De fetichista a fashionista: látex ganha espaço em coleções de moda
Balmain – Foto: Getty Images

Você deve se lembrar. Em março, durante a semana de moda de Paris, Kim Kardashian usou três looks de látex recém-saídos da passarela da Balmain. As fotos rodaram o mundo seguidas por um teaser divertidíssimo do programa “Keeping Up With The Kardashians” mostrando a socialite tentando entrar em uma das calças de efeito pele sobre pele com a ajuda dos assistentes.

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Parece ter sido o que faltava para que o material, tradicionalmente conectado ao fetiche, ganhasse uma aura de glamour pop. Tudo isso junto fez disparar a cotação das criações de Olivier Rousteing para o atual inverno europeu e aqueceu a tendência de acessórios e roupas de borracha.

Por trás das peças da Balmain está Atsuko Kudo, japonesa radicada em Londres, que transformou o látex com efeito líquido em objeto de desejo ao moldar as curvas de Kim e outras celebridades. Lady Gaga, que começou a usar suas criações em 2009, escolheu um vestido vermelho para conhecer a Rainha Elizabeth II, no ano passado.

A lista de fãs famosas ainda vai de Beyoncé a Sabrina Sato, que exibiu um conjunto em tom azul pastel no Carnaval de 2019. No mesmo ano, Atsuko assinou peças para a alta-costura da Givenchy e, também, para o prêt-à-porter de marcas como Gucci e Vivienne Westwood.

De fetichista a fashionista: látex ganha espaço em coleções de moda
Saint Laurent – Foto: Getty Images

Entre as coleções que estão nas vitrines agora, é inegável que outro grande destaque vai para a Saint Laurent. Anthony Vaccarello, que ama a cor preta, mergulhou nos tons que eram a cara de monsieur Yves: roxo, pink, fúcsia, verde esmeralda, azul Klein e muito mais para montar sua versão de haute bourgeois.

Isso incluiu misturar, por exemplo, blazer de tartã, blusa com gola jabô, cashmere, acessórios dourados, vertiginosos sapatos slingback, cabelos penteados para trás e… muito látex: de vestidos ou calça de cintura alta a opções mais simples, como top e saia lápis. Do conjunto da obra salta uma certa pitada de perversão absurdamente chique que, de quebra, exala a visão de empoderamento e celebração da identidade feminina que Vaccarello vem reiterando em suas coleções desde que assumiu a marca.

Parte da atual onda de resgate da estética do final dos anos 1980 e 90, o látex feito com a borracha da seringueira cumpre uma jornada de séculos, desde seu uso por povos da Mesoamérica em 1600 a.C, passando pela invenção da capa de chuva Mackintosh em 1824, pelo catsuit hiper sexy do estilista britânico John Sutcliffe, nos anos 1950, e popularização da peça depois que virou uniforme da heroína Emma Peel de “Os Vingadores”, na década seguinte. O que, aliás, tinha tudo a ver com a vibe futurista daquele momento.

Incluindo o uso de PVC e vinil, depois foi a vez dos punks darem o tom de cultura rubber, especialmente quando Vivienne Westwood e Malcom McLaren mudaram o nome da loja londrina de Let It Rock para Sex, em 1974, acrescentando forte carga fetichista. Essa irreverência abriu espaço para o brilho colado ao corpo entrar no visual dos club kids e artistas das duas décadas seguintes e chegar ao século 21 em sintonia com correntes como a do #MeToo.

De fetichista a fashionista: látex ganha espaço em coleções de moda
Balenciaga – Foto: Getty Images

E, ainda, no gender e ageless e outras quebras de paradigmas, como bem ressalta Demna Gvasalia, que confrontou pureza religiosa e austeridade no inverno 2021 da Balenciaga e apimentou esse efeito com os itens volumosos em látex brilhante.

De fetichista a fashionista: látex ganha espaço em coleções de moda
Ão – Foto: Getty Images

Por aqui, a borracha une o viés entre moda e arte que norteia o trabalho de Marina Dalgalarrondo na Ão. Suas roupas feitas em parceria com a artista visual Raphaela Mehlson resultaram em formas e efeitos interessantes em peças que exigem atitude. Ou, como Valerie Steele registrou no livro “Fetiche” a reação de Naomi Campbell, no final dos anos 1980, ao ser perguntada sobre se sua roupa em látex era aviltante: “Mulheres crescidas podem fazer qualquer coisa que quiserem.”