Por Luigi Torre

Milão é a nova é Paris” é o jargão fashion da vez. Por lá, só se falava nisso. Editores, stylists, jornalistas, compradores e estilistas diziam ser a renascença italiana. E, de fato, a indústria local e sua semana de moda mais importante passam por um dos seus melhores momentos em anos. Antes conhecida pela presença algo opressora dos gigantes (Armani, Fendi, Versace, Cavalli, Gucci), a fashion week vive tempos de bem-vinda efervescência criativa com a ascensão de jovens talentos e toda uma nova maneira de enxergar, pensar e fazer moda.

Muito se atribui esse momento de renovação à chegada de Alessandro Michele na Gucci. Há pouco mais de um ano no posto de diretor de criação, o estilista se provou um dos mais influentes da atualidade. Sua moda vintage, geek-chic e maximalista tomou conta do street style mundial e se fez presente em diversas outras passarelas. Mais do que isso, seu próprio processo criativo se tornou algo quase que mandatório na indústria. Sinais dos tempos mesmo. Composto pelo acúmulo, clash e combinação aleatória de elementos e referências díspares, se conecta diretamente com o modus operandi (e pensante) de toda uma nova geração. Geração, diga-se de passagem, mais influenciada por seus amigos e o que se usa nas ruas, do que só pelas passarelas, tapetes vermelhos e capas de revistas retocadas à perfeição irreal. Repercussão e engajamento máximo.

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Colagens foram recorrentes durante a semana de moda milanesa. Apareceu na Pucci, em combinações de roupas de esqui dos anos 1960, com estampas psicodélicas, recortes gráficos e as formas oversized (com as já ubíquas mangas alongadas) do estilo de rua. Massimiliano Giornetti, numa de suas melhores coleções para Salvatore Ferragamo, também falou sobre elas, misturando linhas retas, plissados e alfaiataria relaxada (ainda que supercontrolada) com uma profusão de listras coloridas. Mas foi Miuccia Prada quem apresentou a versão mais convincente e emocional sobre o tema. Ao sobrepor (recurso de styling importante nessa temporada) referências de várias décadas, de suas coleções passadas e mais um tanto de elementos que compõe seu repertório criativo, falou da importância de memória na construção do novo, de maneira crítica e sob ponto de vista 100% feminista.

Essa nova linha de pensamento, contudo, não é exclusiva da moda. Na verdade, é reflexo das mudanças sociais, políticas e econômicas que vem acontecendo no país desde a posse do atual primeiro-ministro Matteo Renzi, em fevereiro de 2014. A mais recente delas e em plena fashion week, foi a aprovação da lei que reconhece a união entre pessoas do mesmo sexo – projeto encabeçado por Monica Cirinnà, senadora do partido democrático e aplaudido por Maria Elena Boschi, ministra de reformas constitucionais e membro do gabinete de Renzi. Gabinete, aliás, que trata da paridade entre gêneros bem antes do assunto ganhar repercussão na grande mídia.

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Feminismo está em alta (ainda bem) e a nova visão sobre o que as mulheres desejam no guarda-roupa e sobre os próprios corpos também influenciou algumas das melhores coleções em Milão. Tomas Maier, na Bottega Veneta, é um dos melhores exemplos. Depois de algumas temporadas um tanto obcecado pela temática esportiva, o diretor de criação retorna aos valores mais essenciais desta casa (e do luxo como um todo): a experiencia única e pessoal que só quem veste aquela peça pode sentir. Sim, tem a ver com a superqualidade dos couros, cashmeres e tricôs, que assumem papel primordial nessa coleção. Porém, mais do que isso, tem a ver com o sentimento de segurança transmitido por meio do conforto, sem que isso queria dizer casualidade. É que os grandes destaques de seu inverno 2016 foram justamente os ternos e casacos de alfaiataria, levemente influenciados pelos anos 1940 (década importante para a estação). Com silhueta alongada e formas amplas na medida exata, falam de suavidade e poder de maneira que se tornam desejos absolutos para mulheres que precisam comandar mesas de reunião.

O mesmo vale para os looks que abrem o desfile da Jil Sander, hoje sob comando de Rodolfo Paglialunga. Reinterpretação fiel do rigor e praticidade que fizeram dos ternos da estilista alemã verdadeira obsessão do fashion e uma das mentes mais criativas do mundo corporativo uns 20 anos atrás. Mas agora, com a delicadeza e sutileza que mulher alguma quer abrir mão.