Arte Harper’s Bazaar

Por Jorge Wakabara

Quem era criança na década de 1990 deve lembrar: aquela caixa de lápis de cor mais completa, um sonho infantil, contava com uma cor que era uma mistura de areia e rosa claro. Um tom parecido com o do batom Hue da M.A.C. Era a tal “cor da pele”. Na moda, ela também já foi tendência – vale resgatar, aqui, a influente coleção de verão 2006 da Dior, ainda sob a batuta de John Galliano, com looks tipo camisola em tons de bege clarinho com rendas pretas.

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A palavra “nude” virou febre – bem antes do tal “manda nudes” de hoje. Talvez você não se lembre, mas pode imaginar: não havia negras no casting desse desfile. De não-brancas, constavam apenas três asiáticas.

De lá para cá, essa expressão “cor de pele” ganhou peso porque, claro, ela não faz o menor sentido em um mundo com tantos tons. As exposições “Polvo”, de Adriana Varejão, a primeira delas lá em 2013, em Londres, já abordavam o assunto. A artista se inspirou tanto no processo criativo dela, de mistura de cores para pintar peles em suas obras, quanto no censo do IBGE de 1976, em que as pessoas responderam o campo “cor” de 136 maneiras diferentes. E ela imaginou o que seria “cor de cuia”, “branca melada”, “enxofrada”…

Hoje, a “cor de pele” caiu em desuso e a indústria abraça a pluralidade, mesmo porque ela não pode ignorar que o seu mercado não é de uma cor só. Assim como na beleza, com a oferta de tons de base aumentando e melhorando, aos poucos o vestuário também assimilou essa demanda – especialmente nas roupas de baixo. Calcinhas, sutiãs e aquelas peças de compressão ganharam variedade de tons, vide a Skims, de Kim Kardashian.

Na última temporada nacional, marcas dos line-ups de SPFW e Casa de Criadores se destacaram explorando essa cartela. E a Dendezeiro de Hisan Silva e Pedro Batalha resolveu endereçar o tema diretamente – o fashion film “Cor de Pele” explora essas nuances incluindo também vitiligo, sardas, albinismo, estrias. “A ideia veio das nuances das tonalidades das pessoas pretas e indígenas”, explica Hisan, “e faz parte de uma pesquisa que começamos em 2019, se aprofundando nessa diversidade de peles. A gente olha muito para a rua e vivemos em Salvador, a cidade mais negra fora da África. A grande questão desse trabalho é conseguir discutir sobre a diversidade de peles e de narrativas e como tudo isso se entrelaça”.

Ele ainda reforça que a moda precisa ser um retrato da sociedade e analisa: “O racismo é um dos mecanismos mais bem construídos do País. Um dos motivos para ele ser tão bem feito é o jeito que faz com que a gente batalhe contra nós mesmos. Quando falamos sobre ‘nude’ nos anos 2000, onde só aparecem peles brancas, e durante anos isso é vivido sem nada mudar, com várias pessoas pretas entrando em crise, tentando embranquecer, entendemos como o racismo é bem construído.”

Hisan ainda reflete sobre a sensação de vestir algo da cor da sua pele, tanto na própria experiência com a coleção quanto observando os modelos que participaram da apresentação virtual: “Quando a sua pele consegue se dissolver dentro das roupas, você está vestindo sua própria armadura e sua própria felicidade. É uma alegria plena. Falar sobre pele é falar sobre uma beleza extraordinária.”

E como os outros estão usando a cartela de terrosos, que Hisan chama de “muito chique e ao mesmo tempo próxima do streetwear”? Varia entre aproximar a cor da pele e da roupa ou fazer contrastes. O cru brinca entre as peles de modelos da Aluf, Modem e Neriage. Um rosado surge na renda do Apartamento 03. Em marrom, os crochês da LED e do Ateliê Mão de Mãe dão textura, Renata Buzzo vem de cotelê e a Anacê traz padronagem. Na Rocio Canvas, um delicioso caramelo chega repleto de movimento. Na Misci, marrons estão na pele, no conjunto de duas peças e na bolsa, com efeito ton sur ton. Nesse infinito Pantone, chamar tudo de “cores de pele” é mais que uma tendência: é reconhecer, mesmo que tardiamente, e incluir.