Mateus Cardoso faz alfaiataria street e sem gênero

Estilista estreia nesta sexta-feira (29.11) no line-up oficial da Casa de Criadores

by redação bazaar
Foto: Agência Fotosite

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Por Eduardo Viveiros

Bastaram dez looks em um desfile para colocar o nome de Mateus Cardoso no radar. O estilista de 22 anos, ganhador do primeiro concurso feito em parceria do movimento Sou de Algodão com a Casa de Criadores, começou sua carreira com uma coleção de alfaiataria street, mesclando camisas de mangas amplas com shorts esportivos e costumes com recortes nada caretas.

O prêmio foi o ápice de um processo que começou há quatro anos, quando o rapaz chegou a São Paulo vindo de uma realidade interiorana em Monte Belo, no sul de Minas Gerais, onde morava com a família em um sítio. Caçula de uma linha de sete irmãos, foi o único que largou o tradicional trabalho de café do clã para experimentar novas paragens.

Foto: Divulgação

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Da ideia adolescente de ser piloto de avião, pousou na capital paulista para estudar moda com um conhecimento, digamos, modesto sobre o assunto. “Eu não sabia literalmente nada, não tinha referência alguma. Não sabia nem o que ia ter de aula”, relembra. Diferentemente de muitos dos colegas que já desenhavam croquis na infância e chegaram à sala querendo ser o próximo Alexander McQueen, Mateus construiu sua identidade de moda à base do tratamento intensivo.

Foto: Divulgação

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Em paralelo às aulas, mergulhou no universo da moda e em cursos para entender a técnica do novo ofício. Foi quando se descobriu um apaixonado pela construção das roupas e foi incentivado a se especializar em alfaiataria masculina, talvez o metiê mais rigoroso do corte-e-costura.

Como fazer isso sem conhecer ninguém na cidade? Nada que um legítimo menino da geração Z não resolva. “Abri o Google e busquei os alfaiates da cidade. Saí batendo de porta em porta, pedindo uma oportunidade para ficar lá como aprendiz. A maioria nem me deu oi direito, eram velhinhos superconservadores que não me queriam por perto. Até que encontrei um que se empolgou com a ideia”, conta.

Foto: Divulgação

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Essa alfaiataria feita à mão foi o que norteou seu desfile e se tornou seu grande caminho. “Gosto muito de resgatar coisas boas do passado. Entender o que foi bom e que dura até hoje, para dar continuidade a essa história.” Do desenvolvimento desses caminhos tradicionais é que surge sua moda, pensada para um público masculino, mas que, como manda 2019, não precisa se fiar a gêneros para ser boa.

Tanto que Mateus aproveita seu trabalho para discutir questões tão necessárias como as barreiras de gênero. Agora, enquanto se debruça sobre seu trabalho de conclusão de curso, desmonta aspectos da masculinidade pelos processos da costura à mão – deixando muito das peças ainda em construção, com pespontos e fios à mostra no acabamento.

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É também o mote da coleção que apresenta este mês como estreante do line-up oficial da Casa de Criadores, vaga conquistada a partir do concurso. Sua criação, afastada de temas específicos, fica por conta do desenvolvimento de processos. “Estou fazendo um estudo de modelagem em cima de peças para chegar a novas formas.Desta vez, peguei vários blazers de brechó e trabalhei a construção de formas no manequim para, depois, desenhar em cima desses resultados.”

A ideia, também, é aproveitar o primeiro desfile oficial para botar sua marca em andamento e atender a clientela de homens e mulheres que não puderam comprar nada da coleção premiada, já que o estilista tinha ainda uma faculdade a terminar. Controlador, Mateus faz questão de manter tudo sob suas mãos e não tem o menor interesse em trabalhar como estilista de outra empresa.

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Quer mais é construir sua história por conta, definindo-se bem pé no chão. Tanto que se espelha em Dries van Noten, um de seus ídolos. “Temos estéticas diferentes, mas me identifiquei demais com seu modo de trabalhar e organizar tudo.”

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