Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

Basta abrir um livro de história qualquer para encontrar imagens de mulheres com a cintura afinadas por ele. Afinal, não há uma outra peça sequer que tenha um papel tão emblemático e duradouro na moda quanto o espartilho.

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Entre tantas outras coisas, a peça serve como parâmetro para contar diversas narrativas. A da evolução dos tratamentos medicinais para os quais era utilizado, por exemplo, ou de sua baixa e curta aderência entre homens. Mesmo assim, provavelmente, a mais importante delas ainda continua a se escrever pelos anos e a refletir na tão antiga e antiquada associação de beleza e opressão no vestuário feminino.

É possível dizer que, em toda a história da moda, o espartilho deve ser um dos maiores influenciadores da mulher e da autoimagem. A peça ajudou a construir o estigma do formato disciplinar do corpo e da obediência feminina: coluna reta, seios inflados para cima, busto à vista e a silhueta extremamente marcada conforme a moda do século 19, quando foi criado.

Parece muito? A história mais uma vez prova que ainda dá para ir mais longe que isso. É também nele que a sociedade encontrou um novo instrumento de opressão e de mercantilização sexual. A partir ou entrelaçado, com o tempo, se estabeleceu a ideia de fetichismo e da objetificação do corpo ligado ao prazer sexual único e exclusivamente masculino. Se tampouco as roupas são confortáveis, por que deveria o restante ser?

Mesmo assim, apesar de sua longevidade, sempre houve resistência ao seu uso. Os registros, assim como sua história, também são curiosos. Mesmo antes de seu auge, já existiam críticas em jornais consagrados reprimindo a peça, pedindo por sua abolição e a libertação do corpo feminino. Mas e se essa libertação, de fato, pudesse vir justamente pelo caminho inverso?

Não sejamos hipócritas. É provável que a mulher ainda passe centenas de anos tentando descobrir se aquilo que veste não está de alguma forma servindo a masculinidade de alguém. Mesmo assim, estejamos perto ou ainda a centenas de quilômetros do objetivo final dessa revolução do vestuário feminino, o que há de mais relevante para nós hoje é que ela aconteça, e é isso que nós precisamos ter em mente quando discutimos moda.

É no meio desse processo, por exemplo, que surgem marcas que desafiam a mais profunda parte dessa estrutura. Seja a admiração pelos espartilhos e pelos corseletes entre as próprias mulheres um reflexo da história que carregamos das nossas ancestrais ou não, o fato é que continuamos a nos sentir, em sua maioria, bonitas e desejadas dentro deles. Então como poderiam as novas grifes colocarem em voga novamente o seu uso sem resgatar simultaneamente uma de suas principais características, a opressão?

Foto: Reprodução/Instagram: @kimkardashian/@kendalljenner

A Catarinas47, marca sediada no Sul do País que fabrica peças de lingerie handmade, é uma dessas marcas que vem buscando ressignificar o uso dos corseletes para que eles possam se adequar à vida das mulheres.

Tendo o conforto como um dos principais pilares de seu negócio, a Marciely Hoffmann, criadora da loja, aposta justamente na mudança da estrutura da peça em seu cerne: as barbatanas. Substituindo as de baleia pelas de plástico, o corselete ganha uma maior flexibilidade, o que o torna significativamente mais confortável também.

Sem as armações de ferro, a peça disponibilizada pela marca em diversos tamanhos também consegue ser mais versátil, o que faz com que seja mais fácil encaixá-la em visuais do dia e ajudando a abandonar a ideia de que só serve para momentos mais íntimos e para agradar um parceiro.

“A Catarinas47 nasceu com o intuito de ressignificar o uso da lingerie. Trazer a peça íntima para o street wear, onde a lingerie possa realmente ser uma opção na hora de montar o look”, afirma a criadora.

Marciely também explica que, ainda que a história seja controversa, é possível resgatar nela inspirações que podem ser reestruturadas como o caso dos corseletes.

“Buscamos referências diversas em épocas que foram marcadas pela revolução de estilo. Entre nossas coleções, a estética adotada se baseia no nascimento da bossa nova, que juntamente com a Dior realçou o corpo das mulheres responsáveis por fundar o estilo boêmio e livre – um renascimento pro nosso atual swing brasileiro. Outro cenário é o de Nova York no final dos anos 70 com o inicio dos bailes clandestinos promovidos pela comunidade LGBTQIA+”, acrescenta.

Apesar da Catarinas47 ser 100% brasileira, é possível observar um movimento mundial de marcas que também buscam trazer novos significados à peça. A NMB New York, por exemplo, cria seus designs com base nos princípios do upcycling, o que basicamente significa utilizar roupas econômicas, vintage e de segunda mão, desconstruí-las, e depois utilizar o tecido para criar roupas originais e atualizadas.

Foto: Reprodução/Instagram: @cleo/@ddlovato/@bellahadid

A fundadora da marca, Natalie Brown, afirma que o resultado disso passa pelo conforto e ainda adiciona às peças um sentido de expressão única, já que nenhum corselete vai ser exatamente igual ao outro. De acordo com ela, “os espartilhos e bustiês reciclados da NMB New York são feitos de camisetas e jeans que são desconstruídos para fazer uma peça de roupa confortável com um zíper lateral de fácil acesso, pensados para celebrar a individualidade e a autoexpressão”.

É interessante observar que, ao menos nesses dois casos, a iniciativa para a comercialização das peças parte de mulheres que, simultaneamente, atendem a demanda de outras mulheres. Esse ponto específico não só aponta para uma maior possibilidade de mudança na estrutura da criação dos designs, mas também para um maior protagonismo feminino na criação deles.

Elas agora não se sentem somente mais confortáveis dentro das peças, mas também para estarem a frente de seus próprios negócios e fazerem as modificações que julgam necessárias para o seu próprio bem estar.