Para onde estará nos levando esse feitiço da desaceleração do tempo? - Foto: Agência Fotosite
Para onde estará nos levando esse feitiço da desaceleração do tempo? – Foto: Agência Fotosite

Por Vivian Whiteman

“Tem muita coisa rolando. Não podemos mudar para um lugar onde nada acontece e tudo vai mais devagar? Eu serei feliz lá.” Essa citação romântico-escapista abriu o desfile de verão 2015 de Marc Jacobs, em setembro passado. Fashionistas logo pegaram o recado: corra, querida, corra e… desacelere! Tudo fazia sentido dentro do mercado. Jacobs acabava de sair da Louis Vuitton e muitos de seus colegas, como Alber Elbaz, davam declarações sobre uma certa estafa generalizada e as crescentes exigências da moda ultrarrápida. Mas não era apenas uma indireta interna. O designer usou todas as suas mandingas cênicas para fazer um statement mais amplo.

O trecho acima foi tirado do curta The Girl Chewing Gum, do cineasta de vanguarda John Smith. O responsável por essa escolha, e pela sugestiva trilha, foi o produtor e músico Steve Mackey, baixista da banda Pulp e marido de Katie Grand, stylist e colaboradora de Jacobs de longa data. Um time irônico e inteligente, necessário para dar conta da tarefa – eles prepararam o terreno para que o estilista espalhasse seu novo feitiço.

E se há um encantador eficiente no mercado, esse alguém é Marc Jacobs. Não se trata de número de vendas apenas, mas de algo entre a imagem, o imaginário e a capacidade de convencer, cativar. E magia, é claro, nem sempre é tarefa simples. Tanto pode o sapo virar príncipe, quanto o príncipe virar sapo. Principalmente quando é lançada por um designer capaz de conquistar multidões.

Mas para onde estará nos levando esse feitiço da desaceleração do tempo? A indústria da moda já vem falando disso há algum tempo. Tem até nome: slow fashion. Mas ainda é muita teoria para pouco dia a dia. É fácil falar de slow fashion no mercado alternativo, meio hippie, ou então na esfera do alto luxo, onde se pode esperar e pagar por itens especiais. Também é algo que faz mais sentido para as marcas que abraçam de fato a ideia de peças duradouras e atemporais. Mas como falar de slow fashion no reino da rapidez, das passarelas mutantes, do rodízio de tendências, da fonte que alimenta a difusão, das blogueiras, das celebridades?

Difícil? Não para Marc. O Harry Potter da imagem de moda acertou na alquimia. Falou de fuga e tranquilidade enquanto mostrava uma coleção militarista. Deu a entender que a desaceleração não será tão suave – na verdade, será conquistada com muita luta. Ou terá insinuado que a tranquilidade pressupõe um mundo uniformizado, onde deve-se abrir mão da ilusão de ser “especial” para se misturar à multidão? Será que faríamos isso por livre e espontânea vontade?

Os looks-uniforme davam margem a muitas interpretações. E, ao mesmo tempo, faziam o de sempre: levar milhares de pessoas até a Zara mais próxima em busca de um modelito militar. Na mesma estação, a maga Miuccia Prada colocou sua varinha nesse caldeirão. E ela também não estava apostando na desaceleração bucólica. É num cenário de deserto pós- apocalíptico que a grife buscou tranquilidade, uma paz impossível, entre tecidos novos confeccionados com técnicas artesanais dos anos 1700 e patchworks que guardam pedacinhos de outros passados, presentes e futuros. Ou seja, depois que tudo explodir, vamos recolher os cacos, os trapos e pensar no que deu errado entre nossa ideia de um mundo mais relax e o que fomos incapazes de fazer para alcançá-lo.

Muita loucura? Pode ser. Mas a moda é assim mesmo, reflete a doideira do mundo amplificando tudo. Então, não poderíamos esperar nada muito diferente nesse momento maluco e tão cheio de contradições da existência humana. Mesmo na rotina realista, estamos vivendo um dilema, divididos entre mundos e ideias. Sonhamos com o dia de descansar, com aquela viagem longa, mas, para isso, temos de trabalhar em dobro. E mesmo quando chegamos a um destino paradisíaco, aquele lugar tranquilo onde seremos felizes, não sabemos se estamos mesmo contentes e passamos o tempo todo no Instagram, tentando provar que, enfim, desaceleramos, que estamos mais desencanados.

Compramos menos, procuramos coisas especiais nos brechós, usamos aquela peça de família, mas, escondidos, entramos na loja de fast fashion que está em liquidação. Pegamos seis quarteirões de bicicleta para comprar um tomatinho orgânico, mas, na calada da noite, tomamos duas latas de Coca-Cola, vendo pela milésima vez um episódio de Friends. Viajamos para um retiro ecológico, mas não vemos a hora de encontrar um ponto com wi-fi pra espalhar para o mundo nossa selfie perto da fogueira. Não existe solução fácil. Tem a ver com a necessidade que temos de nos destacar e, ao mesmo tempo, de pertencer a um certo padrão.

O mundo precisa desacelerar. É certo que comer em cima do computador faz mal; que perder meia vida no trânsito é loucura; que ter cem pares de sapatos te qualifica como uma acumuladora; que o planeta não tem mais recursos para bancar tanto consumo; e que não há glamour numa roupa feita em condições degradantes. Mas também é certo que pequenos vícios, grandes caprichos e inconsequências nunca vão desaparecer, porque são eles que dão graça e verdade à vida.

Marc Jacobs, mais uma vez, está certo. Será uma guerra mudar nosso estilo de vida. E, antes de pensarmos em batalhas políticas ou econômicas, devemos pensar na primeira luta: entre nós e o exército do nosso desejo. O que somos, o que queremos e do que iremos abrir mão? Como em uma roupa, no final das contas, é tudo uma questão complexa de equilíbrio, proporção, criatividade, senso crítico e certa capacidade de conviver com a realidade e enxergar além. Tudo junto.