Foto: divulgação
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Por Luigi Torre

Excessos – de tudo – são um dos maiores problemas da nossa sociedade neste começo de século 21. Na moda não é diferente. Há tempos se discute como reduzir a quantidade de tecidos e roupas descartadas pela indústria.Tarefa, sabemos bem, nada fácil (envolve toda a cadeia, das tecelagens aos consumidores). A novidade é que, nos últimos anos, o número de marcas que investem em processos de upcycling (a reutilização de materiais e roupas já existentes) cresceu consideravelmente. Mais do que isso, ganharam status cool e entraram para o hall das labels mais desejadas do momento. Exemplos? Vetements, À La Garçonne, Off-White e Christopher Shannon só para citar alguns.

“O upcycling não é só uma onda, ele chega para ficar”, diz a consultora de moda Renata Abranchs.“O consumo de vestuário está sendo ressignificado, e a nova geração de consumidores (os millennials) está trocando a palavra comprar por trocar, consertar, reciclar, reformar ‘relíquias’ que encontram pelo mundo.”

O pensamento de reúso e aproveitamento do que for possível também sempre foi uma preocupação de Fábio Souza, proprietário da À La Garçonne.“A marca existe há quase dez anos e começou como um brechó, depois passou a vender também móveis e objetos usados e antigos, e agora tem uma linha de roupas que respeitam algumas modalidades nesse sentido”, explica Alexandre Herchcovitch, estilista responsável pela moda da grife.

Outra etiqueta nacional adepta à reciclagem das sobras de sua produção é a mineira GIG Couture. “Trabalhamos com upcycling desde o início de nossa fábrica, quando constatamos que tínhamos ótimos retalhos para reaproveitamento”, diz a diretora de criação Gina Guerra.A cada temporada a marca faz parcerias de doações para vários órgãos e entidades que tenham grupos de trabalho de artesanato para confecção de colchas, almofadas, bolsas e outros produtos finais. A mais recente é uma coleção de bolsas e minibolsas criadas manualmente em comunidades artesãs no Ceará, em parceria com a designer Catarina Mina e sob curadoria de Chiara Gadaleta.“É uma forma de devolver para a sociedade”, comenta ela.

Diferentemente dos outros processos de reciclagem na moda, o upcycling utiliza materiais existentes para melhorar os originais. “Nossa seleção de peças vai de acordo com o que queremos trabalhar naquela coleção ou algo que seja oportuno, como achar um estoque de camisas xadrezas antigas sem uso, ou uma dúzia de bonés militares antigos, e assim vai”, explica Alexandre sobre o processo de curadoria. “Na seleção de tecidos, procuramos no Brasil e em outros países, e sempre damos preferência a comprar aquilo que já está produzido ou estocado.” E a criação, muda alguma coisa? “Exige muito mais imaginação, e isso é bom”, responde.

Para o consumidor, a vantagem é a exclusividade. “Saber que sua peça é única e tem uma ou outra parecida, mas não idêntica”, diz o estilista. “Além do sentimento que se está usando algo que já existe no mundo e não precisou ser fabricado e que foi modificado para ser funcional em vários sentidos.” O que falta, então, para a atitude deixar de ser nicho e virar mainstream? Alexandre acredita ser questão de tempo.“O que estamos procurando e estamos conseguindo é ‘industrializar’ o artesanal, ou seja, fazer em série esses trabalhos manuais sem deixar que eles sejam manuais. Esse é o maior desafio hoje.” E nós apoiamos! A seguir, conheça algumas marcas que investem no upcycling.

À La Garçonne - Foto: divulgação
À La Garçonne – Foto: divulgação

À La Garçonne
A marca de Fábio Souza começou como brechó, virou antiquário e, hoje, tem uma linha de roupas assinadas por Alexandre Herchcovitch, que segue a cartilha sustentável pela qual o estabelecimento já é conhecido. São roupas feitas com tecidos vintage; tecidos novos 100% reciclados; utilizando partes de roupas antigas, combinadas ou não com tecidos novos.

Vetements - Foto: divulgação
Vetements – Foto: divulgação

Vetements
A marca comandada por Demna Gvasalia foi uma das primeiras a dar status hype a itens de upcycling, com seus jeans Levi’s totalmente reconstruídos. Cada peça é feita meticulosamente a partir de denim vintage escolhido a dedo, com dois pares desconstruídos e emendados na parte de trás da calça. E atenção aos detalhes, como bainhas, cós desalinhados e bolsos traseiros localizados mais para baixo.

Off-White - Foto: divulgação
Off-White – Foto: divulgação

OFF-WHITE
Conhecidas por suas peças que combinam o melhor da atitude street wear com acabamentos de luxo, a OFF-White, de Virgil Abloh, desenvolve uma parceria de sucesso com a Levi’s, que consiste na reconstrução de calças antigas da marca. Da união, nasceram jeans que combinam denim com organza brilhante, recortes de diferentes tonalidades e lavagens, detalhes com zíperes e versões cobertas por tinta colorida.

Christopher Shannon - Foto: divulgação
Christopher Shannon – Foto: divulgação

Christopher Shannon
O designer britânico é o mais novo nome a investir na onda dos jeans remade. Com abordagem 90’s, são jaquetas e calças em quatro tons diferentes de denim. Os itens foram cortados, lavados e desgastados, além de totalmente reconstruídos de maneira híbrida e multifuncional (vide as calças- bermudas acima)

Christopher Raeburn - Foto: divulgação
Christopher Raeburn – Foto: divulgação

Christopher Raeburn
Bem antes do upcycling se tornar a menina dos olhos das marcas mais descoladas da atualidade, o estilista Christopher Raeburn já acreditava no reúso de materiais como a solução para os excessos da moda (e do mundo). Sua marca nasceu focada na reapropriação de tecidos militares antigos, como paraquedas, uniformes de soldados e apetrechos náuticos. Mas sua grande sacada está na aplicação de tais materiais em roupas de contornos clássicos e atitudes das mais atuais.