Balenciaga, verão 2008 – Foto: Getty Images

Por Jorge Wakabara

Uma cena da personagem Miranda Priesly em “O Diabo Veste Prada” (2006) virou um clássico: a do azul celeste. Mas talvez outra cena seja ainda mais repetida, como um bordão, pelos fashionistas. “Florais? Para a primavera? Inovador”, a editora da revista fictícia “Runway” comenta, irônica e blasé como só ela consegue. E sim, estampas com flores para a primavera são um clichê – adorável, diga-se de passagem. Só que dá certo e sem dúvida vende: a oferta constante, a toda primavera que chega, não nos deixa mentir. Se desse errado ou se cansasse, ninguém venderia, certo? Miranda, existem florais e florais, alguns menos, outros mais… Já que a tendência está aí para todo mundo ver, por que não trazê-la para o verão de agora?

O hoje clássico desfile da Balenciaga de verão 2008, ainda sob a batuta de Nicolas Ghesquière e pós-Diabo, pode ser considerado o marco que trouxe o floral para uma linguagem mais inusitada e contemporânea. O estilista buscou imagens de peônia, hortênsia, amor-perfeito e narciso, com cara de estampa de sofá, e as incluiu em looks rígidos com ombros arredondados, armaduras de tecido na forma de vestidos curtos. Ele ainda calçou sandálias gladiadoras que subiam até o joelho nas modelos – lembra? Foi esse o gatilho principal da moda das gladiadoras.

Ao tirar o floral do contexto mais habitual, frufru e ladylike, Nicolas o rejuvenesceu para sempre. Estava liberado. Você deve se lembrar de Kim Kardashian grávida em um tapete vermelho usando um outro floral retrô, dessa vez da Givenchy, em 2013.

Richard Quinn, verão 2022 – Foto: Getty Images

De lá para cá, os estilistas e marcas procuram seguir renovando a padronagem. Como está a oferta de florais hoje? Esse mesmo clima da Balenciaga que a gente citou foi revisitado, mais de dez anos depois, pelo verão 2022 de Richard Quinn em clima conjuntinho, da cabeça aos pés, até na luva.

Saint Laurent, inverno 2022 – Foto: Getty Images

Já a Balenciaga, agora sob a batuta de Demna Gvasalia, trabalha com estampas de pegada parecida de maneira constante (a última foi no pre-fall 2022). Um floral tipo “decoração da casa da vovó” recontextualizado ainda aparece na Saint Laurent, em long johns superjustos, megassensuais.

Lanvin, verão 2022 – Foto: Getty Images

Tem mais long john na Lanvin, com estampa anos 1970 divertida; a bolsinha vem junto, bem-humorada.

Gucci, verão 2022 – Foto: Getty Images

E o floral da Gucci? Exala naftalina de propósito, no bom sentido, um toque kitsch estiloso que o diretor criativo Alessandro Michele adora.

Da esquerda para a direita: Chloé, Chanel e Ashish – Fotos: Getty Images

Os texturizados exploram o prazer do toque misturado ao motivo de flor: caso do pre-fall 2022 da Chloé, em pegada abstrata, meio rabisco no meio de uma superfície fofinha; do pre-fall 2022 da Chanel com paetês formando flores e xadrezes no tailleur; do verão 2022 da Ashish que mistura o pelinho fofo com o brilho.

Marine Serre, verão 2022 – Foto: Getty Images

E haja textura no floral em patchwork de Marine Serre!

Oscar de la Renta, verão 2022 – Foto: Getty Images

Para Oscar de la Renta, Laura Kim e Fernando Garcia inovam sem assustar a clientela: o suéter traz um floral localizado típico da marca, porém em bordado de linha, cheio, voluptuoso.

Giambattista Valli, verão 2022 – Foto: Getty Images

Falando nesse tipo de bordado: Giambattista Valli inclui rosas (sem volume, flat) num mar de paetês brancos, combinado com maxibijoux e óculos à Juliette: moda festa raver.

Marni, verão 2022 – Foto: Getty Images

Gostou do efeito do bordado de la Renta? Conte também com a turma que ultrapassa a estampa para chegar em efeitos 3D: flores que pulam da trama! A Marni junta flores de couro para formar peças. Na Valentino elas chegam micro, espalhadas no look curto semitransparente em clima de romantismo sensual.

Rodarte, verão 2022 – Foto: Getty Images

Florzonas feitas de paetê, um trabalho intenso de ateliê que deslumbra, enfeitam o vestido assimétrico da Rodarte.

Prabal Gurung, verão 2022 – Foto: Getty Images

E se bateu uma overdose de flores, a gente entende. No verão 2022 de Prabal Gurung, elas vêm quase apagadas em fundo branco, desmaiadas – talvez sejam a sua. O importante é perceber que existe um buquê para todos os gostos, da última romântica à primeira moderna. Mal-me-quer ou… bem-cê-quer?