Conheça a nova geração de estilistas brasileiros que reforçam a tendência Y2K
Jalaconda – Foto: Divulgação

Por Jorge Wakabara

Elas são marcas de estilistas com diferentes backgrounds, mas que possuem bastante coisa em comum. A começar pela geração: Mateos Quadros, Marina Avello (da Jalaconda) e Billi (sim, apenas Billi, sem sobrenome, por trás da ROSANOPRETO) concluíram os estudos e começaram suas labels faz pouco tempo. A tendência dos anos 2000 chega natural – é uma referência da infância deles. E a gente precisa lembrar que ícones da época, tanto do cenário internacional quanto nacional, adoravam exibir o corpo.

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Lá fora, pense em Christina Aguilera de biquíni e calça de vaqueiro toda aberta promovendo o álbum “Stripped” em 2002, em Jennifer Lopez com o clássico Versace verde decotadérrimo em 2000, que gerou o Google Images. Por aqui, Tiazinha, Feiticeira e afins estavam na crista da onda.

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ROSANOPRETO – Foto: Divulgação

Mas os tempos mudaram e o mundo mudou: a diversidade e o discurso de autoaceitação estão mais fortes que nunca vinte anos depois. Portanto, essa pele toda à mostra deixa de ter conotação apenas sensual para assumir uma afirmação de existência. Não é à toa que a ROSANOPRETO ganhou mais projeção nacional ao aparecer no corpo de Linn da Quebrada na 22ª edição do “Big Brother Brasil”.

Billi começou no teatro, em um projeto com jovens da periferia do Rio de Janeiro, na parte de figurino, mas logo percebeu que aquilo não era para ele: “Eu fazia as peças e dizia ‘gente, é da minha marca!’”, relembra, rindo. O estilista fez dois conjuntos que ficaram emblemáticos na telinha com Linn, de quem é amigo: o de patchwork jeans, Estrela do Oriente, e o amarelo Hot Spots.

“Vi alguns comentários que não eram positivos sobre o Hot Spots, perguntando se era usável na rua. As pessoas começam julgando e no final elas acabam cedendo. Somos latinos, brasileiros, vivemos em um país quente. Essa construção de que tem que mostrar menos, de que não pode se exibir, vai quebrando. Quando você se esconde, você só se prejudica, se priva. Essas imagens de moda aceleram o processo das pessoas se aceitarem”, acredita.

Outra história que cresceu com um corpo famoso e talentoso foi a da Jalaconda, de São Paulo. Marina, conhecida como Jala pelos amigos, tem uma história com moda (sua mãe a ensinou a costurar com 13 anos, e ela chegou a cursar um ano de Santa Marcelina, além de um curso técnico de modelagem no Senac), porém se formou em Artes Plásticas pela USP.

“O meu processo de construção parte muito do material e de um pensamento de escultura”, explica. E como uma de suas pesquisas nas artes é com látex, ela foi convidada para fazer o figurino de um clipe usando a borracha. Quando viu, a primeira roupa de látex que estava desenvolvendo era para Pabllo Vittar, no clipe de “Frequente(mente)”, de Chameleo, de 2021, que tem participação especial da drag.

De lá para cá, a Jalaconda segue o desenvolvimento de peças em látex e também usa bastante corrente com pedraria, vazados. É como se o biquíni de crochê (técnica que Jala domina, assim como tricô e bordado) fosse atualizado para o século 21, com outros materiais e referências estéticas, ainda que mantenha a preciosidade do trabalho manual. E a Jalaconda é urbana, cyberpunk, hyperpop.

“Minha marca é uma mistura de artesanato e sex shop”, Marina revela, “pego muita inspiração em sex shops. Também estudo filosofia e gosto muito de Georges Bataille, que fala de erotismo, então, quero ver o erotismo dos corpos, a sensualidade que está neles. Adoro o fato de as pessoas colocarem uma roupa de látex da marca e dizerem ‘tô muito gostosa!’. Quero que esse ‘mostrar o corpo’ seja ativo”. Parte do line-up da Casa de Criadores, ela deve fazer seu primeiro desfile presencial neste ano.

Conheça a nova geração de estilistas brasileiros que reforçam a tendência Y2K
Mateos Quadros – Foto: Divulgação

Mais para o sul, precisamente em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, Mateos Quadros pegou sua pesquisa de TCC sobre cimática (o estudo de padrões físicos formados por ondas sonoras) e transformou o resultado em estruturas vazadas impressas em 3D que, soldadas à mão, formam vestíveis que lembram corsets. É mais que coincidência que a estética e as ideias de Mateos e Jala sejam tão próximas: resultado de uma geração com as mesmas referências e vivências, formam a imagem do futuro. Ou melhor, do presente.

Para Mateos, por exemplo, é importante que os seus corsets não sejam uma réplica das estruturas duras e sufocantes (e, lembremos, que têm sido revisitadas em passarelas de Versace, Gucci…) dos espartilhos: “Historicamente, é uma peça utilizada para manipulação das formas, uma maneira de reduzir o corpo. É tudo que eu não quero, não tenho essa visão de uma moda que altere a silhueta. A minha releitura é caracterizada pelo material, um polímero plástico flexível que você pode amassar e dobrar e ele consegue preservar a forma sem quebrar. Isso torna possível você dobrar a barriga, sentar, respirar. Ele não inibe os movimentos.” O corpo está em evidência e, se depender da nova geração de criadores… ele é, acima de tudo, livre.