sua marca própria levou cerca de dois anos de pesquisa e desenvolvimento. A Mondepars foi apresentada oficialmente em 2024, com um desfile na loja de mobiliário Mula Preta, em São Paulo. A primeira oferta comercial reunia 14 peças, com a alfaiataria como um dos principais eixos. O próprio nome procura resumir o posicionamento. “Monde” significa mundo em francês, enquanto “pars” corresponde a parte em latim. A junção comunica a ideia de pertencer a um ecossistema e, a partir disso, reconhecer o impacto gerado por cada escolha.
Essa visão aparece na defesa de roupas atemporais, na atenção à durabilidade e na busca por materiais alternativos. A marca já utilizou elementos produzidos à base de cacto em bolsas e componentes reciclados em peças de denim. Sasha evita classificá-la como vegana ou cravar ser uma marca sustentável, mas procura reduzir o uso de processos convencionais quando encontra soluções que funcionem técnica e comercialmente.
A etiqueta também nasceu com uma proposta menos rígida em relação a gêneros. Embora roupas possam aparecer divididas por categorias comerciais, o desenho procura considerar a forma como cada peça veste diferentes pessoas. Alfaiataria, denim, camisaria e volumes nos ombros circulam entre referências femininas e masculinas sem depender de uma separação absoluta.
Do acervo familiar para a passarela

As referências familiares, sua formação na área e experiência de mercado resultaram na Mondepars, que já soma duas lojas e três desfiles. Foto: Reprodução
A influência de Xuxa não se limita a uma citação visual. Ela aparece na pesquisa de modelagens, nos ombros acentuados, nos shorts curtos, no denim e em peças construídas diretamente a partir de sua história. O vestido Morgana, por exemplo, recebeu o nome que Xuxa teria antes de uma promessa feita por seu pai levar ao registro de Maria da Graça. Desenhada a partir de seu corpo e de sua imagem, a peça inseriu uma referência biográfica dentro do vocabulário da marca.
Em 2026, Sasha ampliou esse percurso familiar ao dedicar a coleção “Alda” à avó, artista, costureira, pintora e primeira figurinista de Xuxa. O terceiro desfile da Mondepars revisitou seu guarda-roupa por meio de alfaiataria geométrica, golas altas, referências militares e objetos esculpidos em madeira. Na coleção, a memória foi tratada como material de construção.
A temporada também tornou mais legíveis alguns códigos que a marca tenta consolidar: ombros desenhados, proporções controladas, marrom recorrente, materiais de qualidade elevada e uma alfaiataria que alterna rigidez e fluidez. Além do já tradicional uso da madeira no vestuário. Ainda existe um processo de definição em andamento, esperado para uma empresa com apenas dois anos de mercado. A diferença é que as escolhas começam a apresentar continuidade entre uma coleção e outra.
A sobriedade da estética ajuda a afastar a Mondepars de uma associação automática com a imagem pública de sua fundadora. Sasha cresceu cercada por figurinos, televisão e um acervo reconhecível, mas escolheu construir uma marca de paleta contida, acabamento preciso e comunicação controlada. Aos 28 anos, ela já atravessou a etapa da estreia. O próximo movimento será medir se a Mondepars consegue sustentar sua expansão sem abandonar a atenção ao corpo, ao uso e ao acabamento que orientava aquela escolha de roupa ainda na infância.

