Delphine Arnault - Foto: reprodução
Delphine Arnault – Foto: reprodução

Por Luigi Torre

É atrás de portas fechadas que se passam os grandes acontecimentos da moda. É ali, longe dos holofotes, que encontramos Delphine Arnault, vice-presidente executiva da Louis Vuitton, rosto e força motora do LVMH Prize e uma das mulheres mais influentes do meio. Suas decisões são capazes de enviar ondas de choque por toda a indústria e mudar por completo seu modus operandi. Foi ela um dos pivôs na escolha de Nicolas Ghesquière para substituir Marc Jacobs na Louis Vuitton. Foi também uma das responsaáveis pela nomeação do estilista irlandês Jonathan Anderson como diretor de criação da Loewe e pelos investimentos nas marcas J.W.Anderson, Marco de Vincenzo e Nicholas Kirkwood. O maior feito de Delphine, porém, extrapola os domínios do grupo fundado por seu pai, Bernard Arnault: criar um prêmio que deu ânimo renovado a toda uma geração de jovens estilistas. “’É algo que já vínhamos pensando há algum tempo”, diz, em entrevista à Bazaar.“Como líderes da indústria, é nossa responsabilidade achar novos talentos e ajudá-los a crescer.”Em sua terceira edição, o LVMH Prize já se tornou referência no mercado.

Premiou o canadense Thomas Tait e o duo radicado em Londres Marques & Almeida, mas também foi essencial para a ascensão meteórica de marcas como Hood by Air e Jacquemus.“O vencedor recebe uma ajuda de 300 mil euros e um ano de orientação dos profissionais da LVMH – que acredito ser o mais importante –, um time dedicado que vai ajudar o estilista em qualquer decisão que precise tomar em seu negócio.” Como seu pai, Delphine tem aptidão pelo incentivo e desenvolvimento do talento criativo – da concepção de ideias ao ponto de venda. Formada pela Escola de Negócios EDHEC, em Lille, na França, e pela London School of Economics and Political Science, começou sua carreira como consultora de gestão internacional na McKinsey & Co., até entrar para os negócios da família. Em 2000, tornou-se diretora de desenvolvimento da marca de John Galliano, quando o próprio ainda assinava as coleções. Em 2001, mudou-se para a Dior, primeiro, como diretora comercial e, mais tarde, como diretora-adjunta. Foi ela quem orquestrou a bem-sucedida linha de acessórios em colaboração com o artista alemão Anselm Reyle. Sempre nos bastidores. Como vice-presidente executiva da Louis Vuitton, é responsável pelo desenvolvimento de todos os produtos.“Trabalho muito com o Nicolas [Ghesquière] e o Kim [Jones, diretor criativo e estilista masculino, respectivamente] – não na área de design, mas de negócios. Atuo na precificação, nas margens e no merchandising até a peça chegar à loja. Quero ter certeza de que nossa visão e estratégia estão claras e coesas: onde queremos chegar, o que queremos desenvolver e com que mulher e homem queremos falar.” Para Delphine, criação e comercial andam de mão dadas. Visão que faz questão de transmitir como máxima para aqueles que passam pela sua análise ao lado dos demais membros do júri do LVMH Prize (os diretores de criação do grupo, Karl Lagerfeld, Nicolas Ghesquière, Riccardo Tisci, Marc Jacobs, Phoebe Philo, Jonathan Anderson, Humberto Leon e Carol Lim, e os executivos Jean-Paul Claverie e Pierre-Yves Roussel).

“Procuramos criatividade e um forte ponto de vista. Queremos ver um trabalho diferente e cheio de energia. Mas não é só, precisa ter resposta comercial.” Questão de sobrevivência.A competição no mercado, hoje, é voraz. Para um jovem estilista mais ainda. Delphine acredita, contudo, que a concorrência é saudaável,“ajuda a prepará-los para o que vem pela frente.”Ainda assim, reconhece as incontáveis dificuldades para as empresas de pequeno porte.“É muito difícil para um jovem estilista crescer e sobreviver nessa indústria”, pondera. “Um dos principais problemas é o fluxo de dinheiro. Os custos com tecidos e produção são muitos e precisam ser pagos antes das marcas receberem de seus compradores e das roupas chegarem às lojas. Há muitos momentos em que o fluxo de dinheiro é negativo e eles precisam de ajuda.” Para participar, o estilista precisa ter menos de 40 anos e duas coleções. Desde sua criação, em 2013, já foram recebidas mais de 2 mil inscrições de todo o mundo.

A primeira seleção é feita por um time de especialistas, composto de 45 jornalistas, stylists, compradores, fotógrafos e outros profissionais da moda (entre eles a diretora de redação da Bazaar americana, Glenda Bailey, e a diretora global de moda de Bazaar, Carine Roitfeld).Cabe a eles a escolha dos 30 que irão ao evento anual, em Paris, e a seleção dos dez finalistas a serem analisados pelo time de criativos e executivos da LVMH. Entre os destaques desta terceira edição, com final prevista para maio, o LVMH Prize vai oferecer a três formandos em moda um ano de trabalho na equipe de estilo de alguma maison do grupo.“É o que mais gosto: combinar nossa tremenda herança com o incentivo e o cultivo de jovens talentos e permitir que possam se desenvolver internacionalmente e serem descobertos, com todo apoio que nossa empresa pode oferecer.” E, sabemos bem, não é pouco.