Paulo Borges - Foto: Agencia Fotosite
Paulo Borges – Foto: Agencia Fotosite

Por Camilla Bello e Luigi Torre

A sexta-feira (04.03) começou agitada para a moda brasileira. Isso porque, Paulo Borges, idealizador e diretor criativo do São Paulo Fashion Week e, também, CEO do grupo Luminosidade, anunciou importantes mudanças para a semana de moda paulista.

A partir de 2017, o SPFW passa a acontecer nos meses de fevereiro e julho – atualmente, acontece em abril e outubro. A ideia é que as coleções sejam apresentadas perto da época que chegam às lojas. A iniciativa tem tudo a ver com o atual momento da moda, em que as marcas têm feito um esforço para permitir que os consumidores possam adquirir aquilo que foi visto na passarela o quanto antes.

Bienal - Foto: Agencia Fotosite
Bienal – Foto: Agencia Fotosite

Outra grande diferença para o calendário nacional é que ele não mais adotará nomenclaturas referentes às estações do ano. Deixarão de existir desfiles de primavera/verão e outono/inverno e passarão a existir apenas desfiles, novidades das marcas sendo apresentadas nas passarelas.

Em entrevista ao Estadão, Paulo, que comanda o evento há 21 anos, declarou: “A moda é global, o desejo é global. Não é a estação do ano que impulsiona a venda. E, no Brasil, faz sempre calor.”

Ele contou também que quatro novas grifes entram para o calendário (Cotton Project, Amir Slama, Vix e A. Brand), além de quatro novos patrocinadores, afirmando que a Fashion Week não se encontra ameaçada, que o mundo está vivendo um momento de transformação e que a moda precisa se ajustar a isso.

Entramos em contato com marcas brasileiras para saber o posicionamento delas à respeito do assunto e sobre a questão que vêm sendo amplamente discutida por todo o globo: a urgência do consumo.

Cris Barros - Foto: divulgação
Cris Barros – Foto: divulgação

Cris Barros, por exemplo, nunca desfilou no SPFW, apesar de já terem rolados muitos convites para isso. Ela sempre preferiu um outro formato, esse que agora está todo mundo aderindo, o do see now, buy now. “Como somos uma marca pequena, foi tudo muito instintivo. Eu trabalho com desejo e isso para mulher faz toda a diferença. Então não faz sentido deixar minha consumidora esperando para realizar esse desejo. Ao mesmo tempo, sei que não podemos deixar a imprensa esperando, por isso faço um pequeno evento, alguns meses antes da chegada da coleção, para explicar, de modo bem pessoal e íntimo, a coleção para os jornalistas e editores. Assim é possível ter um entendimento melhor da coleção e apresentar para o leitor da melhor forma ajudando quando a roupa chegar à loja.” contou à Bazaar.

Ela também falou que as mudanças de calendário, como anunciadas pelo SPFW e em estudo pela NYFW, não implicaria em muitas alterações na logística de produção, como algumas pessoas têm discutido. Isso porque eles ainda precisariam produzir antecipadamente para mostrar e vender a coleção para os compradores/multimarcas (atacado).

Luiz Cláudio - Foto: Nicole Fialdini
Luiz Cláudio – Foto: Nicole Fialdini

Luiz Cláudio, da Apartamento 03, que entrou para o calendário oficial em 2014, dá seu ponto de vista – que, representa a opinião de todo o grupo Nohda, do qual faz parte ao lado das grifes PatBo, Patricia Bonaldi e Lucas Magalhães. “Na verdade, a mudança no calendário é um ajuste da apresentação da coleção ao timing do cliente final. O processo criativo não muda, o que muda é que o cliente vai ter acesso ao produto logo depois que ver ele na passarela. O desejo imediato vai ser atendido prontamente. O see now, buy now é adequado ao nosso tempo. Tudo muda tão rápido. Por que precisamos esperar seis meses para ter uma peça que gostamos em um desfile?”

Ele afirma ainda que todas essas mudanças não alteram o valor final do produto. “O preço não muda. Ele é um reflexo do processo produtivo, da escolha dos materiais, e não do momento em que é apresentado”. Sobre a logística de produção, Luiz explica: “Teremos que ter a coleção pronta na mesma época que temos hoje, já que precisamos apresentar tudo aos lojistas, que fazem a compra do atacado. O que fica diferente é que a coleção será guardada a sete chaves, até que possa ser mostrada na passarela e nas lojas.”

Eduardo Pombal - Foto: SiteRG
Eduardo Pombal – Foto: SiteRG

 

Eduardo Pombal, da Tufi Duek, deixou de desfilar há algumas temporadas justamente porque achava meio inviável o atual formato de desfile e o tempo que levava para a coleção chegar às lojas. “Dizer que as semanas de moda não são importantes é um tiro no pé. Há 20 anos a gente faz nossos desfiles, é uma vitrine extremamente necessária, mas há mesmo uma distância muito grande entre a apresentação e a venda. Precisamos repensar esse formato. O que acontece hoje, com a avalanche de informação e imagens nas semanas de moda, é que o público se cansa daquilo muito rápido. Tudo fica velho muito rápido e a surpresa deixa de existir. Mas para mudanças, precisa haver um engajamento total da indústria, tanto dos estilistas e fornecedoras, como de compradores e imprensa, que precisa entender quando é a hora certa de mostrar as novas coleções. Porque, nesse atual momento, todo mundo precisa vender e a imprensa tem papel fundamental nesse sentido, em criar desejo.” disse.

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Em tempo: nessa segunda-feira (07.03), foi anunciado que Animale e Cavalera estão fora da próxima edição do SPFW. O motivo é o mesmo: aderir ao “See Now, Buy Now”.