A visita ao ateliê de Karina Olsen é uma experiência inspiradora. Aliás, conversar com ela é um momento de imersão em ideias transgressoras, no bom sentido da palavra. Ela investe em conceitos fortes de upcycling, que envolve uma cadeia completa – da matéria-prima à embalagem, passando por projetos sociais.

Antes de falar sobre tudo isso, a joalheira mostra uma caixa de vidro com pedras brutas e conta que, desde pequena, tem esse fascínio por colecioná-las. Em seguida, explica a origem de cada uma delas. Ali havia safiras, rodolitas e turmalinas, de uma forma diferente do que costumamos ver em vitrines de grandes joalherias. Eram lascas ou, em outras palavras, descartes dos lapidários. “Um dia, esses pedaços e as partes cristalinas já fizeram parte do mesmo corpo”, diz.

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Karina Olsen - Foto: André Giorgi/Harper's Bazaar Brasil
Karina Olsen – Foto: André Giorgi/Harper’s Bazaar Brasil

“Comecei a enxergar mais beleza nelas graças às histórias que elas têm para contar por meio das inclusões e admirar as imperfeições na época que estudei gemologia. Sou o tipo de pessoa que acha as rugas lindas, porque contam o que vivemos”, explica, enquanto mostra os risquinhos da esmeralda, chamados de jardim.

Formada pelo Gemological Institute of America, em Nova York, e ex-sócia do Studio Cocoon, Karina lançou a Olsen K pensando em unir suas três paixões: pedras, design e trabalho social.

“Continuava visitando os lapidários e reparava na grande quantidade de sobras e perguntava: ‘O que vocês fazem com isso? Vocês me doariam?’. Senti que era possível fazer algo incrível e dar nova vida a cada parte.”

 Brincos em ouro branco 18k, ródio negro e diamantes - Foto: Divulgação
Brincos em ouro branco 18k, ródio negro e diamantes – Foto: Divulgação

Com foco em aproveitar a pedra como um todo, ela lançou duas famílias para sua label: uma dedicada à combinação de gemas cristalinas e ouro 18k, e outra unindo lascas e prata 950. Os metais são de reúso, certificados pelo órgão londrino LBMA por procedência ética, que elimina as possibilidades de incentivo ao trabalho escravo e do uso de mercúrio para extração nos garimpos.

“Há formas de não gerar tanto resíduo na joalheria. O metal é reciclável e você pode derreter, transformar e vender. No caso das pedrarias, de 30% a 70% viram descarte. Se tiver novos destinos para estas partes, é possível estimular a mão-de-obra local e valorizá-las ainda mais.”

Pulseira em prata 950, com banho de ouro e sodalitas - Foto: Divulgação
Pulseira em prata 950, com banho de ouro e sodalitas – Foto: Divulgação

O processo de criação de cada linha começa de forma oposta. Enquanto a série de ouro e pedras nobres parte do desenho feito no papel, Karina inicia a manufatura das peças de prata a partir do formato das pedras brutas.

“Posso trabalhar a lasca do jeito que ela está ou moldá-la em um novo formato. Há um tipo de brinco com mais de sessenta pedrinhas e foi preciso lapidar cada uma, na altura perfeita”, explica ela, que garante não ser um trabalho tão barato quanto parece. “Acabei gerando um valor na peça também por causa da lapidação e todos precisam ganhar: lapidário, eu e o cliente. É a ideia do ‘ganha-ganha-ganha'”.

Diferentemente do que vemos por aí, a designer não classifica suas criações em coleções. Diz que separa por histórias e não de acordo com as necessidades sazonais. “As joias são eternas e, se forem pautadas pela cor que está em alta, perdem o sentido.”

Brincos em ouro amarelo e branco 18k, pérolas keshis, safiras e diamantes - Foto: Divulgação
Brincos em ouro amarelo e branco 18k, pérolas keshis, safiras e diamantes – Foto: Divulgação

O conceito de atemporalidade ganha ainda mais força graças à produção em pequena escala e ao design elegante, moderno e minimalista – característica que herdou da mãe, de origem sueca. Há desde brincos com mix de ouro amarelo, ródio negro e diamantes a maxicolares com safiras, passando por anéis de prata com lascas de esmeralda e turmalina rosa.

Além disso, as peças são vendidas separadamente, não é preciso comprar o par de brincos, por exemplo. “A ideia é para misturar, não só com peças da Olsen K, mas também de outras marcas.”

s. Colar em prata 950, com banho de ouro e lápis-lazúli - Foto: Divulgação
Colar em prata 950, com banho de ouro e lápis-lazúli – Foto: Divulgação

Cada item ainda vem dentro de uma caixa colorida de papel com ímãs para transformar em objeto decorativo, feita pelo Estúdio de Design Papelaria.

Da mente borbulhante da designer saiu também o Kilate Social, para capacitação em ourivesaria de famílias em situação de vulnerabilidade e egressos do sistema prisional. Na compra de uma peça, quilates sociais são destinados à realização do projeto.

“Convidamos a olhar o luxo de uma forma diferente. A joia não apenas passa de geração para geração, mas também contribui com as próximas.” Karina brilha tanto quanto suas criações.

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