Brinco Brutalia em prata polida, com contornos inspirados em instrumentos bélicos antigos e lâmina de unakita (R$ 1.350) – Foto: Divulgação

Por Eduardo Vivieros

Em um universo tão amarrado em tradições, como o da joalheria, uma criadora que tenha desapego suficiente para exercitar mudanças pode ser uma peça rara. Pois é aí que se encaixa a história da carioca Ana Porto, que desenha a marca homônima desde 2014. Nos primeiros anos, a designer era apegada a uma linha minimalista e geométrica, de formas retas e polidas. Até que viu essa estética virar commodity no mercado – e um incômodo no ateliê.

“Tinha muita gente fazendo a mesma coisa, trabalhando com o que eu gostava. E aí percebi que era hora de um novo caminho, não queria ser apenas mais uma no Instagram”, conta. A mudança, em 2017, deu carga nova de personalidade às peças, em um movimento que Ana chama de “quebra suave”: “Viemos com uma ideia de coleção mais fluida, mas sem perder a linha de raciocínio anterior”.

O resultado foi uma versão 2.0 da marca, de minimalismo menos calculado e mais orgânico, com um olhar voltado para a natureza e outro aproveitando o potencial do “handmade in Rio”, incluindo o uso de pedras brasileiras. A nova coleção, batizada de “Brutalia”, resume bem esse processo. As gemas – como jaspe oceânico, cianita e larimar – aparecem menos polidas, e as formas das peças em prata, mais brutalizadas, ainda que com curvas suaves.

A designer carioca Ana Porto – Foto: Divulgação

“Minha joia não é uma coisa delicada, girlie. Claro que há uma sutileza no processo, na criação. Mas são peças com uma presença diferente, têm um ruído.” Muito da sua criação tem a ver com o histórico construído antes de se tornar joalheira, carreira que aconteceu ao acaso. Formada em design de produto e com pós-graduação em design estratégico, entrou no mundo da moda pelas mãos de Luiza Mercier – na época, estilista à frente da À Colecionadora, uma das tantas marcas artsy que fizeram fama no Rio de Janeiro do começo dos anos 2000.

Só depois partiu para imersão em cursos na London College of Fashion e na Central Saint Martins, em Londres, completando um background interior que olhava também para arquitetura, ilustração e design gráfico. A ourivesaria apareceria anos mais tarde, depois de Ana esgotar suas possibilidades na moda e sentir falta de produzir algo mais palpável.

Essa palpabilidade aparece também na nova coleção, criada em um momento em que a designer percebeu que tanta coisa ia escorregando pelos dedos. “Foi logo depois do incêndio no Museu Nacional, o Brasil e o mundo estavam em um estado… Comecei a pensar nesse mood de guardados e perdidos. Queria falar de tantas referências que se foram, assim como heranças culturais”, conta.

Brincos Margot em prata polida combinada com gota de jaspe prichado (R$ 820) – Foto: Divulgação

Daí vem o imaginário de lascas, fósseis e garras que aparecem nas formas das peças da “Brutalia”, assim como alusão a técnicas de joalherias antigas. E, pensando mais para trás, nas primeiras peças de metal produzidas pela humanidade, que tinham ainda um caráter de utensílio bruto. “É uma caixa de relíquias hipotética”, define Ana.

A joalheira, inclusive, se coloca, de certa forma, dentro dessa mesma caixa. Assim como aquelas heranças podem ser perdidas de uma hora para a outra, Ana deixa bem claro (como boa sagitariana) que seu mix de referências, que a trouxe para as joias meio sem querer, pode dar novamente em outro caminho.

Por enquanto, ela está feliz, vendendo suas peças online, na Pinga, em São Paulo, e no ateliê dentro do Palm Beach, predinho clássico da moda carioca na rua Dias Ferreira, no Leblon. Mas ninguém garante que ela e suas peças continuarão as mesmas. “É um jeito mais leve de ir fazendo as coisas. Gosto de pensar que, amanhã, posso mudar