Memória afetiva na moda: o retorno dos tricôs às passarelas
Gucci – Foto: Divulgação

Por Jorge Wakabara

Você tem uma vitrola? Sim, é isso mesmo que você está lendo em pleno 2021: vitrola. No ano passado, as vendas de vinil ultrapassaram as de CD. Esse é um mercado nichado, mas que conta com toques deste século: clubes de assinatura (você faz pagamentos recorrentes e recebe discos entre lançamentos e preciosidades fora do catálogo) e colecionadores que não têm um toca-discos, mas compram simplesmente para ter o objeto físico em tempos de streaming! E, muitas vezes, para revender: tem vinil que esgota e vira artigo de luxo pela raridade, com preço na faixa dos quatro dígitos.

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Essa tendência já vem sendo observada há alguns anos, mas se acumula entre outras reverências nostálgicas que pintam na “pandemia que não termina”. O resgate da culinária caseira em tempos de home office, pessoas buscando por TV de tubo de segunda mão na internet, pois sentem saudade de jogar videogames clássicos (do tipo Super Nintendo e Mega Drive) nela. A volta de séries queridas, como “Friends” (em um só episódio especial de reunião do elenco em clima de festinha da turma do ginásio), “Um Maluco no Pedaço” (que ganhou pegada dramática que não funcionou bem) e “Punky, a Levada da Breca” (que, bem, sempre foi aquela série carismática que não exigia muito da nossa atenção e segue assim). Isso pode indicar uma falta de criatividade ou coragem para investir em ideias novas da parte dos conglomerados de comunicação, mas também prova o apelo gigante da memória afetiva.

O professor do departamento de psicologia social da PUC-SP, Helio Roberto Deliberador, aponta que o distanciamento social da pandemia é um catalisador da nostalgia reinante: “E também é uma sublimação do stress pelo qual estamos todos passando. Quando o contato social ocasionalmente acontece, tem um revival, uma intensificação da proximidade afetiva.”

Ele acredita que esse sentimento pode diminuir quando as relações sociais e os encontros forem retomados: “Você pode perceber que quando a pessoa toma a vacina, ela tem uma resposta emocional muito forte. É a falta do abraço, da sociabilidade humana básica, que é um tempero da vida.”

Enquanto o abraço não vem, qual é a roupa ideal para você se esquentar nesse clima retrô? Ele mesmo: o tricô. Com cara de presente da avó ou supertecnológico, tem o toque da lã e uma estética que corresponde a essa onda saudosista. Escolas de tricô viram mais pessoas procurando as suas versões virtuais – isolados que querem um passatempo.

E mais importante: nas passarelas e vitrines, ele é uma das bolas da vez. Até as expressões “fazer tricô” ou “tricotar” voltaram a ser usadas como sinônimo de conversa ou fofoca. Quer símbolo mais social que isso?

Memória afetiva na moda: o retorno dos tricôs às passarelas
Chloé – Foto: Divulgação

O tricô vem, por exemplo, em listras coloridonas terminando em franja no resort 2022 da Chloé de Gabriela Hearst – a diretora criativa já revelou que se atrai por essa pegada handmade. O vestido tubo chega com aquela linha de emenda que sobra no meio do tricô, geralmente escondida por dentro dos outros pontos, agora bem exibida. Por cima, um mantocasaco felpudão traz ainda mais textura.

Vimos quase o mesmo efeito grunge no inverno 2021 da MM6 Maison Margiela. Aliás, uma das grandes referências fashion desse tricô do momento é o grunge, com sua cara de segunda mão. Vale brechó ou roubar aquele que a avó (olha ela aí de novo!) não usa mais.

Memória afetiva na moda: o retorno dos tricôs às passarelas
Ulla Johnson – Foto: Getty Images

Já o tricô da Gucci, parte da coleção comemorativa de 100 anos da marca, tem gola em V e zíper nas mangas, deixando-o diferentão. Cheio de relevo por causa de diferentes pontos, tem trança, corrente…Na Ulla Johnson ele é ainda mais caprichado, com bolas 3D, punho e gola canelados, longo até a canela, daqueles que já fazem um look sozinhos!

Memória afetiva na moda: o retorno dos tricôs às passarelas
Gabriela Hearst e Vivienne Westwood – Fotos: Getty Images e Divulgação

Outra que também capricha nos pontos com relevos: a mesma Gabriela Hearst, dessa vez no inverno 2021 da sua marca própria. Vertente ainda mais nostálgica é o tricô com padronagem formando listras geométricas – caso da blusona do inverno 2021 de Vivienne Westwood.

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Junya Watanabe – Fotos: Divulgação

Em Junya Watanabe, a gente encontra o tradicional lopapeysa, tricô islandês com desenhos circulando a gola e descendo até o fim do peito, em versão divertida com logo da banda Aerosmith. Na Paco Rabanne, a blusa de manga morcego à moda lopapeysa forma belo par com parte de baixo mais levinha. A caminho do postinho para receber sua vacina, o importante é não pegar friagem por falta de tendência: siga o conselho da sua mãe e coloque a blusa de tricô!