“Estados Unidos Vs Billie Holiday” – Foto: Divulgação

Por Jorge Wakabara

Enquanto a gente espera pela história do assassinato de Maurizio Gucci nas telonas com direito a Lady Gaga e direção de Ridley Scott, tem um outro filme fashionista já disponível no Prime Video. “Estados Unidos Vs Billie Holiday” chama a atenção de quem gosta da música da cantora, que viveu entre 1915 e 1959, e é considerada uma das maiores intérpretes de jazz que o mundo já ouviu. Mas olhe de novo para esse caso raro: ele é um dos quatro filmes que contam com roupas que saíram da cartola de Miuccia Prada!

“Estados Unidos Vs Billie Holiday” – Foto: Divulgação

A relação entre cinema e moda vem de muito tempo. Assim como os filmes influenciam padrões de comportamento, eles também mostravam (e mostram!) como se vestir para cada ocasião, que corte de cabelo usar, qual maquiagem chama mais a atenção. Inspiram tendências com narrativas, mergulhando roupas em simbolismos. E houve momentos em que estilistas assumiram o papel de figurinistas – caso da dupla Hubert de Givenchy e Audrey Hepburn. Ele foi o grande responsável pela consagração do estilo dela no cinema. Diga um filme clássico dela e o figurino provavelmente é dele: “Bonequinha de Luxo“, 1961; “Cinderela em Paris“, 1957…

“Estados Unidos Vs Billie Holiday” – Foto: Divulgação

Teve mais criador de moda na telona. Jean Paul Gaultier (“Kika”, 1993; “O Quinto Elemento”, 1997) e Yohji Yamamoto (“Dolls”, 2002; “Zatoichi”, 2003) são dois ótimos exemplos de estilistas pirando na estilização dos figurinos, o que permite um desprendimento maior, pois não há compromisso comercial. Mas e o caso de Miuccia?

“Estados Unidos Vs Billie Holiday” – Foto: Divulgação

Apesar de estimular o diálogo entre suas criações e cineastas (um exemplo é a série “Women’s Tales”, da Miu Miu, na qual diretoras recebem carta branca para criar curtas e a única exigência é que as personagens vistam a marca), Miuccia conta com apenas um crédito de figurinista em toda a sua carreira.

“Estados Unidos Vs Billie Holiday” – Foto: Divulgação

E é, de um jeito bem Prada, em algo completamente inesperado: uma animação japonesa chamada “Appleseed Ex Machina” (2004). O look da protagonista, uma armadura condizente com a sua função paramilitar, traz uma inconfundível plaquinha no formato de triângulo invertido entre o pescoço e o colo (aliás, bem no lugar onde as modelos do verão 2021 da Prada também exibiam as suas).

“Estados Unidos Vs Billie Holiday” – Foto: Divulgação

Para as outras produções, ela emprestou peças que já estavam prontas ou adaptou o que já tinha. É o caso do terninho azul de Leonardo di Caprio em “Romeu + Julieta”, de 1996, com direção de Baz Luhrmann e figurino assinado pela mulher dele, Catherine Martin. Todos os rapazes Montecchio da família de Romeu, aliás, se uniformizavam de Prada (os Capuleto preferiam Dolce & Gabbana).

“Estados Unidos Vs Billie Holiday” – Foto: Divulgação

Esse foi o começo da relação entre Prada e Luhrmann, que rendeu mais alguns frutos. Lembra dos looks do figurino de “O Grande Gatsby”, em 2013? Eles foram mais divulgados e mais incensados, influenciaram a moda em si e serviram como chamariz para fashionistas comprarem ingressos (o mesmo efeito deve acontecer na cinebiografia de Billie Holiday). Em contrapartida, quando Miuccia Prada virou tema de exposição do Metropolitan Museum of Art de Nova York, ao lado de Elsa Schiaparelli, em 2012, foi Luhrmann quem dirigiu os vídeos exibidos por lá.

“Estados Unidos Vs Billie Holiday” – Foto: Divulgação

O processo com o novo lançamento do cineasta Lee Daniels foi outro. O figurinista Paolo Nieddu trabalhou com a equipe da Prada, trazendo ideias de looks que já haviam desfilado nas passarelas da marca em versões remixadas – o ombro de um, a silhueta de outro, o decote de um terceiro e o tecido de um quarto… São nove visuais que valorizam o lado diva da música de Billie Holiday e que, na prática, são meio que um Prada sob medida!

“Estados Unidos Vs Billie Holiday” – Foto: Divulgação

Ah, e existe um detalhe: nem todos os looks que a atriz Andra Day usa tiveram envolvimento do time de Milão. O vestido preto que ela veste quando sai da prisão, em 1948, em um retorno triunfal aos palcos, um dos mais importantes do filme, foi desenhado por Nieddu e produzido por John Hayles, que já trabalhou com ninguém menos que Orry-Kelly, um dos mais clássicos figurinistas de Hollywood. Hayles já está aposentado, mas Nieddu conseguiu convencê-lo a tirar o pó da máquina de costura para um comeback rápido.

“Estados Unidos Vs Billie Holiday” – Foto: Divulgação

Porém, sim: o look amarelo com cristais bordados, que já nasce como um dos mais icônicos do longa, é Prada – e é a cara da Prada. A inspiração estava nas páginas de uma “Life Magazine” de 1946, em uma foto da própria Holiday, mas o bordado original era em paetê. A convite do figurinista, a artista Maria Hooper desenhou um novo motivo de bordado que vai do colo até o chão e o passou para a equipe Prada produzir. Chique demais!