Inverno 2016/17 da Saint Laurent  na PFW - FotoL Getty Images
Inverno 2016/17 da Saint Laurent na PFW – FotoL Getty Images

Por Luigi Torre

Com apenas um dia para o fim da temporada, podemos afirmar que esta foi uma bastante confusa. Cheia de incertezas, começou com toda a discussão sobre se as coleções deveriam ou não ser apresentadas apenas quando prontas para a venda imediata (o tal see now buy now). E ainda com questões não resolvidas sobre a enorme pressão sobre os estilista, falta de tempo, muitos produtos, pouca criatividade e alta rotatividade de profissionais nas grandes maisons (Dior e Lanvin, por exemplo, seguem sem diretores de criação). Mas há males que vem para o bem e o clima de desordem colocou alguns dos nomes mais influentes da indústria pensando sobre o que realmente importa: as roupas.

 Há de convir que, muitas vezes, fala-se mais do entorno do que sobre aquilo que cruza as passarelas. Do cenário, das celebridades, da teatralidade e de qualquer outra pirotecnia que possa acompanhar os desfiles. Não mais. Demna Gvasalia apresentou seu début para Balenciaga numa sala cinza e com isolamento acústico. Phoebe Philo, na Céline optou por não cobrir a quadra de tênis onde habitualmente apresenta suas coleções para aproximar sua plateia das roupas calmas, confortáveis e à prova das efemeridades das tendências. Bem como Stella McCartney, que apesar da grandiosidade do Palais Garnier, também preferiu trabalhar com a ausência de temas para o inverno 2016 e focar naquilo que faz melhor: peças oversized, confortáveis e com uma alfaiataria relaxada, agora acompanha do leve toque vintage, recorrente nesta estação.

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E você percebe que não se trata de mera tendencinha passageira, quando até mesmo a Chanel, conhecida por suas megaproduções cenográficas, ambienta sua nova coleção num salão de alta-costura reproduzido no interior do Grand Palais. Sem maiores distrações e com todos os convidados na primeira fila não havia como prestar atenção em outra coisa, senão nas releituras dos mais icônicos elementos de Coco Chanel e nas técnicas de couture trabalhadas por Karl Lagerfeld e os ateliês da maison. O foco é no clássico tailleur de tweed, mas aqui não tão clássico. Sua silhueta é a do momento, alongada, ajustada na parte de cima e solta cintura abaixo. As jaquetas também chegam renovadas, na contramão da temporada, são em sua maioria de proporções reduzidas e encurtadas. Pérolas e camélias dão conta do tema sobreposições, tão importante na estação, enquanto jaquetas do que parecia ser náilon matelassê, hoodies e jeans falam da alta moda adaptada às necessidades do dia a dia (leia-se a praticidade do streetwear).

 Mais do que uma homenagem ao legado e eterna influência da marca, o que Lagerfeld parece querer dizer é que, na verdade, não precisamos de temas e novidades pela pura novidade. Às vezes, apenas roupas boas já dão conta do recado – e do desejo.

 É essa a sensação no terceiro desfile da Hermès sob direção criativa de Nadège Vanhee-Cybulski. Sim, trata-se de uma marca que sempre foi mais chegada ao low do que ao hi-profile. Ainda assim, há algo bastante relevante na discrição com que a estilista trabalha formas amplas e cores neutras. Apesar de algumas formas um pouco rígidas demais, a coleção se desenvolve maravilhosamente bem sobre peças como o vestido com recortes geométricos em tons pastel, os conjuntos de cashmere cinza, nos vestidos de couro e nos de seda, cortado em viés que encerram a apresentação. São como portos seguros de calmaria no meio do furacão.

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Furacão – de boatos, no caso – foi o que antecedeu o desfile de Saint Laurent. Nada se confirmou sobre a possível saída de Hedi Slimane da marca, mas o que se viu ali foi uma clara e bem-vinda mudança de rumo. E em total sintonia com tudo o que já foi dito. Em nova locação, o palácio do século 18 recém-reformado que abrigará os ateliês da grife, não havia palco, show de luzes nem sequer trilha. Apenas uma voz feminina anunciando os looks por números, como se fazia nos antigos desfiles de alta-costura. E alta-costura foi o que Slimane apresentou. Depois de desfilar a primeira parte de seu inverno 2016 em Los Angeles, mês passado, a segunda é uma verdadeira homenagem ao legado de Yves Saint Laurent, em si. Com forte acento 80’s, os looks que desciam as escadarias e desfilavam para inspeção minuciosa da plateia são verdadeiras versões modernas de elementos criados pelo grande mestre, ainda que sob o olhar superjovem e superskinny do atual diretor de criação.

Ombros marcados e protuberantes, cintura marcada, vestidos de couro, babados, as camisas de seda, o smoking e os casacos de pele volumosos são peças que Slimane explora desde sua primeira coleção para a Saint Laurent, mas nunca com tamanha sofisticação. Se a atitude rocker ainda é sensível, é também a perfeição de acabamento e construção, as proporções (por mais extremas que sejam) e a qualidade dos materiais. Diferente de temporadas passadas, a imagem aqui não tão das ruas e mais dos salões de couture. Na verdade, é uma versão das ruas feitas pelos salões de couture. Ou melhor, ateliês de alta-costura. E foi neles, em Paris e Angers, que tudo que se viu na passarela foi feito.

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Sob seu comando, a marca se tornou uma das mais lucrativas do grupo Kering – e não por meio de mudanças drásticas a cada coleção. Apesar das críticas ferrenhas, Slimane se mostrou extremamente seguro de si e sua linha de pensamento (da paixão pelo vintage e do foco nas ruas), das mais influentes (ela não é, assim, tão diferente da de Alessandro Michele, na Gucci, por exemplo). Se esta foi sua despedida ou não da Saint Laurent, se agora ele ficará apenas responsável pelo segmento de alta-costura, ainda não dá para dizer. Mas, sem dúvida, seu inverno 2016 o consagra como real e merecedor sucessor de Yves Saint Laurent.

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