Nina Ricci
Foto: divulgação

Por Cibele Maciet

“Essa coleção foi uma análise do que é a mulher Nina Ricci sem levar em conta elaborações técnicas ou conceitos de moda. É sofisticação sem perfumaria, sem forçar a barra.” É assim que Guillaume Henry define a nova mulher Nina Ricci. Ou melhor, a SUA nova mulher Nina Ricci. Nomeado diretor de criação da maison em janeiro, o jovem de 36 anos, nascido em Chaumont, no nordeste da França, é o primeiro a imprimir modernidade à marca – criada em 1932 – e aproximar a passarela da vida real. “Quando utilizei lantejoulas, elas foram bordadas em crepe de chine, depois tingidas e lavadas para que tivessem uma memória, como tudo na coleção”, explica, em entrevista à Harper’s Bazaar Brasil. “Não queria que houvesse barreira entre dia e noite, os vestidos poderiam ser usados tanto para trabalhar como para sair. Não é uma mulher decadente, mas, ao mesmo tempo, ela tem uma postura sofisticada e blasé. Trabalhamos a renda e os paetês amassados, embolados, como tecidos banais.”
É essa non-chalance despretensiosa que começa a reposicionar a Nina Ricci no radar fashion: vestidos-camiseta de cetim e renda, casacos oversized com patchworks de lã ou pele, como que emprestados do namorado, pantalonas e flares, pulôveres alongados sobre saia mídi e ótimas pulseiras com franjas de correntes douradas. “Vejo a Nina Ricci cheia de poesia, discreta. Mas ela não é, de forma alguma, minimalista. Só prefiro o detalhe sutil à overdose.” Antecessores de Henry, Peter Copping (hoje na Oscar de la Renta) e Olivier Theyskens trabalharam a feminilidade onipresente e tão característica da marca de maneira pomposa ou dramática demais. Belo, é indiscutível, mas na passarela. Em guarda-roupas reais, pouco palpável, tampouco possível.
“Amo a ideia de que Nina Ricci é uma mulher com a qual cruzo na rua e que me impressiona. Não precisa ser alguém que chame a atenção, que faça barulho. Prefiro admirar essa mulher que não conheço do que outra que faz tudo para que eu repare nela”, define o estilista, que foi responsável pelo reposicionamento extremamente bem-sucedido de outra marca francesa, a Carven. A mudança foi não só uma esperta estratégia de negócios do grupo Puig, atual administrador da Nina Ricci, como também uma evolução natural do próprio designer. “Trabalhei lá por seis anos, com muito amor e paixão. Minha saída foi o final de um ciclo: a vontade de ir embora teve tudo a ver com meu momento de vida, com o homem no qual me transformei e com a ideia de exercitar uma nova identidade e linguagem.”
De fato, seu trabalho à frente da Nina Ricci pouco se assemelha com outros que realizou no passado. “Hoje, minhas inspirações vêm mais do cinema, das lembranças, mas nunca da moda. A moda é o que menos me inspira na moda”, dispara, com certo desdém. “Também amo o cinema francês, sobretudo a atriz Romy Schneider. Ela tinha beleza e loucura juntas. Podemos ser discretos e loucos ao mesmo tempo!” E que assim seja.