Helena Pontes - Foto: Divulgação
Helena Pontes – Foto: Divulgação

A estilista Helena Pontes vem de uma família nordestina com oito mulheres, entre tias, mães e avó. Todas com nomes começando por Maria e donas de personalidades fortes. Cada uma, à sua maneira, alçou voo conquistando espaço dentro e fora de casa. “É uma família essencialmente matriarcal”, explica a pernambucana radicada no Rio de Janeiro.

Ela diz que o contato com essa essência feminina moldou a maneira como vê o mundo e se posiciona em relação ao movimento feminista. Foi por isso que, quando foi desafiada a criar, em apenas duas semanas, a coleção desfilada no último SPFW, dentro do Projeto Estufa, não teve dúvidas de qual caminho seguir.

Batizada de “Marias”, essa narrativa criativa é sobre mulheres-pássaros, que voam para onde quiserem. A metáfora, explica Helena, representa a força feminina, sempre em movimento. Tem a ver com a sua trajetória também. Formada em design gráfico, ela trocou Recife pela capital fluminense em busca de desafios profissionais.

Levou na bagagem as roupas que a avó, Maria Anunciada, fazia. “Ela costurava para a família toda e eu sempre ia com ela comprar tecidos. Os moldes eram feitos em papel de pão. Foi meu primeiro contato com o fazer roupa”, recorda.

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Coleção apresentada na SPFW N46 - Foto: Agência Fotosite
Coleção apresentada na SPFW N46 – Foto: Agência Fotosite

No caso de Helena, o hábito literalmente fez o monge. Conectada com a tradição familiar, conta que nunca conseguiu comprar roupas em redes de fast fashion. “Aproveitava as idas para casa, duas vezes ao ano, para fazer novas peças.” Aos poucos, começou a procurar costureiras locais. “As pessoas gostavam do que eu vestia, sempre perguntavam de onde era”, acrescenta.

Ao mesmo tempo, a agência de publicidade onde atuava passou a incluí-la no time que atendia o setor de moda. Juntando tudo, entendeu que era hora de tomar um novo rumo. O destino? Paris. Durante dois anos, absorveu tudo o que podia na Esmod, a mais tradicional escola de moda parisiense, criada em 1841 por um alfaiate. “Na volta, foi desafiador mudar de ramo, porque eu não tinha experiência profissional, então, aos poucos, fui empreendendo.”

Tudo mudou quando ela passou a trabalhar no coworking XXVinte. “Finalmente estava no lugar certo, na hora exata.” Trabalhar com profissionais de várias áreas abriu portas. A marca que leva seu nome nasceu há quatro anos e tem pontos de venda em São Paulo e no Rio, além de loja virtual no seu site.

Desde o início, imprimiu o conceito de consumo consciente. “Queria exercer a minha verdade”, explica. Foi assim que chegou à estrutura enxuta e eficiente que tem atualmente. “Tenho duas costureiras fixas e contrato outras quando preciso. Foi por causa delas que consegui fazer os 15 looks do desfile em tão pouco tempo.”

Coleção apresentada na SPFW N46 - Foto: Agência Fotosite
Coleção apresentada na SPFW N46 – Foto: Agência Fotosite

Entusiasta do movimento feminista, tem levado para as coleções questões sociais que estão na ordem do dia. “Na fase do #elenão, fui às manifestações. Tenho uma filha de 3 anos e penso nela. É preciso ser coerente.”

Na moda, o posicionamento aparece principalmente na força das imagens clicadas em cenários que refletem a riqueza natural do País e que chamam a atenção para questões étnicas e de gênero. Um dos melhores momentos entre os desfiles de jovens designers, reuniu peças feitas de algodão e linho, destacadas por recortes, assimetrias cromáticas e modelagens confortáveis.

A artista plástica pernambucana Clara Moreira criou a estampa de mulher-pássaro que abriu a apresentação, e o Studio Adriana Valente desenvolveu os acessórios com reaproveitamento de jacarandá e imbuia – inclusive as máscaras usadas pelas modelos.

Coleção apresentada na SPFW N46 - Foto: Agência Fotosite
Coleção apresentada na SPFW N46 – Foto: Agência Fotosite

O coletivo Carandaí25 e o Sebrae carioca também foram parceiros. “Fiquei sem dormir vários dias, mas o resultado foi positivo. Várias multimarcas nos procuraram.”

Incansável, já está planejando o ato seguinte. “Quero reaproveitar sobras de tecido fazendo patchwork para a próxima coleção. Atualmente, uso para fazer minhas embalagens, mas vejo que posso ir além.” Alcançando pequenas distâncias, Helena promete voar longe.

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