
Com passagem por Marc Jacobs e Dries Van Noten, a designer belga assume a Marni num momento em que a casa precisa reorganizar linguagem, produto e presença. Foto: Divulgação
A chegada de Meryll Rogge à Marni coloca uma designer de formação sólida no centro de uma casa que sempre pediu repertório e leitura de marca. O nome dela circula há alguns anos entre quem acompanha a cena belga e o circuito parisiense, mas 2025 consolidou essa presença com o Grand Prix do ANDAM e, em seguida, com o anúncio da Marni. O movimento interessa porque junta duas coisas que raramente aparecem no mesmo pacote com equilíbrio: experiência de estúdio em casas grandes e uma assinatura autoral que já nasceu com identidade.
Quem é
Meryll Rogge nasceu em Ghent, na Bélgica, e estudou na Royal Academy of Fine Arts de Antuérpia, uma escola que segue formando nomes com peso técnico e visão própria. Na trajetória profissional, passou por Nova York, onde trabalhou por anos na Marc Jacobs, e depois voltou à Bélgica para assumir a direção de design feminino na Dries Van Noten.
Esse percurso ajuda a entender o perfil dela. Existe ali experiência de sistema, de coleção, de ritmo de marca, de desenvolvimento real de produto. Na Dries, ela também participou do universo de beleza, o que amplia a leitura dela para além da roupa e aproxima seu trabalho de uma visão de marca em camadas.
Em 2020, lançou a etiqueta homônima e foi construindo reconhecimento sem atalhos. Vieram os prêmios na Bélgica, depois o ANDAM, e o nome saiu do campo de “designer para prestar atenção” para o de força criativa já testada.
O que esperar
A expectativa para a estreia dela na Marni passa por direção, não por choque. A casa tem um histórico de linguagem forte, com cor, volume, estranheza, objeto e imagem trabalhando juntos. Quem assume esse lugar precisa entender de roupa, mas também precisa saber como a marca respira em acessórios, campanha, espaço, colaboração e comunicação.
Meryll chega com esse repertório. Pelo histórico dela, dá para esperar uma Marni com atenção à construção e ao styling, com peças que sustentam leitura editorial sem perder contato com uso. Também faz sentido imaginar um ajuste de foco em produto, principalmente em categorias que sustentam o negócio da casa no dia a dia. O ponto central aqui é menos “ruptura total” e mais recalibragem. Um novo capítulo costuma começar por sintonia fina antes de virar manifesto.

Com passagem por Marc Jacobs e Dries Van Noten, a designer belga assume a Marni num momento em que a casa precisa reorganizar linguagem, produto e presença. Foto: Reprodução
Síntese do estilo
O trabalho de Meryll Rogge costuma operar por combinação de códigos. Ela parte de bases reconhecíveis, como alfaiataria, camisa, tricô, vestido, e mexe na lógica dessas peças por proporção, recorte, sobreposição e acabamento. A roupa mantém referência, mas muda de comportamento.
Também aparece com frequência uma tensão entre a precisão e ruído. Tem técnica, tem construção, tem mão de produto. Ao mesmo tempo, existe um interesse por atrito visual, mistura de registros, estampas e deslocamentos de styling. Em vez de uma silhueta única repetida, ela trabalha um guarda-roupa com frentes diferentes, o que deixa a assinatura menos caricata e mais durável. Outro ponto importante é o uso de reconstrução e upcycling em parte do trabalho autoral, sem transformar isso em slogan. A operação entra como linguagem e método.

Com passagem por Marc Jacobs e Dries Van Noten, a designer belga assume a Marni num momento em que a casa precisa reorganizar linguagem, produto e presença. Na foto, criação de sua marca homônima. Foto: Reprodução (WWD)
Por que a Marni?
Porque a Marni pede uma direção criativa que consiga pensar em conjunto. A marca nunca foi só roupa. Ela funciona quando o universo inteiro conversa: coleção, acessórios, imagem, objetos, cor, casting, cenário, colaboração. Meryll tem formação e trajetória para lidar com esse tipo de engrenagem. Existe também uma afinidade de vocabulário. A Marni trabalha bem quando há inteligência de styling, repertório de cor e uma certa tensão entre gesto e uso. Meryll construiu sua assinatura justamente nessa zona, com peças que seguram leitura de moda sem depender de efeito. A escolha dela também sinaliza uma decisão de posicionamento. Em vez de apostar num nome óbvio pelo impacto imediato, a Marni escolhe uma designer com base técnica, repertório autoral e capacidade de evolução. Para uma casa que entra em nova fase, isso diz bastante sobre o tipo de futuro que quer construir.

