Foto: Divulgação

Assim como diz seu nome, Copacabana é a principal inspiração da nova coleção da Handred, apresentada no São Paulo Fashion Week. “O bairro tem um contexto de moda há muitos anos. Foi onde tive meu primeiro emprego, onde fica o ateliê da marca, para onde me mudei este ano”, explica André Namitala sobre onde esta história começou.

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A coleção foi adaptada do inverno para o alto-verão, ao mesmo tempo em que o estilista lidava com as transformações de sua marca graças à pandemia. Tecidos mais leves, como linho e seda, criam modelagens fluídas que remete às clássicas imagens do Rio de Janeiro dos anos 1970. Destaque para o delicado trabalho manual feito com a seda, tanto patchwork quanto o bordado.

Veja a entrevista com o diretor criativo da marcar:

Foto: Divulgação

Qual a importância de Copacabana na sua trajetoria? Quando ela se tornou inspiração?

Nos anos 1970 e 1980, as confecções de algumas marcas ficavam em Copacabana. Ainda existem algumas lojas de atacado, tem vários armarinho superantigos e tem todo esse glamour meio decadente guardado. Meu primeiro emprego foi numa fábrica dessas, que ainda existe na cobertura de um prédio. Foi onde acabei aprendendo tudo meu ali, todo o meu começo foi ali. Ainda hoje, trabalho de uma maneira muito parecida, com produção interna e ateliê.

Então, Copacabana tá comigo desde meu primeiro emprego de moda e, há uns três anos, mudei o ateliê para cá. Neste ano, duplicamos o ateliê, então cresci o espaço em Copacabana também. Acabei me mudando para o bairro neste ano, então tinham muitos caminhos guiando para este tema.

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Como foi adaptar seu processo criativo durante o isolamento social?

Na verdade, ele acabou que não existindo muito. A Handred é uma empresa pequena, então não sou só estilista, cuido de financeiro, de marketing e tive que me doar inteiramente para e-commerce. Então minha criatividade ficou muito mais para estratégia do que para o desenho.

Esta era uma coleção de inverno e acabou virando verão. Na nossa cabeça estava tudo certo, mas não, porque além da estarmos em crise, também estava todo o mercado e os fornecedores. A coleção mudou toda, todos os tecidos, porque os fornecedores não tinham mais estoque. Foi uma coleção de muita tensão, estresse, mudança, de muita conta e de muita troca. Acaba que isso é Copacabana: estresse, tensão. Acho que refletiu muito para o tema também.

Nesses últimos dois meses, vimos a coleção tomando forma. É muito difícil a questão do vídeo, já que são várias pessoas criativas juntas, mas se falando a distância. Então não tem aquela aquele cumplicidade de ter uma troca no olhar, saber do que a outra pessoa tá gostando ou não. Foi todo um fazer e se conhecer e só um dia para tudo isso. É bem desafiador, porque é diferente de tudo que a gente tem costume.

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Quais materiais foram usados?

Os materiais são os que usamos sempre. Não usamos sintético, o linho e na seda são nossos carros chefes. A coleção tem várias gramaturas de seda, incluindo shantung, crepe, organzas bordadas. Fizemos tingimento manual também em seda. Em algumas peças, fizemos uns efeitos de plissados com costura, misturando organza e crepe, que dá uma profundidade tridimensional para a modelagem.

O que sentiu ao ver o resultado final?

É diferente, porque na semana pré-desfile você mora junto com todo mundo, você fica editando, fica fazendo prova de make, etc. O corre-corre aconteceu obviamente na semana para fazer o vídeo. É legal a ideia de democratização de material, o conteúdo se multiplica mais rápido. Mas confesso que eu sinto muita falta da surpresa, sabe? porque desfile tudo é surpresa… E o fato de comemorar com todo mundo, porque é uma coisa muito notória depois que acaba, todo mundo se abraçando, se beijando, chorando e tal. Ao mesmo tempo, é interessante ter controle sobre o vídeo, sobre o que você não gosta, poder refazer, editar. Tem seu ônus e bônus.

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Como você acha que o cenário atual vai influenciar a moda a longo prazo?

O mundo inteiro está querendo que uma mudança, está sofrendo com política, com essa forma que estamos vivendo. Acho que precisamos entender que as coisas realmente precisam ser um pouco mais saudáveis, as relações precisam estar mais próximas, não dá mais para você depender que sua produção inteira seja em um país que você nem sabe quem está produzindo. Estes já eram pilares assim da Handred. Sempre produzimos interno, sempre soube da procedência de cada fornecedor

No Brasil, ainda é muito cedo para falar de mudança de cenário, porque ao mesmo tempo que a gente imagina que as pessoas vão dar mais valor às coisas com qualidade, que vão querer saber melhor da procedência, elas também tão muito quebradas. Ainda é muito cedo, acho que estamos muito na resseca para poder extrair qual é o comportamento do público final.