Foto: Sophie Carre

Obcecado por seu trabalho, Christian Dior costumava dizer que as aventuras mais apaixonantes de sua vida eram as roupas que fazia. Foram 22 coleções desenvolvidas ao longo de dez anos que marcaram para sempre a moda, começando pela linha Corolle Verão 1947. Revolucionária, destacava o tailleur Bar, rebatizado de New Look por Carmen Snow, então editora-chefe da Harper’s Bazaar americana. A expressão rodou o mundo enquanto os jornais franceses estavam em greve.

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“Em tempos turbulentos como o que estamos vivendo, precisamos manter tradições”, sentenciava o criador referindo-se ao legado primoroso do luxo e dos hábitos em tempos ainda nada fáceis do pós-guerra. Ao olhar para a segunda metade do século 19 em busca de inspiração, ele chegou a uma silhueta nova, com alma atemporal, que hoje serve de base para o exercício criativo de Maria Grazia Chiuri. “O link entre passado e futuro é o que faz com que peças se tornem icônicas”, reforça ela à Bazaar.

Foto: Sophie Carre

Na contínua reflexão sobre o que significa ser diretora artística de uma maison como a Dior, seu questionamento tem sido em torno de como conciliar as exigências da criação entre o que permanece e o que muda, como aprofundar e redefinir os fundamentos e a essência da marca.

É uma tarefa que a desafia desde a primeira coleção e que evoluiu para o approach com a simplicidade a partir da couture inverno 2019/20, inspirada na exposição “Are Clothes Modern?”, apresentada no MoMA, em 1944, sob direção de Bernard Rudofsky. Esse posicionamento chega amadurecido ao prêt-à-porter inverno 2020/21, com peças dialogando diretamente com os códigos da maison.

Para fugir da armadilha do resgate literal, Maria Grazia optou por unir saberes franceses e italianos, revelando suas especificidades e ressaltando características em comum.

Processo criativo

Foto: Sophie Carre

“Quando começo um projeto, sempre procuro equilíbrio entre criação e savoir-faire. É uma busca ilimitada, por isso sempre crio uma espécie de ‘ factory’, para aprofundarmos os estudos sobre técnicas e materiais”, diz ela, que, por causa da pandemia, refugiou-se no apartamento da família, no centro histórico de Roma, com a filha Rachele Regini, que é consultora cultural no departamento de Estilo da Dior. Inspirador, o imóvel tem vista para um jardim de laranjeiras onde freiras de um claustro caminham e meditam.

Segundo ela, no repertório rico de valores culturais da moda, o savoir-faire é parte fundamental, porque une processos e técnicas, além de materiais e formas. “Os diversos tecidos que pontuam esta coleção, sejam clássicos ou experimentais, são ornamentados com cores e estampas dentro do espírito da Dior”, comenta.

Foto: Sophie Carre

Nesse mix entram lã e cashmere inspiradas no guarda-roupa masculino, ottoman, xadrezes oversized, sedas etéreas e tule branco adornados com bolinhas pretas delicadas e motivos geométricos com listra e xadrez.

Sem abandonar os elementos originais, sua nova versão da jaqueta Bar vai do uniforme ao objeto de desejo atual. “Quis redefinir essa dimensão atemporal, mas com uma sensibilidade contemporânea”, explica. Além da peça icônica, o inverno 2020/21 reúne dois outros importantes códigos da Dior: vestidos com formas arquitetônicas e saias volumosas combinadas com bodies estruturados. “Quis reinterpretá-los como símbolos de uma nova feminilidade, que é consciente e inclusiva”, analisa.

Foto: Sophie Carre

Ela diz que códigos surgiram desse desejo e passaram a povoar seu glossário, como culotes, kilt, saia-lápis, anorak, peacoat, casaco e trench coat. “São elementos mix-and-match, que formam blocos de construção para um guarda-roupa versátil e durável”, reforça.

De acordo com a diretora criativa, esse processo a levou a refletir sobre a moda, seu significado cultural e o papel no cotidiano das mulheres. É por esse motivo que classifica as peças da nova coleção como o resultado de um estudo conceitual e a representação da essência atemporal da moda. “É uma conquista importante, mas, acima de tudo, uma maior conscientização.”

Foto: Sophie Carre

Ao mesmo tempo, responde a um dilema atual: como reconciliar tradição e busca por novidade, levando em consideração os desafios de despertar o desejo e seguir caminhos sustentáveis. “Estou sempre me questionando sobre o que posso e devo fazer sobre isso.” Para tanto, diz se inspirar especialmente em uma frase de monsieur Dior: “Respeite a tradição, mas ouse ser insolente”.