Bel Rott – Foto: Isabela Ribeiro/Divulgação

A Isaro, marca que aposta em minimalismo como tendência atemporal, foi criada pela brasileira Isabel Rott em 2016. Nascida em uma tribo indígena no Sul do Brasil, ela foi criada na Alemanha e se formou no Instituto Europeu de Design.

Com nova coleção no mercado, batizada de “Beauté”, ela foca em roupas para o dia a dia com um toque diferente, mostrando um lado mais versátil da sua grife. “A marca continua apostando na diversidade dos materiais, tais como algodão, couro e linho”, explica Bel.

Foto: Eduardo Lobo/Divulgação

Para a temporada, ela estreia parceria com a muralista Kalina Juzwiak, a Kaju, que reproduz em peças os rostos abstratos que são característicos da sua obra.

“O material usado na confecção é essencial, pois a marca quer fugir do atual fast fashion. Sendo assim, valorizamos o algodão, a seda e o linho, materiais que, se bem escolhidos, abraçam nosso corpo”, explica.

Bazaar entrevista a estilista e conta aqui a sua história. Leia na íntegra:

Em qual tribo você nasceu? Chegou a viver nela por alguns anos ou foi muito jovem para a Alemanha?
Eu nasci na tribo Kaingang, mas não cheguei a viver lá, pois fui adotada por meus pais alemães pouco tempo depois do meu nascimento, devido ao falecimento da minha mãe materna. Logo em seguida, fui para a Alemanha, na cidade de Colônia. Passei alguns meses lá, mas meus pais fizeram questão de me criar com minhas raízes brasileiras, então voltei para o Brasil. Como o resto da minha família se mantinha na Alemanha, eu dividi minha vida entre os dois países.

Foto: Eduardo Lobo/Divulgação

Como foi sua vida entre os dois países?
Todos os anos eu passava as férias na Alemanha, junto com nossos parentes de lá. Com 27 anos resolvi me mudar para Alemanha. Vivi em Colônia por 5 anos e, então, voltei para o Brasil. Considero lá meu segundo lar. Hoje eu moro em São Paulo há 4 anos.

Costuma visitar a sua tribo?
Nunca mais retornei, pois não tenho informações suficientes sobre eles. Eu sei que eles vivem espalhados pelo sul do País, então não sei a localização exata da minha tribo. Não nego que gostaria. Digamos que voltar às minhas raízes está nos meus planos para o futuro.

Foto: Eduardo Lobo/Divulgação

Quando você criou sua primeira coleção? Fale sobre ela.
A primeira coleção foi criada no ano de 2017, com o desejo de fazer uma moda mais clean, porém com peças versáteis, que possam ser usadas em diferentes ocasiões, por diferentes pessoas. A moda é livre, certo?!

Você tem algum trabalho social com a comunidade?
No momento não trabalhamos diretamente com a comunidade, mas sempre penso nela quando crio minhas coleções. Em toda coleção, fazemos questão de incluir, em nossos trabalhos e divulgações, um grupo que faça parte de uma minoria atual. Assim, é possível lhes dar visibilidade, trabalho e a chance de falar, se expor. Acredito que moda pode servir como um palco para dar visibilidade à diversos assuntos, e a Isaro decidiu dar este espaço para minorias que, nesta sociedade, ainda não conseguiram sua voz – ou ainda estão lutando por isso.

Foto: Eduardo Lobo/Divulgação

Qual é a sua posição em relação à sustentabilidade?
Sustentabilidade é uma palavra de inúmeras facetas. Sendo assim, dentro da marca Isaro a sustentabilidade se resume em criar uma moda mais slow fashion, com poucas peças, porém peças chaves. Somos a favor de um guarda-roupas mais minimalista, elegante e estiloso.

Como surgiu a parceria com Kalina Juzwiak?
Nossa parceria tem uma história bonita! Kalina e eu nos conhecemos praticamente desde o berço. A irmã mais velha de Kalina, chamada Sybil, estudou comigo desde a pré-escola. Éramos amigas próximas e vizinhas de bairro. Sendo assim, constantemente frequentávamos a casa uma da outra. Na época, Kalina ainda era muito nova para brincar conosco, mas, depois que foi criado o Instagram, eu acabei me deparando com o trabalho dela, virei fã e a chamei para batermos um papo. Acontece que, hoje em dia, nossas ideias e energias combinam, e nosso trabalho em conjunto acabou sendo uma coisa óbvia e orgânica. Ainda planejamos continuar com essa parceria para projetos futuros. Vamos ver o que vem por aí.

Como você chegou à comunidade trans e por que decidiu trabalhar com ela nesta nova coleção?
Eu sempre fiz parte do universo LGBTQ+. Por isso, me identifiquei com sua luta diária por um lugar na sociedade, um lugar seguro. Creio que só por ser mulher, essa luta já exista. Sendo assim, dentro dessa fase pela qual o Brasil está passando, eu achei correto o momento de expor de forma bela, porém forte, essa comunidade.

Foto: Eduardo Lobo/Divulgação

Quais são suas marcas/estilistas preferidos?
Confesso que sou apaixonada pelos produtos da marca Burberry, simplesmente pelo conceito “timeless”. Tenho um enorme respeito por marcas que, apesar dos tempos mudarem e variarem tanto, conseguem se manter no topo, sempre criando peças que surpreendem e que ao mesmo tempo mantêm a essência da marca.

Quais os seus planos para 2020?
De certa forma, 2020 começou difícil. Acho que todos podemos dizer isso. Mas o plano mais palpável no momento é criar uma coleção “indígena” e, claro, envolver integrantes de tribos neste processo. Acredito que tem potencial para ser algo lindo! Vamos só aguardar essa época de pandemia passar para que tudo consiga voltar à normalidade!