Karim Adduchi - Foto: Divulgação
Karim Adduchi – Foto: Divulgação

Em depoimento a Cibele Maciet

Nasci há 30 anos em Imzouren, cidadezinha no norte do Marrocos, bem perto da costa mediterrânea. Apesar de só ter vivido ali meus primeiros anos da infância, tenho ótimas lembranças do lugar: a poesia da vida cotidiana e a relação de proximidade do povo berbere, com as altas montanhas como pano de fundo. Minha mãe, tias e avós me contavam muitas histórias e tradições desse povo, o que influenciou muito minha carreira e senso de estética.

No ano em que completei 5 anos, mudei com minha família – pai, mãe e irmão – para Barcelona, para tentarmos uma vida melhor. Minha cidade natal era maravilhosa, mas não era um lugar com muitas oportunidades. Cheguei à Catalunha sem falar uma palavra de espanhol e minha entrada na escola primária foi um tanto quanto delicada.

Comecei a frequentar a Escola de Belas Artes de Ca L’Oller por indicação de um professor como método terapêutico e de forma de expressão. A descoberta do desenho e da pintura italiana renascentista foi fundamental para mim nessa época, abrindo uma nova dimensão na minha cabeça. Estar ‘lost in translation’ me possibilitou desenvolver um sexto sentido artístico muito importante.

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Karim Adduchi - Foto: Divulgação
Karim Adduchi – Foto: Divulgação

A vontade de me tornar estilista veio bem mais tarde. Apesar de meus pais serem costureiros, nunca tinha pensado em me tornar um, até me mudar para Amsterdã, aos 23 anos, para prosseguir meus estudos de arte. Senti falta da presença física deles, e então tive de me reconectar com meu passado por meio da criação de roupas, como eles próprios faziam.

Longe do lar, inventei minha própria rotina para me sentir em casa, e a moda foi minha saída. Fui estudar na conceituada escola Gerrit Rietveld Academie e meu trabalho de conclusão de curso, em 2015, foi minha primeira coleção, intitulada “She Knows Why the Caged Bird Sings”. A partir de mantas e tapetes marroquinos descosturados e desestruturados, adicionei lã e couro, criando volume e obedecendo às curvas do corpo feminino. A isso, juntei minhas origens e influências berberes, artes aplicadas e alfaiataria; o resultado foi uma linha muito aplaudida pelo júri e pela imprensa.

Karim Adduchi - Foto: Divulgação
Karim Adduchi – Foto: Divulgação

Para minha mais recente coleção, “She Has 99 Names” (uma alusão a Alá e ao Alcorão), quis fazer um tributo à mulher árabe e suas virtudes e personalidades complexas. Escolhi uma igreja como locação, e a trilha sonora foi um canto tradicional árabe com voz e violino ao vivo. A temática da linha foi a mulher nômade dos tempos modernos, embalada por um exílio voluntário num país estrangeiro. Para isso, trabalhei com refugiados sírios de Alepo – marceneiros, sapateiros e metalúrgicos – para criar os looks artesanais com tecidos e materiais vindos do Marrocos.

Além disso, na época da criação da coleção, participei de workshops destinados a refugiados e crianças em idade escolar em Amsterdã, para ajudá-los a desenvolverem seus talentos artísticos. Isso tudo me inspirou muito.

Karim Adduchi - Foto: Divulgação
Karim Adduchi – Foto: Divulgação

Nessa fase, também coletei muitas histórias de famílias de refugiados. Eles todos subiram na passarela no final do desfile. Mas não estou interessado em ser um artista ou estilista político. O que une as raças é muito maior do que o que as diferencia, é isso que quero mostrar ao público.

Com a atual crise na imigração, quero acrescentar o que posso dar às vidas de pessoas que perderam tudo e que precisam recomeçar do zero. Depois da apresentação, entrei para a lista das 30 personalidades promissoras com menos de 30 anos da “Forbes”.

Karim Adduchi - Foto: Divulgação
Karim Adduchi – Foto: Divulgação

O objetivo maior das minhas coleções sempre foi reconstruir a ‘história esquecida’ do Marrocos, e o simbolismo e as percepções das mulheres berberes.

A coisa que mais amo nessa profissão é que ela é adaptável e eclética, dependendo de culturas, contextos, religiões e valores pessoais e, ao mesmo tempo, um documento social indelével. Quero continuar mantendo minha integridade e crescendo na profissão.

Minha bússola moral é ser transparente com meu público e meu trabalho, e essa é minha ponte para me conectar e comunicar com as pessoas. Sempre com gentileza e objetivos positivos.

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