Por Alessandro Michele

O epílogo é o ato final de uma narração. O ponto do acúmulo de reflexões que se sedimentaram durante uma escavação. Para mim, representa a possibilidade de realizar meu questionamento sobre o mundo da moda, por um caminho que é como um conto de fadas em três partes.

O início dessa missão se desenrolou em fevereiro. Naquela ocasião, eu queria celebrar o ritual mágico do Fashion show: uma liturgia sagrada e irrepetível, através da qual o pensamento criativo se torna público e se oferece para a interpretação de uma comunidade de espectadores emancipados.

Eu queria desvendar o que está por trás das cortinas desse ritual. Joguei na perspectiva inversa, movendo meus companheiros de viagem para o centro do palco: aquela inteligência coletiva, inspirada e sensível, que possibilita o encantamento da beleza. Qual é o impacto em desvendar o que constrói a ilusão? O que acontece com um ritual quando é profanado? Como reconfiguramos maravilha, epifania e sugestão?

O segundo ato foi formado durante a campanha publicitária, em maio, quando tentei desorientar os mecanismos rotineiros da moda. Foi uma experimentação radical em que me deixei levar pela ideia de que a beleza pode parecer imprevisível e maravilhosamente imperfeita pela ausência de controle.

Naquela época, decidi abdicar do meu papel de diretor obsessivo. Optei por abandonar, renunciar à construção da cena e da ação, para que modelos construíssem suas próprias imagens. Atuando como fotógrafos e contadores de histórias, produtores e cenógrafos. O que acontece com a comunicação quando ela deixa de se tornar um ato unilateral? O que significa trabalhar para promover uma prática expressiva como a de um refrão? O que acontece com o produto criativo quando ele escapa à predeterminação?

Finalmente, chega o epílogo, para selar o encerramento de uma trilogia de amor. Este último movimento gira em torno de outro curto-circuito. As roupas serão usadas por quem as criou. Os designers com quem compartilho todos os dias o torpor da criação se tornará os artistas de uma nova história. Eles aproveitarão a poesia que contribuíram para moldar. Eles encenarão o que imaginamos apaixonadamente.

É um processo de inversão de papéis, mais uma vez. As distâncias diminuem. O ato criativo torna-se uma práxis de exibição. O interior se projeta do lado de fora. O invisível toma forma, irradiando através da autocombustão. Mais que isso. Desta vez, minha análise sobre os mecanismos que regulam o mundo da moda se intensifica: essa mudança será retratada sob uma perspectiva incomum.

Durante um dia inteiro, qualquer pessoa poderá investigar, graças às câmeras adequadamente dispostas, o processo pelo qual o design office incorporará a nova campanha publicitária da Gucci. O que acontece com a relação entre realidade e ficção quando os olhos curiosos se infiltram nos mecanismos de produção de uma imagem? O que acontece com a moda e sua capacidade sedutora, quando o verdadeiro volta a ser apenas um momento do falso?

Meu conto de fadas em três partes quer gerar um questionamento sobre as regras, os papéis e as funções que mantêm o mundo da moda. É uma investigação inevitavelmente parcial, além de intencionalmente distorcida: um jogo desequilibrado no qual tentei desmontar os andaimes, virar as coisas de cabeça para baixo, mudar o olhar para outro lugar, desafiar as gramáticas pelas quais tentamos nomear o mistério da beleza. Para mim, foi necessário seguir esse caminho cheio de amor.

Foi uma estrada que, enquanto eu caminhava, depositava novas perguntas e agitava as coisas, produzindo novas intuições. Nesse sentido, o epílogo que hoje entrego a você realmente parece uma abertura. Um divisor de águas que se fecha e se abre ao mesmo tempo, um limiar de um novo começo, do qual tentamos imaginar o nosso amanhã.