Foto: Arquivo Pessoal

Por Dayana Molina

A moda é um fenômeno cultural. Expressa os valores e costumes da sociedade. Isso explica porque, por muito tempo, os padrões normativos da indústria da moda excluíram culturas, corpos e modos de vida diversos. Essa inversão de valores estéticos e sociais resultou na ausência de uma moda com a “nossa cara”. Isso comprova que em todo continente nos faltam referências nas semanas de moda, capas de revistas, campanhas, estruturas editoriais e representatividade de modo geral.

Recentemente me deparei com citações e escritas minhas em TCCs de moda. Essas reflexões ganharam espaço em universidades da Colômbia e Equador. O que me deixou feliz e surpresa. Mas especialmente surpresa. Ainda não discutimos a relação da moda e a estética da América Latina de forma aprofundada. Aliás, a América é uma invenção colonial. Entendendo esse continente como Abya Yala, território originalmente indígena. Nossas referências intelectuais ainda estão muito distantes da diversidade cultural de nossas raízes. E isso justifica o abismo histórico que vivenciamos ao nos depararmos com narrativas não brancas ou negras. Viabilizar uma “américa latina” sob a ótica e a sabedoria indígena.

Como seres complexos que somos, é essencial entendermos nossa diversidade. O que é belo, se não algo subjetivo e que vai muito além de padrões? A superficialidade nos cansa, o mercado se esgota, torna-se enfadonho e revolta as pessoas reais que desejam consumir mais que estética, mas o somatório de experiências. Existe muito chão para a nossa indústria praticar o que prega. E essas mudanças elas se tornaram parte das melhorias que queremos ver no mundo.

Considero muito importante reafirmar quão rico é tudo que temos aqui. E como isso ainda não é valorizado. Ao contrário, somos muitas vezes estigmatizados. Quero ver e viver uma expressão global, que reflita o nosso comportamento quanto povos e sociedades. Provar e sentir a força das nossas cores, beleza e texturas dando o tom de uma moda que reflita quem somos. Haverá um tempo em que vamos falar de moda “latina” com respeito, dignidade, orgulho e reconhecimento étnico no mundo.

A valorização do “feito aqui” precisa ganhar força, aquecer os mercados locais, na garantia e na autonomia dos trabalhadores têxteis. O que coopera para melhores remunerações, autoestima criativa e estilo de vida com impacto positivo. É justo e poderoso que essa consciência ganhe espaço em nossas vidas “aqui dentro”. Por uma moda mais democrática, equilibrada entre a leveza e a histórias dos nossos.

Dayana Molina (@molina.ela) é escritora, pesquisadora e criativa. Já colaborou com grandes veículos de moda nacional e internacional. Sua atuação importante na área de moda, tem um legado na luta indígena e no ativismo pela representatividade. Seu trabalho tem fortes referências ancestrais, descolonizando o mercado criativo de moda, inspirando mudanças emergente e fortalecendo a luta dos povos indígenas. Sua herança ancestral é uma mistura entre o Andes e o sertão de Pernambuco; Mulher indígena ascendente dos povos aymara e fulni-ô, Day resgata a memória afetiva e se orgulha de sua identidade. Atua na moda há 14 anos. Trabalhou como stylist, figurinista e produtora. Atualmente é diretora criativa de sua marca, a NALIMO.