Foto: reprodução
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Por Luigi Torre

Era início de agosto quando recebi a tarefa de entrevistar Ralph Lauren, 76 anos. Sim, o homem em si. Aquele que cresceu em uma família humilde no Bronx, em Nova York, e construiu um império bilionário em torno de seu nome. Aquele que fez com a moda americana o equivalente ao que fez o cinema: criou sonhos. Mas não somente. Fez deles uma realidade, disponível para todos aqueles que, como ele próprio, aspiravam uma vida como nas grandes telas.

Começa assim, um mês depois, em Nova York, nossa conversa sobre como o cinema foi não só sua janela para o mundo, mas uma das primeiras e mais fortes faíscas criativas. “Não que eu assistisse a seis filmes por dia”, diz, em meio à agitação das provas de roupa para seu desfile de verão 2016. “Mas ia muito ao cinema, como qualquer um na época, e fui influenciado pelos mesmos filmes e atores que marcaram a história do cinema americano. Eram tramas fantásticas, com personagens grandiosos em todos os sentidos, e sempre lindos e estilosos, com vidas incríveis. Impossível não sonhar com tudo aquilo.”

Sonho é palavra recorrente em nossa entrevista. É também um dos pilares sobre os quais o império Ralph Lauren foi construído. Desde o início, ele já tinha um conceito pronto. Sabia como queria se vestir, como se portar, morar,viajar… Enfim, viver. E o que ele almejava não era muito diferente dos anseios dos outros. Afinal, a base era a mesma: a cultura americana e a ideia desta projetada por Hollywood e toda a indústria cultural. De certo modo, Lauren é a personificação e um dos melhores marqueteiros do american dream.

“Sempre gostei de me arrumar”, relembra, quando pergunto sobre como surgiu o interesse por moda. “Quando tinha encontros, planejava bem o que ia vestir, onde iria. Acredito também que sempre tive um bom senso de estilo, mas foi algo que desenvolvi sozinho.” Bem como toda a sua carreira.

Look da coleção Holiday 2015 - Foto: reprodução
Look da coleção Holiday 2015 – Foto: reprodução

Do Bronx, Lauren foi estudar Administração, prestou serviço militar e, quando voltou a Nova York, estava decidido a fazer sua vida similar àquelas dos personagens de Gary Cooper, Fred Astaire e Cary Grant. Começou de baixo, vendendo gravatas, passou pela equipe da Brook Brothers, até que conseguiu fundos suficientes para caminhar com as próprias pernas. O primeiro passo foi em 1967, com o lançamento da sua primeira coleção de gravatas. O nome da marca? Polo. “Sempre fui muito ligado a esportes, mas, naquela época, os jogos de polo eram  um mundo à parte. Era um esporte internacional e as pessoas que jogavam ou que gostavam eram muito extravagantes. Você lia sobre elas nas revistas, escutava histórias de suas vidas maravilhosas, suas viagens. Havia todo um romantismo. Foi daí que veio o nome. Queria um pouco dessa atmosfera e sofisticação para minha marca.” Marca de sucesso imediato. Em pouquíssimo tempo, a Polo não se restringia apenas às gravatas e começava a fazer seus primeiros costumes completos. Em 1970, com a explosão da androginia e da liberação sexual, mulheres também começaram a procurar o estilista e, então, ternos femininos foram incorporados às suas coleções. O sucesso foi tanto que, em 1974, ele recebeu convite para desenhar o figurino de Robert Redford, no longa O Grande Gatsby. “Mas não queria fazer apenas as roupas. Não podia.

Precisava ser o pacote completo. Queria saber como seria sua casa, qual carro dirigiria, quem seria sua companheira, como se comportaria socialmente…” Sua visão já estava clara desde então. Mais do que uma marca de moda, Ralph Lauren queria criar um estilo de vida. Para ele, a moda era apenas um meio para as mesmas fantasias que o fascinavam quando pisava numa sala de cinema. Era a porta de entrada para um mundo de possibilidades. “Foi no que sempre acreditei”, diz. “Quando você vê uma pessoa vestida de modo marcante, não são só as roupas que te atraem, você quer saber onde ela mora, como é sua casa, quem são seus amigos e tudo mais sobre a vida dela. Você quer a história completa.”

E assim, de marca de gravatas passou a uma grife global, agora com o nome do estilista, e mais de 300 lojas espalhadas pelo mundo, com linhas esportivas, infantil, de perfumes e de decoração, além de três restaurantes (em Chicago, Paris e Nova York). Tudo devidamente construído à imagem daquilo que há de mais essencial para a cultura americana. “Roupas, casa, carros, são todos elementos aspiracionais que compõem um lifestyle”, completa Lauren. “Meu papel é expressar a vida na qual acredito e uma que não seja fake. É sobre o que gostamos e o que fazemos. Sou meu consumidor. Nunca me inspirei no que os outros estão fazendo. Tudo que faço é o que quero. São minhas vontades que dão cara à marca, meus desejos, coisas que sinto. Vem da minha mente e da percepção sobre mim mesmo.”

Campanha de inverno 2015 - Foto: reprodução
Campanha de inverno 2015 – Foto: reprodução

O que explica uma crítica recorrente a Ralph Lauren: aquela de que a marca apresenta sempre a mesma coleção, temporada após temporada. Uma viagem à Índia, um verão na Riviera Francesa, um inverno nas montanhas, um passeio aristocrata pelo interior do Reino Unido ou um retorno aos anos 1920. Temas variantes para uma essência e estética intactas. Mas, quando se fala
tanto no desgaste e no cansaço da moda em alta velocidade, da frenética busca pelo novo e da saturação de ideias e produtos, tal estratégia parece fazer mais sentido – ou apenas ser mais honesta. Ou, talvez, seja questão de ponto de vista: de que, há tempos, a marca transcendeu a moda. Virou, definitivamente, estilo de vida.

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