Corsets e outras peças acopladas ao corpo ressurgem nas passarelas
Fendi – Fotos: Getty Images e Divulgação

Por Juliana Lopes

Houve um tempo em que um general, apelidado de “Ike”, era imitado pelas mulheres. Pelo corte de sua jaqueta, com suas linhas impecavelmente retas, a solidez do tecido, dos aviamentos e do contorno pouco orgânico nos ombros. Aquilo transmitia poder, força, defesa, e virou desejo das fashionistas que apelidaram a roupa de “Ike Jacket”. O nome dele era Dwight David “Ike” Eisenhower, o trigésimo-quarto presidente dos Estados Unidos, comandante dos aliados na Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Os anos 1940 eram tempos de luta, e as mulheres se uniformizaram.

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E houve um outro tempo, um pouco mais para a frente, em que as armaduras de guerreiros orientais encheram as páginas das revistas de moda de todo o mundo. Ombreiras parrudas, kimonos de luta, corpos em formato de triângulo invertido. Época em que a marca italiana Krizia chamava as mulheres de “edifício”. No cinema, “Blade Runner” trouxe uma heroína androide que usava ombreiras inspiradas nos anos 1940. Era a década de 1980 e as mulheres se vestiram novamente de guerreiras.

Corsets e outras peças acopladas ao corpo ressurgem nas passarelas
Balmain – Fotos: Getty Images e Divulgação

E há um momento que é o agora. Um momento estranho, em que a realidade dá um nó na nossa garganta e na nossa imaginação. A realidade chega antes do que sonhamos e nem sempre chega melhor. O pós-pandemia era sonhado como um momento de alívio, mas veio encavalado com uma guerra. Esse é o momento de agora.

Corsets e outras peças acopladas ao corpo ressurgem nas passarelas
Christian Dior – Fotos: Getty Images e Divulgação

E ele nos veste de lentes mais sombrias em que podemos desconfiar das marcas e ver a guerra onde não tem. Que tal perdoá-las? São empresas como outras, com trabalhadores como os outros, com funcionários talvez como eu e você. Tiremos a responsabilidade delas de serem gurus da salvação ou a cruz vermelha. Algumas são um pouco premonitórias, é verdade. Mas não é coerente dizer que elas se inspiraram em uma guerra que ainda nem havia começado na época de concepção das coleções.

Corsets e outras peças acopladas ao corpo ressurgem nas passarelas
Gucci – Fotos: Getty Images e Divulgação

Só que a guerra começou no meio das fashion weeks. E agora? Bom, é claro que iremos lembrar do general Ike dos anos 1940, e das armaduras dos anos 1980. Mas se estamos com vontade de nos armar, que lembremos então da nossa feminilidade que resiste. Ah, ela resiste. Na saia rodopiante da Dior. Nos corsets que surgiram nas passarelas de Burberry, Miu Miu, Gucci, Bottega e tantas outras. Balmain também trouxe armaduras fashion que nos enfeitam, definem nossos corpos, longe de querer nos oprimir.

Corsets e outras peças acopladas ao corpo ressurgem nas passarelas
Versace – Fotos: Getty Images e Divulgação

Vale lembrar que a polêmica sobre os corsets muitas vezes exagera no julgamento dessa peça. Comumente lembrados como itens apenas de tortura e repressão, eles precisam de um olhar mais apurado para serem analisados ao longo da história da moda. Será que as mulheres sempre foram vítimas do que vestiam? Pesquisadoras como Valerie Steel já atestaram que não foi bem assim. Amado por uns e odiado por outros, os corsets tiveram inúmeras funções como manter a postura, criar um formato de silhueta e… seduzir. O que você escolhe?