Descubra como os homens criaram o salto alto

Você sabia que eles já foram um sapato social masculino?

by redação bazaar
Foto: Arquivo Harper's Bazaar

Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

Por gerações eles significaram feminilidade e glamour, mas um par de saltos altos já foi essencialmente um sapato social masculino. Bonitos, provocantes e sensuais, os saltos estão entre os calçados mais procurados pelas mulheres, mas mesmo as suas defensoras mais ardorosas admitem que eles não são práticos.

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

Dirigir ou caminhar com saltos altos, por exemplo, é muito difícil, porque eles ficam facilmente presos na calçada ou no tapete do carro. Além disso, eles não são confortáveis, o que explica por que é um sapato usado essencialmente durante a noite ou apenas no escritório.

No começo de julho, o ministro do Trabalho e da Saúde do Japão, Takumi Nemoto, defendeu que os escritórios do país obriguem as mulheres a usar salto alto no ambiente de trabalho, argumentando que ele é “necessário” e “apropriado” como reação a uma petição que pede o fim do requerimento.

A afirmação veio depois que Nemoto foi perguntando sobre a petição protocolada por um grupo de mulheres que querem que o governo proíba os escritórios a obrigar empregadas a usarem salto alto – hoje os sapatos desse tipo são requerimento até para uma mulher japonesa que participa de uma entrevista de emprego.

Originalmente, porém, os saltos não foram projetados para caminhar, como contou a historiadora canadense Elizabeth Semmelhack, do Bata Shoe Museum, de Toronto, ao “The Guardian”. “O salto foi usado por séculos no Oriente Médio como um calçado de montaria. Quando o soldado subia na cela, ele o ajudava a manter os calcanhares presos sobre o cavalo, e assim ele tinha mais segurança para usar seu arco e flecha”, contou.

No final do século 16, o rei da Pérsia, Shah Abbas I, era dono da maior cavalaria do mundo, e procurava alianças com governantes na Europa Ocidental para ajudá-lo a vencer seu grande inimigo: o Império Otomano. Em 1599, Abbas enviou a primeira missão diplomática persa ao continente europeu, passando por cortes do que hoje são a Espanha, Alemanha e Rússia. Logo, uma onda de interesses em tudo o que vinha da Pérsia atingiu a região – inclusive os sapatos.

Os saltos persas foram rapidamente adotados pelos aristocratas europeus, que procuravam dar a eles uma aparência de virilidade, um aspecto masculino que, de repente, apenas aquele tipo de calçado parecia dar. Quando a moda dos saltos chegou aos estratos sociais mais baixos, os aristocratas responderam aumentando o tamanho dos seus – e então surgiu o salto alto.

Segundo Semmelhack, nas vielas de pedras e terra da Europa do século 17, os novos sapatos não tinham tanta utilidade – mas essa era exatamente a questão. “Uma das melhores maneiras com que um status pode ser transmitido é sua impraticabilidade”, disse ela. Para a historiadora, as classes altas europeias sempre usaram roupas e sapatos impraticáveis, desconfortáveis e luxuosos para manter o privilégio de usá-los em relação aos pobres. “Eles não precisam trabalhar no campo ou caminhar longas distâncias, por exemplo”, completou.

Um dos maiores colecionadores e fãs de saltos era Luís XIV, o rei francês mais conhecido da história que, apesar do tamanho social e histórico, era baixinho: tinha 1,63 metro. Ele ficava mais alto usando um salto de 10 centímetros, geralmente decorado com cenas de guerras. Os saltos e as solas eram sempre vermelhos porque o corante era caro e porque carregava um tom diferente. A moda logo atravessou o Canal da Mancha: Carlos II foi coroado rei da Inglaterra em 1661 usando um enorme salto alto vermelho ao estilo francês, apesar de já ser um homem alto (1,85 m).

Na década de 1670, Luís XIV baixou um decreto permitindo que apenas membros da sua corte poderiam usar saltos altos vermelhos. Na letra da lei, qualquer pessoa ao redor da França teria que fiscalizar os outros em favor da medida real, mas na prática era possível encontrar várias imitações do calçado nas tendas dos bairros mais pobres.

Apesar de os europeus terem sido primeiro atraídos aos saltos persas por causa de seu “ar masculino”, a moda feminina começou a adotar elementos do vestuário masculino e, assim, expandiu o que era essencialmente dos homens para mulheres e crianças. Em 1630, elas já cortavam o cabelo e prendiam dragonas nas roupas. “Elas podiam fumar, podiam usar chapéu – que até então era muito masculino – e também passaram a usar salto. Era um esforço para masculinizar sua moda”, disse Semmelhack.

Naquela época, as classes superiores europeias passaram a seguir uma moda de calçados “unissex” que durou até o final do século 17, quando as coisas começaram a mudar, segundo a historiadora: “Você começa a ver uma mudança no salto, em que os homens passam a usar sapatos com saltos mais robustos, fortes e baixos, enquanto as mulheres assumiram sapatos mais curváceos”, disse. Os dedos dos pés dos sapatos femininos eram geralmente alinhados para que, quando eles aparecessem fora do vestido, tivessem a aparência delicada e pequena.

Poucos anos depois, um movimento intelectual que veio a ser conhecido como Iluminismo trouxe consigo uma nova moral, baseada no uso racional e útil das coisas e na ênfase na educação em vez dos privilégios. A moda masculina, assim, seguiu uma direção de praticidade ao invés de luxo: na Inglaterra, os aristocratas começaram a vestir roupas simples que se ligavam ao trabalho de administração dos estados do país. Foi o começo do que é chamado pelos historiadores de Grande Renúncia Masculina – homens abandonando joias, cores brilhantes e acessórios de ostentação em favor de aparências mais homogêneas e escuras.

Dessa forma, as roupas dos homens deixaram de operar uma distinção de classe social, e quando essas fronteiras foram abolidas, as distinções entre os sexos também se tornaram menos pronunciadas. “Começou uma discussão sobre como os homens, independentemente da estação, de nascimento e de educação, poderiam se tornar cidadãos”, afirmou Semmelhack. “As mulheres, em contraste, eram vistas como emocionais, sentimentais e ineducáveis. O desejo feminino começou a ser construído em termos de uma moda mais irracional e do salto alto – mais uma vez separado de sua função original de montaria -, e se tornou um exemplo do vestuário impraticável aos homens.”

Segundo Semmelhack, por volta de 1740 já era quase impossível ver homens usando salto alto na Europa – ele era visto como inútil, afeminado e até bobo. Foi apenas 50 anos antes dele desaparecer dos pés das mulheres também, caindo em desgraça depois da Revolução Francesa. O salto só voltaria à moda na metade do século 19, quando a fotografia começou a transformar o jeito que a moda – e a feminilidade – era construída.

A pornografia foi a primeira a abarcar a nova tecnologia, tirando fotos de mulheres nuas para cartões-postais e posicionando as modelos em poses que juntavam as imagens clássicas de mulheres peladas, mas usando apenas os modernos saltos altos. Segundo a historiadora, essa associação entre a indústria pornográfica foi a responsável por colocar o salto alto como um acessório erótico da mulher.

Os anos 1960 ainda veriam o retorno de homens usando saltos em botas em regiões rurais dos Estados Unidos, do Brasil e de países da Ásia, assim como o dandismo dos anos 1970 faria das plataformas um acessório indispensável do mundo fashion, mas a era em que os homens andavam com saltos no cotidiano ficou no passado.

Leia mais:
Clássico e atemporal: quem aposta no duo P&B sempre acerta
Estilo boho volta repaginado
Como combinar corretamente suas joias