Foto: Imatra/Divulgação

Ainda que tivesse bola de cristal, era bem provável que a joalheira Livia Canuto não adivinhasse que a nova coleção, iniciada em janeiro, tivesse tanta sintonia com a reconfiguração de rotina que, dois meses depois, todos nós seríamos obrigados a vivenciar. E, ao paralisar a agenda, viu seu processo criativo ganhar ainda mais sentido.

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Batizado de Inabitat, o lançamento é inspirado em um lugar inabitado fictício. Para criar a ambientação perfeita para as joias, a carioca elaborou uma história próxima à de filmes que desbravam novos mundos, mas que pode perfeitamente servir de metáfora para a incerteza sobre o futuro do planeta, aguçada pela pandemia e por projeções científicas ameaçadoras, caso o meio ambiente continue a ser negligenciado.

O background

Na sua odisseia espacial, a Terra sofre com a escassez de recursos naturais ao ser comandada por governos autoritários, e seus habitantes não têm outra saída a não ser desbravar territórios ermos. Para tornar possível a adaptação, a ciência desenvolve um ambiente biotecnológico e híbrido, com a estética semelhante à do fundo do mar.

“As peças foram projetadas para esse novo cenário e corpos mutantes”, diz a designer, que foi buscar referências de formas em bolhas, crustáceos, garras, esferas e conchas, que têm tudo a ver com a paixão pela praia – a do Leblon, onde mora, ela não vê desde o início da pandemia, porque mesmo com a reabertura gradual da cidade, ainda não se sente segura para voltar às ruas.

Inabitat também é o resultado do interesse de Livia por política e sociedade. Temperam o olhar cosmopolita e um jeito doce de ser, embalado por uma estética transgressora afiada vinda da simpatia pelo punk. A versatilidade dá o tom a peças que passeiam pelo corpo, ganhando novas funções: anéis, por exemplo, podem ser usados na orelha como ear cuff ou vice-versa.

Foto: Imatra/Divulgação

“Pela primeira vez senti a necessidade de criar peças que sugerissem uma certa estranheza”, diz ela, que resolveu bancar o desafio. Pode-se dizer que esta é sua coleção mais fora da caixinha, um marco em seu processo transgressor iniciado em 2012. “Foi a época da abertura da minha primeira loja (no Shopping da Gávea) e de fim de relacionamento”, recorda.

De cara, naquele período já saíram de cena temas românticos e lembranças da infância que caracterizam a primeira fase do seu trabalho. No lugar, vieram spikes, pregos, flechas e, recentemente, formas orgânicas abstratas que agora evoluem para joias ainda mais próximas de uma pegada artística com mood contemporâneo.

Nos 33 itens da coleção, um certo ar de desconforto visual permeia brincos que sobem pela orelha ou que confrontam garra e parte principal, além de anéis que se acomodam entre os dedos. Segundo a designer, são modelagens que despertam a consciência de que há um o objeto decorando o corpo. “Quero ver como meu público vai reagir a elas”, instiga.

O processo criativo

“Tudo foi feito aqui, na bancada da minha casa. Sem poder sair, primeiro tive um bloqueio, mas depois o fluxo criativo veio e fiquei completamente imersa no processo”, diz Livia Canuto, que usou a sintonia com o mundo externo para turbinar a produção. “Foi a coleção que consumiu mais tempo, mas também a maior em número de peças”, explica, acrescentando que foi a primeira vez que criou em home office desde que abriu o ateliê, há dez anos. Com as peças modeladas, o passo seguinte foi enviá-las para os ourives, que trabalharam com prata e pérolas barrocas.

A designer conta que os efeitos sociais do novo coronavírus foram motivo de reflexão sobre a função da joia. “Quando comecei a criar também voltei a dar aulas em formato on-line para meus alunos de joalheria e, ao preparar a primeira aula, percebi que o mundo que conhecíamos não existia mais”, recorda.

Segundo ela, questionamentos sobre o sentido e o motivo que leva uma pessoa a usar uma joia mobilizaram seu pensamento. “Depois vi que o caminho está no significado da peça. Não pode ser apenas o consumo, é preciso ter alguma relação com o portador e também um pouco da minha história”, pondera. “Tenho certeza de que outras pessoas se identificarão com essa reflexão que estou trazendo à tona. É sobre o novo corpo e a nova joia. Para mim, acabou a era da peça de cofre.”