Toque utilitário à alfaiataria contemporânea - Foto: Agência Fotosite
Toque utilitário à alfaiataria contemporânea – Foto: Agência Fotosite

Por Luigi Torre

Três é tendência, já diz a máxima da moda. Nesta temporada, entretanto, não são apenas três, mas vários estilistas com seus olhares voltados para os uniformes militares. Marc Jacobs, por exemplo, os remodelou por completo: transformou jaquetas em minivestidos, ampliou ao máximo a capacidade (e o volume) dos bolsos cargos e substituiu dragonas por recortes em renda guipure; Ralph Lauren os fez como longos vestidos de noite; as irmãs Kate e Laura Mulleavy, da Rodarte, os decoraram com brilhos e detalhes em tecido telado; e, apesar da aparência do it yourself, ganharam bordados e patches dignos dos mais tradicionais ateliês de couture nas mãos de Hedi Slimane, na Saint Laurent.

A lista pode continuar, afinal, não foram poucas as interpretações militaristas nas coleções internacionais de verão 2015. É a união da necessidade de roupas utilitárias e práticas para os dias de hoje, com um dos principais temas da estação: os anos 1970. Foi naquela década que as primeiras jaquetas camufladas conquistaram espaço definitivo no guarda-roupa civil. Alguns anos antes, mais especificamente em 1968, Yves Saint Laurent já apresentava sua coleção Saharienne, quase toda inspirada nas jaquetas usadas por oficiais britânicos na Índia do século 19. Pouco tempo depois, com o fracasso e as atrocidades da Guerra do Vietnã, roupas militares se tornaram uniforme dos protestos pela paz e símbolo da contracultura que aflorava nos EUA. Pense nos looks de John Lennon e Yoko Ono, ou da jovem ativista Jane Fonda (na época apelidada de “Hanoie Jane”).

Não precisou de muito para que toda a indústria da moda se apropriasse dessas poderosas imagens, replicando-as em escala industrial e com endosso da cultura pop que ganhava proporções jamais vistas antes. Começava a invasão militar na moda. E sem sinal de trégua. Em 1987, por exemplo, Stephen Sprouse começou a manipular os camuflados de Andy Warhol em casacos de tons açucarados. Nos anos 1990, Rei Kawakubo, na Comme des Garçons, deu ares conceituais ao desconstruir e reconstruir a jaqueta militar em mil e uma formas; e, nos anos seguintes, inúmeras outras coleções de nomes tão variados quanto John Galliano (Dior), Junya Watanabe e Christophe Decarin (Balmain) ofereceram suas versões deluxe das roupas de soldados e marinheiros.

Agora, as roupas militares chegam para dar toque utilitário à alfaiataria contemporânea. Aparecem em blazers acinturados, com amplos bolsos, vestidos de chamois ou então servem de contraponto para looks mais delicados, como vistos na Saint Laurent. Comum a todas as propostas, porém, está uma certa subversão feminina. Detalhes e pequenas alterações na construção, como as rendas dos vestidos-jaqueta da Sacai, a silhueta jovem e sexy de Marc Jacobs, os tecidos nobres e fluidos de Ralph Lauren, os brilhos da Rodarte ou as estampas minimal-tropicais de Jason Wu. Uniforme perfeito para a contínua guerra por liberdade e direitos iguais das mulheres. Agora, porém, sem abrir mão de sua feminilidade, como bem pregam os atuais discursos feministas. Tipo “hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”.