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Dizer que Miuccia Prada mudou a moda é um eufemismo. O que ela fez foi um atentado ao pudor estético da burguesia. Ao longo das últimas décadas, ela consolidou um império que desafia o consumo imediato e o prazer visual, instaurando um fenômeno que até hoje faz muita gente coçar a cabeça, mas que dita o ritmo das passarelas globais: o Ugly Chic.
Existe uma cena que resume tudo o que você precisa saber sobre Miuccia Prada: é 1968, em Milão. Estudantes em toda a Europa estão nas ruas, jogando pedras em policiais, exigindo revolução. A jovem Maria Bianchi — que ainda não se chamava Miuccia Prada — também está nas ruas, distribuindo panfletos comunistas e defendendo os direitos das mulheres. Mas ela está usando um terno Yves Saint Laurent.
A contradição que não passou despercebida nem por ela mesma, seria, décadas depois, o motor secreto de uma das carreiras mais marcantes da história da moda.
Mas, para entender todo esse cenário, precisamos primeiro entender a mente por trás da etiqueta.
Do ativismo ao ateliê
Miuccia não é, de jeito nenhum, o que se espera de uma diretora criativa de duas das maiores casas de moda do mundo.
Nascida Maria Bianchi em Milão, em 10 de maio de 1948, a caçula dos netos de Mario Prada — aquele que fundou a Fratelli Prada em 1913, vendendo malas e artigos de couro para a aristocracia italiana — cresceu em uma família burguesa e extremamente católica, que tinha absolutamente tudo o que ela, intelectualmente, desprezava.
Ela foi para a Universidade de Milão estudar ciência política. Filiou-se ao Partido Comunista Italiano e saiu distribuindo panfletos em manifestações. Passou cinco anos no Teatro Piccolo de Milão treinando para ser mímico. Quando a mãe se aposentou e o negócio da família precisou de um sucessor, ela assumiu o posto em negação.
“Sempre pensei que havia apenas duas profissões nobres: política e medicina”, ela confessou à mídia anos depois. “Fazer roupas era um pesadelo pra mim. Eu tinha vergonha, mas fiz mesmo assim.”
Ela tinha vergonha. Para uma feminista nos anos 70, entrar para a indústria da moda era quase uma traição de classe, pois moda reforçava hierarquias, fetichizava o consumo e “exigia” que as mulheres se transformassem em objetos decorativos. Ela própria disse que trabalhar na empresa da família, sendo na indústria da moda, era “a pior coisa que você poderia fazer nos anos 60 e 70, como feminista”.
E é justamente esse conflito que faz de Miuccia Prada uma figura tão diferente de tudo o que veio antes. Ela não entrou na moda para fazer roupas bonitas, mas por obrigação familiar, carregando um PhD, um histórico de ativismo e um desprezo profundo pela ideia convencional do que é “elegante”. Ela virou a moda de cabeça para baixo e trouxe o rigor acadêmico e a crítica social para dentro da estrutura mais capitalista que existe.
Prólogo: A lona do manifesto
Para Miuccia, o conceito de “bonito” que dominava o mainstream — especialmente nos excessos dourados dos anos 80 — era burguês, previsível e um tanto quanto cafona. Era a perfeição milimétrica, o glamour, a mulher como um bibelô de vitrine e raramente oferecia algo ao intelecto.
O primeiro soco no estômago da indústria dado por Miuccia veio com uma bolsa de lona. Em 1984, em um momento em que as grandes casas de moda competiam para ver quem usava o couro mais exótico e a ferragem mais elegante, a Prada lançou a mochila “Vela”, feita de nylon preto industrial (o mesmo material usado em tendas militares e embalagens utilitárias).
A moda não soube bem o que fazer com aquilo. Era funcional demais para ser luxo, mas caro demais para ser utilitário. Ali estava a semente da filosofia da marca: o “certo” é, muitas vezes, entediante demais para ser interessante.
1996: O ano em que o feio virou chique
Se a mochila de nylon foi o prólogo, a coleção Primavera/Verão de 1996 foi a síntese em sua forma mais escandalosa. Miuccia a chamou de “Banal Eccentricity“ (Excentricidade Banal) e a imprensa ficou, para sempre, conhecendo-a como o nascimento do ugly chic.
Aqui, o contexto é muito importante: 1996 era o auge da beleza hipersexualizada na moda. Tom Ford estava na Gucci colocando todo mundo em cetim, a Versace continuava com sua luxúria dourada e a Calvin Klein tinha acabado de inventar o minimalismo erótico. Em todos os cantos o corpo feminino era exposto. A mulher deveria parecer desejável de uma maneira muito específica e heteronormativa.
Miuccia chegou com estampas que pareciam tapetes de avó, marrons arenosos e verdes abacate desbotados, sobreposições de tecidos sintéticos que ninguém consideraria chique, silhuetas que não valorizavam a cintura e não alongavam as pernas. A crítica ficou dividida: alguns chamaram de genial, outros, de horrível. Miuccia deve ter rido dos dois grupos.
O feio como ato político
Aqui é onde o PhD em ciência política entra em cena. Para Miuccia, a beleza convencional na moda era – e sabemos que continua sendo – um dispositivo de controle. A ideia de que uma mulher deve ter um certo tipo de corpo, usar roupas que o “valorizem” de determinada maneira, seguir uma hierarquia de cores e formas consideradas “corretas” pela indústria: tudo isso é um sistema de normatização. E ela, que passou anos distribuindo panfletos sobre direitos das mulheres nas ruas de Milão, sabia reconhecer um sistema assim quando via um.
No começo, o ugly chic não era uma estética, mas uma posição ética. Ao fazer roupas “erradas” (mas de um jeito que exige atenção e que convida ao pensamento), Miuccia estava dizendo: a mulher que usa Prada não precisa de aprovação.
A assinatura psicológica
O crítico de moda Alexander Fury uma vez observou que “a assinatura de Miuccia Prada é psicológica, não física”. E é o que realmente podemos ver: não existe uma silhueta Prada assim como existe uma cintura Dior ou um ombro Balenciaga.
É por isso que sua assinatura nunca se repete da mesma maneira. Ela passou do ugly chic dos anos 90 para o que chamaram de sincere chic nos anos 2000. E quando ela ficou mais “bonita”, pareceu perturbador para quem já estava acostumado com o desconforto. Ela então voltou à provocação, mas por outro ângulo. E se mantém nessa dança com a expectativa do espectador até hoje.

Foto: Reprodução/Instagram @prada
Seja na Prada, ou em sua irmã – mais jovem e mais ousada – Miu Miu, cada coleção é uma tradução de sua autocontradição em tecidos e texturas: a feminista que ama moda, a comunista que herdou uma marca de luxo, a intelectual que entendeu que as roupas importam.
Suas peças funcionam como “uniforms for the slightly disenfranchised” (no português, uniformes para as ligeiramente marginalizadas). A frase é dela e é precisa. Uniformes: vemos em roupas padronizadas, funcionais, sem futilidade. Ligeiramente: não as completamente excluídas. Marginalizadas: mulheres que se sentem fora dos códigos convencionais da feminilidade exibicionista.
A democracia do mal gosto
Outro efeito do ugly chic é o que ele faz com a ideia de “bom gosto”. Esse conceito (tão usado como ferramenta de exclusão de classe) é o que Miuccia adora bagunçar.
Ao usar marrons desbotados e laranjas vibrantes, mixar estampas que não combinam, escolher silhuetas que parecem erradas, ela está dizendo que o “bom gosto” é mantido por quem tem interesse em manter as regras do que pode ou não.

Foto: Reprodução/Instagram @prada
O nylon, o Mussolini e os futuristas
Existe um fio que liga as peças de Miuccia ao futurismo italiano (aquele movimento estético do início do século XX que adorava materiais industriais e formas de velocidade). Quando ela usou o nylon para fazer a mochila que comentamos no começo desse texto, estava, consciente ou não, conversando com Marinetti, o fundador do movimento futurista, e sua adoração pelos materiais industriais.
Em outro momento, quando recortou uma jaqueta militar da era Mussolini para mulheres, transformando os bolsos que foram projetados para exagerar o peitoral masculino em formas que celebram os seios femininos, ela estava praticando uma apropriação feminista perceptível para quem conhecia a história e, no mínimo, estiloso para quem não conhecia.
A Fondazione
Em 1993, Miuccia e seu marido Patrizio Bertelli fundaram a Fondazione Prada, em Milão. O lugar é um museu de arte contemporânea, filosofia e experimento cultural.
Instalada em um espaço que foi uma destilaria de gin do século XIX e reformada pelo escritório OMA do arquiteto e urbanista neerlandês Rem Koolhaas (que também projetou os cenários das passarelas da Prada por boas décadas), a Fondazione se tornou um dos pontos culturais mais importantes da Europa.
Uma vez, quando perguntaram à Miuccia se ela não havia abandonado a política ao entrar na moda, ela respondeu: “Hoje, para mim, trabalhar na Fondazione é fazer trabalho político. Porque é fazer cultura.”
Para quem não sabe, ela chegou a ser convidada para concorrer a um cargo político na Itália, mas recusou porque achava que fazer política pela metade era pior do que não fazer. E a moda era sua vocação real. Ela decidiu fazer moda de um jeito que fosse também política, filosofia e arte.
Na Fondazione, Miuccia mistura contextos totalmente diferentes. Ela coloca obras de Louise Bourgeois ao lado de estátuas clássicas romanas e instalações de Carsten Höller (como seus famosos túneis e cogumelos gigantes) que forçam o visitante a fazer questionamentos.
Isso explica por que a moda dela é “difícil” para o olhar. Em sua percepção, a arte e o cinema servem para limpar o paladar do “bonito burguês”. Se ela exibe uma instalação de arte perturbadora na Fondazione, fica muito mais fácil entender por que ela coloca uma estampa de “carne crua” ou uma cor “vômito” em uma coleção. É tudo parte de uma mesma linha: por que temos medo do que não é perfeito?

Foto: Reprodução/Instagram @fondazioneprada
A vergonha que revolucionou
Existe uma contradição legal nessa história. No começo, Miuccia Prada sentiu vergonha de trabalhar com moda. Achou que estava traindo seus ideais. E foi isso que a fez criar a única moda que realmente desafiou esses problemas.
Se ela tivesse amado a moda desde sempre, provavelmente teria feito roupas lindas e esquecíveis. Mas como ela chegou trazendo filosofia política, teatro e ativismo feminista, ela a viu de um ângulo que ninguém de dentro da indústria conseguia ver.
Demna Gvasalia na Balenciaga deve muito a ela. Marc Jacobs também. Toda a linha do ugly chic moderno (aquelas roupas propositalmente “erradas” que dominam o luxo de hoje) passa por aquela coleção de 1996 com seus marrons desbotados e suas formas fora do comum.
Essa influência vai muuuuito além da estética. Miuccia mudou a pergunta que a moda sempre fez. Antes dela, era: essa roupa faz você parecer bonita? Depois dela, passou a ser: essa roupa faz você pensar? Te faz sentir algo além de aprovada pela sociedade?











