Giorgio Armani – Foto: Divulgação

Quando Giorgio Armani criou a marca que leva seu nome, em 1975, a intenção era expressar suas ideias por meio da moda, mesmo que surgissem críticas. Foi essa visão aberta e destemida que fez da sua alfaiataria a mais disputada, nos anos 1980, e possibilitou a criação de um império global que continua independente até hoje.

Fato raro entre os grandes nomes da moda mundial, essa liberdade tem permitido que ele continue colocando em prática insights como o de decidir, apenas algumas horas antes, realizar um desfile sem público para evitar aglomeração em um espaço fechado. Era fevereiro e, na época, a Itália contava com 76 doentes registrados e duas mortes por coronavírus.

Ao longo da pandemia, ele foi uma das principais vozes a apontar a necessidade de revisão do sistema atual da moda, que, na sua opinião, entrou em declínio quando o segmento de luxo passou a adotar métodos operacionais do fast fashion. “São opinões que carrego há alguns anos e que estão relacionadas a coisas que sinto necessidade de mudar na indústria da moda”, conta ele à Bazaar.

O balanço da trajetória de 45 anos e sua visão do mercado ficaram ainda mais expressivos no documentário “Timeless Thoughts”, para o qual o senhor Armani, aos 86 anos, fez questão de selecionar pessoalmente as imagens e estruturar o roteiro.

Outro motivo para comemorar são os 15 anos da linha Privé. No primeiro desfile, realizado em Paris, batas com corte enviesado, tecidos delicados e bordados chamavam a atenção para o trabalho precioso saído do ateliê montado no edifício histórico da via Borgonuovo, em Milão, onde ele pretende realizar a próxima apresentação, no mês que vem.

Giorgio Armani – Foto: Divulgação

Além de questões práticas relacionadas ao deslocamento, já que a Europa continua em alerta por causa do coronavírus, ele explica, nesta entrevista, que transferir a alta-costura para “casa” foi a maneira que encontrou de “declarar meu amor pela minha cidade.”

Leia na íntegra a entrevista exclusiva com o estilista:

O que te levou a lançar a linha Giorgio Armani Privé em janeiro de 2005?

Foi uma resposta ao desejo das minhas clientes por uma coleção mais exclusiva e feita sob medida. A alta-costura tem uma função específica: é um sonho, a expressão máxima da perfeição e a herança da expertise conectadas à mais pura forma de criatividade e imaginação na esfera da moda.

Na sua opinião, o que mudou no mercado de luxo de 2005 para cá?

A moda, hoje, tem novas regras, ditadas principalmente pela internet e pelas mídias sociais. Na minha opinião, mais do que nunca, a alta-costura precisa manter a aura de exclusividade relacionada aos seus valores intrínsecos. A couture sempre foi criada para mulheres que vivem uma vida especial e precisam de roupas adequadas para eventos importantes. Enquanto esse lifestyle existir, a couture terá seu lugar.

A Armani Privé pulou a temporada de alta-costura de inverno 2020 por causa da pandemia. O que podemos esperar para a próximo, o verão 2021, planejado para acontecer em janeiro no seu palazzo, em Milão?

Decidi trocar Paris, onde normalmente apresento a Armani Privé, por Milão porque queria mostrar meu apoio para a cidade, que tem sido atingida fortemente pela pandemia. Claro, há também a questão da segurança do meu staff e convidados, que é algo que posso fazer de maneira mais minuciosa “em casa”, mas, além disso, eu realmente desejo declarar meu amor pela minha cidade.

O senhor já disse que luxo democrático é uma contradição porque não deve ser passageiro. De acordo com esse ponto de vista, quais são as técnicas, estrutura e esforços que não abre mão em seu ateliê?

A chave, para mim, é fazer roupas aging-proof. Criadas para serem mais elegantes do que responder ao apelo de moda, relevantes por anos ao invés de meses. As pessoas deveriam ser capazes de investir em algo que tem valor e durabilidade.

Giorgio Armani – Foto: Divulgação

Em sua carta aberta do “WWD”, em abril deste ano, o senhor disse que esta crise é uma oportunidade de reduzir o ritmo e realinhar para resgatar o valor da autenticidade. O que já mudou no grupo Armani desde então?

Estou constantemente procurando combinar os desfiles de pré-coleção com meus shows principais para reduzir o número de apresentações. Então, também estou realinhando o cronograma para oferecer roupas que são apropriadas à estação – não mais vestidos de verão em liquidação em janeiro e casacos de inverno sendo liquidados em julho. Essas são só duas ideias para tornar as coisas mais lógicas, humanas, e reduzir o desperdício. De maneira geral, desejo fazer menos, mas melhor, e encorajar as pessoas a se engajarem nessa visão de comprar menos e melhor.

O senhor está celebrando 45 anos de carreira na moda. O que conecta passado, presente e futuro?

O futuro é sempre um fruto do passado. Enquanto periodicamente as pessoas imaginam a moda do futuro como radicalmente diferente do que é agora, o tempo nos ensina que o que usamos sempre será uma evolução do que já vestimos. Você pode ver isso claramente em minhas coleções; e se visitar a Armani/Silos, minha exposição e espaço educacional em Milão, e olhar a trajetória do meu trabalho, compreenderá que eu, repetidas vezes, revisito certos temas e ideias.

O senhor escolheu as imagens e pensou cuidadosamente no texto do documentário “Timeless Thoughts exibido antes do desfile da coleção de verão. Quais foram as emoções e memórias que emergiram desse processo?

De fato, selecionei todos os materiais, um por um; levei várias semanas. Tive a ideia de fazer o documentário pouco antes do desfile. Confesso que, em princípio, achava um pouco exibicionista, mas decidi fazer e, no final, pessoas que não são desta indústria não sabem o que está por trás do trabalho de um estilista; então pensei que poderia dar a oportunidade de mostrá-las. Também percebi que era uma maneira de expressar opiniões que carrego, há alguns anos, relacionadas a coisas que sinto necessidade de mudar na indústria da moda. É claro que, agora, parece que tive uma premonição.

Como é sua rotina de trabalho?

Sempre comecei cedo com exercícios e um café da manhã saudável. Na sequência, vou para o ateliê e tenho várias reuniões com minha equipe. Almoço e tiro uma soneca rápida. Depois, trabalho até às 18h, vejo TV, janto e vejo um filme. Durante o lockdown, meu dia estava estruturado mais ou menos da mesma maneira, com um pequeno grupo de colaboradores próximos e membros da família que dividiram o isolamento comigo. E me certifiquei de ter sempre algumas horas de ar fresco no jardim.