Jal Vieira – Foto: Reprodução/Instagram/@jalvieirabrand

Na última Casa de Criadores, a estilista Jal Vieira transformou rupturas afetivas em uma das coleções mais elogiadas do evento. Usando branco para abordar o início de uma relação, vermelho simbolizando turbulência, e preto para falar do fim, e também da cura, a paulistana, de 31 anos, chegou a peças amplas, com franjas feitas de cadarços e contrastes entre transparência e densidade, em uma fina metáfora sobre sinceridade.

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Na passarela, a ebulição de sentimentos se fez sentir nas performances intensas das bailarinas e da própria Jal cantando a trilha. Oito meses depois, ela finaliza a coleção que apresentará, em breve, na próxima edição do evento. Fortalecida e tranquila, a estilista conta que está se reerguendo.

Sasha Vilela usando o blazer Turbulência, durante o encerramento do Festival Marsha – Foto: Reprodução/Instagram/@jalvieirabrand

Um ponto em comum conecta ontem e hoje. Se, em dezembro, por coincidência, sua turbulência era a mesma vivida por outras pessoas da equipe, agora a ideia de conjunto volta à cena com a participação de cinco poetas negras falando de suas urgências e de como elas afetam suas vidas.

Ao colocar a proposta em andamento, a estilista diz que começou a perceber como as trajetórias e individualidades, delas e a sua, se cruzavam. “Estávamos, todas, falando da solidão e da vivência da mulher preta”. É assim que ela divide o protagonismo da nova coleção com Ryane Leão, Luz Ribeiro, Poeta Valentine, Gênesis Poeta e Carol Dall Farra.

Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

Os poemas conduzem o processo criativo da coleção e também pequenos filmes de moda, com narrativa das convidadas e linguagem documental. Com o distanciamento social, Jal abraçou todas as etapas da coleção desde a produção – com upcycling de roupas próprias e usando tecidos e aviamentos que já tinha em casa. O resultado aparece em cores sóbrias, texturas inspiradas em páginas de livros e formas amplas. “Como estou ficando em casa, isso acabou influenciando na modelagem”, descreve.

Por fim, é dela também o papel de modelo. “É um processo solitário, mas é o que estou vivendo agora”, diz a designer, que fez essa opção para evitar colocar a si mesma ou outra pessoa em risco. Além dos vídeos, criou ilustrações das cinco poetas. “Desde pequena gostei de desenhar”, diz ela, que descobriu cedo o gosto pela moda reproduzindo looks de um desfile que viu na tevê com a mãe.

Além dos navalhados e da cortiça, outro destaque da coleção apresentada na última Casa de Criadores foram as bolsas, que representavam os candeeiros que sua mãe utilizava quando criança para iluminar as noites do sertão baiano – Foto: Reprodução/Instagram/@jalvieirabrand

Mais tarde, cursou Design de Moda na Belas Artes, mas sempre teve um olhar crítico. No ano passado, foi convidada por André Hidalgo (idealizador da Casa de Criadores) para integrar o evento. “Vi que era uma chance de fazer as pazes com a moda e colaborar para humanizar processos que me incomodam”, diz.

Também faz parte do seu momento atual o mergulho em sua ancestralidade. “Por não ser retinta e sempre ter estado cercada por pessoas brancas, demorei em me perceber como preta”, analisa. A percepção veio de maneira humilhante e dolorosa. “Uma vez fui perseguida em uma loja pelo segurança, que quis olhar minha bolsa. Comecei a perceber que essa desconfiança acontecia com frequência. Agora, me mantenho distante das prateleiras e evito abrir a bolsa”, relata. “É uma condição que o racismo impõe”.

Francceska Jovito na passarela da marca durante a Casa de Criadores – Foto: Reprodução/Instagram/@jalvieirabrand

No recente debate sobre o caráter racial e a indústria da moda, Jal e nomes como Weider Silvério, Théo Alexandre, Rafael Silvério, Fábio Costa, Gui Amorim, Diego Gama, Hisan Silva e Pedro Batalha criaram o coletivo de estilistas Célula Preta, ambiente de debates independentes para propor ações, como campanhas. Juntos, de fato, tudo fica mais forte.