À esquerda look da Lenny Niemeyer e à direita Giuliana Romanno, ambos verão 2015 - Fotos: Agencia Fotosite
À esquerda look da Lenny Niemeyer e, à direita, Giuliana Romanno, ambos verão 2015 – Fotos: Agencia Fotosite

Por Luigi Torre

Adeptos do discurso de que a moda brasileira vive se alimentando das passarelas internacionais terão de rever seus conceitos. Neste verão, a principal tendência emergida dos desfiles nacionais tem raízes fortes no Brasil. Tecidos naturais, como algodão e linho, trançados, tramas e rendas artesanais ganham status de luxo, invertendo a lógica dominante até então: ao invés de adaptar as vontades globais às demandas locais, o regional ganha relevância mundial.

Quem melhor representa essa vertente, de uma moda de pompa low-profile, é Paula Raia. Desfilado na última edição do SPFW, seu verão 2015 expressa os valores que regem a maré: imagem simples e natural, na qual elementos e materiais rústicos ganham sofisticação máxima por meio de tramas e tranças de ráfia, sisal e algodão rendado.“O uso de técnicas manuais trazem vida à coleção e resultam num produto mais exclusivo, num mundo industrializado, regido pelas produções em massa”, conta a estilista em entrevista à Bazaar. “Além de trazerem lembranças culturais regionais às quais todos nós, brasileiros, fomos influenciados ao longo da vida”, continua.

À esquerda look Paula Raia e à direita look Wagner Kallieno, ambos verão 2015 - Fotos: Agencia Fotosite
À esquerda look Paula Raia e à direita look Wagner Kallieno, ambos verão 2015 – Fotos: Agencia Fotosite

Sua cartela de cores – dominada por tons neutros e terrosos – é a forma mais fácil de aderir ao estilo. São essas tonalidades mais calmas e discretas, ao lado de peças de modelagens simples ou básicas, os complementos ideais para as texturas delicadas e preciosas, que substituem as estampas no look essencial do verão. Dressed down à brasileira. O trabalho artesanal também é elemento constante na marca de Giuliana Romanno. “É algo que o consumidor valoriza cada vez mais. Consequentemente, a demanda aumentou”, explica.

Desejo que ela traduziu, em seu début na semana de moda de São Paulo, em construções teladas, também inspiradas em cestarias. Desenvolvidas em moulage, com pouquíssimas costuras, expõem um dos motivos do crescente apetite pelo feito à mão:o contraste entre industrial e artesanal – ou entre produção em massa e exclusividade.

À mão: detalhe das tramas e rendas do verão 2015 de Paula Raia - Foto: reprodução/ Bazaar
À mão: detalhe das tramas e rendas do verão 2015 de Paula Raia – Foto: reprodução/ Bazaar

O movimento vem em sintonia com um caminho não tão novo do prêt-à-porter mundo afora. Se por um lado as redes de fast fashion oferecem versões mais acessíveis daquilo que foi desfilado, por outro vestem todo mundo igual. Ao mesmo tempo em que garantem amplo acesso à informação, as redes sociais saturam o consumidor com imagens homogêneas.

É natural, então, a busca por exclusividade – distinção é um fator essencial na história da moda. Do ponto de vista comercial, também faz sentido marcas investirem cada vez mais em recursos dificilmente replicáveis – pelo menos com a mesma precisão e qualidade. São detalhes que se revelam apenas com inspeção minuciosa, proporcionando experiência mais pessoal à consumidora.

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