Puppets and Puppets – Foto: Divulgação

Moda sempre foi o reflexo da sociedade. O zeitgeist, para destacar o termo que designa a vocação para sinalizar a conexão entre o que se usa e tudo o que acontece ao redor. A sintonia é tão fina que não é coincidência que, nesta época de turbulências sociais, políticas, ambientais e econômicas, parece ter crescido consideravelmente o número de coleções que dialogam diretamente com as ruas.

Por tabela, o próprio consumidor, que nem precisa ser um fashionista de carteirinha, está com o olhar mais afiado, procurando entender se o propósito do estilista reflete seus próprios valores. Nesse cenário, há quem considere a moda séria demais. Mas há o outro lado, focado no escapismo ou em abordar esses mesmos temas com humor irônico.

É o que move a neo-marca novaiorquina Puppets and Puppets. Comandada pelo artista plástico Carly Mark e pela estilista Ayla Argentina, ela aposta em peças artesanais feitas com reaproveitamento de tecidos.

O QG da dupla fica no apartamento de Carly, onde também vive o chihuahua que inspirou o nome da grife. Eles já comentaram que gostaram tanto do caráter ridículo dessa escolha que decidiram repetir a palavra, formando, assim, o nome da label.

Na passarela, a irreverência tem dado o tom desde o ano passado, quando a dupla estreou na semana de moda de Nova York – o evento vem desenhando uma cena fervilhante formada por jovens designers. Para o inverno 2021, a inspiração veio do cartunista francês Jean Giraud, mais conhecido como Moebius, que traz no portfólio storyboards para filmes de ficção científica como “Alien” e “Blade Runner”.

Esse universo, mais o design experimental de Carly e Ayla, virou uma sequência de looks lembrando princesas e super-heróis desfilados por amigos da marca, como Richie Shazam, o fotógrafo e ativista que vem capturando imagens impactantes nos protestos em apoio ao movimento Black Trans Lives Matter.

Fernando Cozendey – Foto: Divulgação

O mesmo clima friendly coloca os desfiles do carioca Fernando Cozendey entre os mais divertidos da Casa de Criadores. Desde que estreou, em 2011, críticas políticas e sociais sempre vieram em forma de deboche. Algo como: é melhor se divertir do que chorar.

Na última coleção, batizada de “Nerd”, collants e catsuits, suas especialidades, e feitos por costureiras artesãs, foram inspirados em personagens divertidos dos mangás. Sem perder o mood, um look trompe l’oeil repleto de mãos chamava a atenção para a gravidade do assédio sexual.

Ashley Williams – Foto: Divulgação

Famosa por combinar senso de humor ácido e sutil ao mesmo tempo, a inglesa Ashley Williams costuma reunir em suas coleções referências variadas e complexas para, então, embalar tudo em uma estética kitsch.

Para o próximo inverno europeu, ela passeou entre estampa de dólar e maquiagem de palhaço, recortes estratégicos e versões desconstruídas de vestidos de debutante. A ideia é: olhe, decodifique e divirta-se.

Matty Bovan – Foto: Divulgação

Matty Bovan, outro que adora sugerir associações com suas criações, foi de molduras com background narcísico a cortinas portáteis para falar de falso versus verdadeiro.

Vaquera – Foto: Divulgação

E há quem transforme limão em limonada (ou caipirinha, se fosse por aqui). É o caso da Vaquera, de Patric DiCaprio, Claire Sullivan e Bryn Taubensee. O trio conseguiu transformar o próprio dilema financeiro em combustível para a irreverente apresentação no Dover Street Market de Nova York.

Area – Foto: Divulgação

Outra ponte com o humor é a sofisticação irreverente de exercícios de modelagem, que podem derivar do olhar fresh da jovem dupla Beckett Fogg e Piotrek Panszczyk, nomes por trás dos corações tridimensionais que a Area levou para a passarela, como em mais uma coleção repleta de autorreferências da lendária Rei Kawakubo para a Comme des Garçons.

De um extremo ao outro, fato é que uma moda autoral dificilmente cai no vazio. A diferença está, apenas, no tom da mensagem.