Modelos no Holland Park, em Londres, e modelo no desfile da Prada, verão 2016 - Foto: reprodução
1920 – Modelos no Holland Park, em Londres, e modelo no desfile da Prada, verão 2016 – Foto: reprodução

Por Lucas Boccalão

1920

Não foi à toa que esta década recebeu o nome de Anos Loucos. Eram tempos de extrema efervescência cultural e bonança econômica, que resultavam em mais liberdade para as mulheres da época. Elas vestiam uma moda nada conformista, já livres dos espartilhos, com vestidos soltos beirando as canelas, tornozelos sempre à mostra, cintura desabada, silhueta tubular e tecidos levíssimos. O ritmo era frenético, como o charleston.

Quase cem anos depois, é essa mesma imagem que serve de referência para o verão 2016 de Miuccia Prada, fã confessa de roupas vintage. Seus modelos são de chiffon, seda e organza, ora com plissados estratégicos na lateral, ora com superfície estampada com grafismos art déco. Mas o styling – matador – afasta qualquer nostalgia excessiva e renova o look para mais 100 anos de melindre.

A moda nos anos 1930, com botões forrados de tecido e broche no decote. Desfile da Emilia Wickstead, verão 2016 - Foto: reprodução
1930 – A moda nos anos 1930, com botões forrados de tecido e broche no decote. Desfile da Emilia Wickstead, verão 2016 – Foto: reprodução

1930

A grande crise econômica mundial de 1929 fez a moda voltar a se “comportar”. A androginia e libertinagem dos anos 1920 se recolhem e a feminilidade (com destaque para a silhueta e as curvas do corpo) volta à pauta no início dos anos 1930. As saias se alongam e, pela primeira vez, os vestidos delineiam o contorno do bumbum. Acelere algumas décadas e a história parece se repetir.

Estilistas como a neozelandesa radicada em Londres Emilia Wickstead, queridinha de Kate Middleton e outras boas moças da sociedade britânica, fazem fama com versões atualizadas de tal silhueta. Como? Cortada em jacquard verde-pistache e modelagem estruturada, como na imagem ao lado. Saem os botões aparentes, caseados e os “frufrus” da época, entram mangas curtas e delicados bolsinhos. Afinal, quem sai de casa sem um telefone?

Modelos vestindo a moda característica dos anos 40 nas ruas de Londres; e Marc Jacobs, verão 2016 - Foto: reprodução
1940 – Modelos vestindo a moda característica dos anos 40 nas ruas de Londres; e Marc Jacobs, verão 2016 – Foto: reprodução

1940

Com o início da Segunda Guerra (1939-1945), o fechamento de alguns ateliês de alta-costura em Paris e o racionamento na compra de tecidos, a moda precisou sobreviver com o pouco que tinha – e sob o reflexo de todo o cenário. Já no fim dos anos 1930, a silhueta era militar, com ombreiras marcantes, corte reto e masculino e tecidos pesados e resistentes, como o tweed.

Marc Jacobs, que, assim como Miuccia Prada, sempre lança mão de um mix de referências, desfilou conjuntos completamente 40’s sobre a passarela que armou no Ziegfeld Theater, em Nova York. Feito de cetim, com lapela de smoking e combinado a estola de plumas e saltos com tiras decoradas por cristais e pérolas, é releitura fiel da imagem glamorizada que Hollywood vendia como escape àqueles tempos amargos.

Grupo de debutantes saindo do Palácio de Buckingham, em Londres;  e Dolce & Gabbana, verão 2016 - Foto: reprodução
1950 – Grupo de debutantes saindo do Palácio de Buckingham, em Londres; e Dolce & Gabbana, verão 2016 – Foto: reprodução

1950

O New Look de Dior, criado em 1947, no pós-Guerra, é a grande referência da moda na década de 1950. Cintura marcada, saia godê, tons pastel, cinto fino, saltos altos e luvas. Metros e metros de tecidos anunciavam o fim da crise e o retorno à exuberância. Nascia, ali, um clássico, influente até os dias de hoje, principalmente em roupas de festa ou que buscam uma noção clássica de elegância.

Caso da dupla Domenico Dolce e Stefano Gabbana. Há quase uma década, os estilistas usam a silhueta 50’s como base para suas coleções – italianíssimas. Na de verão 2016, dão um gostinho de todas as mais famosas atrações das cidades de sua terra natal, inspirados por pôsteres antigos do país nos anos de Fellini. Bello!

1960 - Looks Courrèges, de 1969; e Courrèges, verão 2016 - Foto: reprodução
1960 – Looks Courrèges, de 1969; e Courrèges, verão 2016 – Foto: reprodução

1960

A liberação sexual, o terremoto jovem, a corrida espacial, a pílula anticoncepcional, a minissaia. Poucas décadas foram tão revolucionárias como a de 1960. Com padrões comportamentais postos em xeque (e virados do avesso), a moda ganhou liberdade máxima. Além de dividir a “criação” da minissaia com Mary Quant, André Courrèges foi uma estrela da década.

Sua silhueta, de tops e bodies justos, como a indumentária dos astronautas (temas futuristas eram uma obsessão), combinados a saias em A, é, até hoje, uma das imagens mais icônicas da história. Em pleno século 21, cabe aos estilistas Sébastien Meyer e Arnaud Vaillant dar vida nova à maison. Atualizando os principais códigos da grife, livram-se do casaqueto, enxugam o shape da saia e diminuem ainda mais seu comprimento. Resultado: desejo instantâneo em mais uma geração.

1970 - Suzi Quatro com costume de couro, nos anos 1970; e Gucci, verão 2016 - Foto: reprodução
1970 – Suzi Quatro com costume de couro, nos anos 1970; e Gucci, verão 2016 – Foto: reprodução

1970

Além dos hippies, dos looks psicodélicos embalados pela onda Flower Power e visual unissex, o glam rock foi uma das maiores influências dos anos 1970. Para roqueiros e roqueiras, macacões de couro metalizado e com boca de sino, alfaiataria em jacquard, brocados, muito paetê, glitter e salto alto (plataforma, claro!), batom e mais maquiagem.

Lembre-se de David Bowie, na fase Ziggy Stardusrt; de Slade, uma das mais famosas bandas glitter rock; ou da cantora Suzi Quatro, figura que serviu de inspiração máxima para Alessandro Michele, no verão 2016 da Gucci – melhor reinvenção do romantismo opulento dos tempos de paz e amor.

1980 - Modelos com vestidos Thierry Mugler, nos anos 1980; e Balmain, verão 2016 = Foto: reprodução
1980 – Modelos com vestidos Thierry Mugler, nos anos 1980; e Balmain, verão 2016 = Foto: reprodução

1980

O visual power woman, de Thierry Mugler e Claude Montana, definiu a estética da moda durante a chamada década perdida. Formas justas, mangas bufantes, ombros marcados e cintos largos se tornaram uniforme das mulheres que começavam a comandar escritórios e salas de reunião. À frente da Balmain desde 2011, Olivier Rousteing é quem melhor representa a evolução dessa estética.

Mantém a silhueta delineadora, os volumes inflados, a cintura marcada, mas deixa de lado toda a cartela vibrante em favor dos neutros, terrosos e do preto. Assim, com nuances mais contidas e babados fluidos e transparência, suaviza os excessos polêmicos daquela década.

1990 - Kate Moss, em 1993, na festa do Look Of The Year da Elite Models, em Londres;  Saint Laurent, verão 2016 - Foto: reprodução
1990 – Kate Moss, em 1993, na festa do Look Of The Year da Elite Models, em Londres; Saint Laurent, verão 2016 – Foto: reprodução

1990

O grunge, a camisa xadrez, o jeanswear, as lingeries e o nascimento do street style. Nenhum desses elementos, porém, influenciou tanto a estética 90’s quanto o minimalismo. Resposta ao exagero de todos os anos anteriores, o estilo tem no vestido-camisola sua melhor manifestação. A peça, no caso, é das mais importantes nas coleções de verão 2016, presente nas propostas de quase todos os estilistas.

Hedi Slimane, na Saint Laurent, por exemplo, mostrou desde modelos rendados até o fluido e metalizado da foto à esquerda. Para agradar sua “party girl roqueira”, ele se inspira na maior de todas: Kate Moss. Na festa do Look of the Year da Elite Model, em 1993, ela andou pela pista em um slip dress completamente transparente.