Por Luigi Torre

O tricô nunca esteve tão presente nas passarelas nacionais, nem tão tecnológico – longe daquela imagem convencional. A nova menina dos olhos da moda brasileira surge justamente num momento em que a indústria de fios e tecidos (principalmente os planos) foi reduzida a quase nada no País. “A Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit) não faz mais levantamentos de malharia retilínea (tricô), pois esse mercado ficou muito reduzido devido à competição asiática”, diz um comunicado da organização. Mas o knitwear, como é chamado mundo afora, tem ganhado força entre marcas menonores como a técnica que permite criatividade (quase) sem limites e faz as vezes de uma roupa prática, versátil, mas, nem por isso, menos sofisticada.

“Tricô é fundamental no guarda-roupa atual, te acompanha em toda e qualquer situação, combina com tudo”, diz Gina Guerra, da GIG Couture. “É a melhor resposta para o que mais queremos – e precisamos – em nossas vidas.” Sob seu comando, a marca mineira se tornou uma das mais inovadoras do meio. Com maquinário de ponta, transforma as tramas em renda, jacquard e superfícies com relevos tridimensionais. Sua jaqueta bomber, de tricô, claro, está entre as peças mais desejadas da estação. Melhor exemplo de como algo antes visto como vintage ou retrô, e de aspecto artesanal, pode assumir ares modernos. “Com ele não tem limites, é um desafio constante para evoluirmos.”

Pensar no tricô como curinga do guarda-roupa não é algo muito convencional, de fato. Foi só há alguns anos, com o acesso mais amplo à tecnologia têxtil, que começamos a entender e explorar melhor suas possibilidades. “Quando fui trabalhar com minha mãe, 15 anos atrás, quase ninguém pensava nele como roupa do dia a dia”, relembra Lolita Hannud. “Mesmo quando começamos a trabalhar com a Lolitta, boa parte do sucesso aconteceu porque ninguém entendia muito bem o que era aquilo. Nunca quisemos nem nunca fizemos o básico.” E, assim, o que começou como uma marca de vestidos ajustados ao corpo, hoje se tornou uma das mais copiadas do Brasil, com primoroso trabalho de tecidos, quase todos tramados. Neste inverno, por exemplo, estruturas vazadas e teladas, texturas felpudas e até inspiradas em armaduras medievais têm como base pontos de tricô.

“Acesso a tecidos exclusivos todo mundo tem”, diz Lucas Magalhães, estilista mineiro com aptidão e talento especial para a manipulação têxtil. “Sempre gostei de transformar os materiais com que trabalho, e, com o tricô, me senti num verdadeiro laboratório. Posso misturar fios diferentes e conseguir infinitos efeitos.” Desde que recebeu investimento do grupo Nohda, de Patrícia Bonaldi, dedica-se cada vez mais a tais experimentos. Só em seu verão 2017, recém-desfilado no Minas Trend Preview, a trama representa 80% da coleção. E nunca de maneira óbvia – entre as novidades estão as combinações de fios de elastano com fios de lã, para criar volumes algo enrugados, e lurex com rayon, para evitar o desconforto do material brilhante com a pele.

“Estamos passando pelas mesmas dificuldades que todo mundo dessa indústria”, diz Liliane Rebehy, diretora de criação da Coven, marca-referência no assunto. “Sofremos das mesmas limitações: ou importamos tecidos – e os mesmos que os outros estilistas têm acesso – ou inovamos. Nossa vantagem é que o tricô te possibilita criar o próprio tecido.” E inovar é o que a Coven faz há anos. “Desde o início, sempre tivemos essa vontade de tirar o tecido do lugar-comum e dar a ele ainda mais possibilidades.” Neste inverno, por exemplo, ele aparece cortado em alfaiataria, com a mesma estrutura de um tecido plano, superleve e transparente, como seda, em vestidos de festa e com roupagem moderna e esportiva em silhuetas relaxadas e texturizadas. Confortável, sofisticado e prático. Quem ainda tem tempo para se preocupar com roupa que amassa?