Amira: recordista de desfiles no SPFW N48 – Foto: Agência Fotosite

A diversidade dentro e fora da passarela deu status de histórica à edição N.48 do SPFW, no final de 2019. Indícios de que havia uma transformação em curso apareceram já na temporada anterior quando Amira, uma modelo negra, foi recordista de desfiles.

Isaac Silva – Foto: Agência Fotosite

Entretanto, foi mesmo a chegada de Isaac Silva e Ângela Brito que sacudiu a poeira e colocou o evento em outro patamar de inclusão. Dos castings às roupas apresentados por ambos, tudo estava em sintonia com tradições afro-brasileiras e ancestralidade africana, e representatividade era assunto quente entre os convidados.

As manifestações recentes, entretanto, escancaram que há muito ainda a ser feito. É inegável que, pela primeira vez, o racismo na moda conquistou um tom jamais visto anteriormente. De maneira geral, atos antirracistas, a #blacklivesmatter, as muitas vidas negras perdidas no Brasil e os perfis Moda Racista (fora do ar) e Moda Racista Vive e Racismo na Moda nas mídias sociais têm sido incentivos para debates e denúncias vindas de todas as classes profissionais do setor.

Jal Vieira – Foto: Agência Fotosite

De certa forma, o tema vinha sendo abordado principalmente por uma nova geração de designers com lugar de fala para levantar questões de identidade e cultura. É a propriedade para contar essa história por meio da vestimenta, repleta de simbolismos e mensagens, que confere um caráter também político à moda feita por esses criadores. Como a estilista Jal Vieira e a marca Rainha Nagô.

Rainha Nagô – Foto: Agência Fotosite

Depois de passarem pelo Projeto Lab, elas estrearam no line-up da última Casa de Criadores. Jal, que já foi assistente na Amapô, soltou o vozeirão durante o desfile de sua marca homônima. “Só eu podia falar das minhas dores”, conta ela. Inspirada em rupturas afetivas, propôs ótimos looks com franjas feitas com cadarço de tênis traduzindo uma explosão de sentimentos. Além de selecionarem apenas modelos negras, ambas também ampliaram a abordagem para a inclusão de corpos, com modelos plus size.

No final do mês passado, os estilistas negros participantes da Casa dos Criadores criaram a Célula Preta para propor novas ações, sem se limitarem aos profissionais que já se beneficiam da visibilidade da atmosfera inclusiva do evento, que terá a próxima edição em formato virtual.

Pyer Moss – Foto: Now Fashion

Grupos semelhantes, como Kelly Initiative, 15 Percent Pledge e Black in Fashion Council também foram criados em Nova York para discutir a inclusão na moda. Até então, havia vozes isoladas. Kerby Jean-Raymond dedicou o verão 2020 da Pyer Moss, intitulado “Sister”, à Irmã Rosetta Tharpe, considerada inventora do rock and roll, embora sua biografia seja praticamente desconhecida. Temáticas afro-americanas são mandatórias em seus desfiles e o transformaram em um dos principais nomes da nova geração de estilistas.

Em 2015, quando a marca ainda focava no masculino, ele abriu o desfile com o chocante “This Is an Intervention”, um vídeo de 12 minutos sobre brutalidade policial contra negros.

Telfar – Foto: Now Fashion

Outro nome em ascensão, Telfar Clemens costuma levar a discussão sobre preconceito para a passarela da Telfar, marca que nasceu como projeto sem fins lucrativos, em 2005.

Yeezy – Foto: Now Fashion

O mesmo espírito combativo permeia os trabalhos de três gigantes: Virgil Abloh (Off-White e Louis Vuitton Menswear) costuma ressaltar que sua motivação está mais conectada com o humano do que em roupas, enquanto Kanye West (Yeezy) acaba de lançar o clipe da música “Wash Us in the Blood”, com cenas reais de agressões por parte de policiais, e Rihanna, cujo desfile de lingerie Savage x Fenty, em 2018, foi celebrado por reunir diferentes raças e tipos de corpo.

Consideradas um ganho na escalada contra o preconceito, as recentes denúncias mostram que estamos apenas começando a trilhar um caminho de mudanças.