
Chloé
Será que alguém aguenta “dormir de conchinha” no calor? Até os mais carentes entendem a dificuldade. Vestir-se de concha, entretanto, já é outra história – e esse é um dos melhores carinhos que a moda vai fazer por você neste verão. Vestido-sereia, vestido-lagosta… tudo isso já foi e ainda vai ser (é a maré de tendências em alta e em baixa), mas o mar está mesmo para moluscos românticos. Isto é, Afrodites prontas para despertar das profundezas.
Com palidez renascentista (Botticelli não conheceu o sol carioca nem as dunas nordestinas – uma pena!), a Vênus de 1485 é uma das primeiríssimas musas modernas do visual e já foi até reestilizada por Mugler em uma concha de seda cor-de-rosa. Foi em 1995, desfile lendário nos autos fashion, mas, por aqui, o “qui-qui-qui” é bem mais antropológico. Por que não, aliás, “ki-ki-ki”? Em tupi-guarani, “ki” é a palavra para “concha”, e o litoral é cheio delas – são os sambaquis, montes e montes que contam a história dos povos originários, que viviam de pesca e “finais de semana” bem aproveitados na praia. Muito talvez por herança genética e cultural, a moda brasileira tem fascínio por essas pequenezas marinhas. Os búzios já vieram bordados em bolsas da Meninos Rei, pendurados em chapéus da Foz e até em brincos da Santa Resistência. Como explicar, entretanto, a paixão europeia pelo tipo? Em Paris, ostras estão no cardápio de quase toda esquina e, talvez exatamente por isso, foram a escolha da maioria dos convidados para o dîner depois do desfile da Balmain. Neste, a despedida de Olivier Rousteing da casa, as modelos surgi- ram inteiramente cobertas por conchas – e a imagem dá mesmo água na boca, mas essa não pode ser a única explicação.
Nos bastidores, o estilista explicou a escolha como um retorno à infância, quando molhava os pés na água em viagens para a praia e se imaginava criando roupas com o que encontrava na areia. O oceano, afinal, tem um mistério sedutor irresistível para a criatividade e um frisson de escapismo para quem vive engolido pela vida urbana.
Na Chloé, Chemena Kamali tem feito, há algumas temporadas, acessórios dourados (ou transparentes coloridos) em formato de concha para decorar seu estilo boho chic, e até os barroquismos de Alessandro Michele na Valentino têm sua parcela marinha. Colecionador e designer, com um quê de historiador, o italiano dá ao seu maximalismo ares rococó, movimento artístico cujo próprio nome surge do francês rocaille, tipo de ornamentação em forma de concha tradicional do século XVIII. Esse flerte é comum na moda: na mais recente coleção de Julian Klausner para a Dries Van Noten, regatas minimalistas inspiradas em corpetes aristocráticos (com a adição de anquinhas para dar charme) aparecem combinadas com colares de conchas.
Pois é, a raiz dessa tendência está enterrada fundo na areia, e o fascínio cultural, artístico ou histórico por essas peças orgânicas tem espaço real e abstrato. Faz pensar em refúgios longe da cidade, mitologias sensuais, memórias arqueológicas e aspirações estéticas. As conchas são pequenas, sim, mas guardam muito dentro e fora delas – afinal, algumas estão usando listras (e até animal print) milhões de anos antes da estampa virar desejo. São ícones de estilo para ícones de estilo!







