Celine - Foto: Divulgação
Celine – Foto: Divulgação

A minissaia já era um símbolo de liberação quando o movimento feminista ganhou força, no final dos anos 1960. Apesar de sua autoria ser alvo de dúvida entre Courrèges e Mary Quant – com vantagem para a inglesinha -, a peça feita com apenas alguns centímetros de pano virou a cara do Swinging London, conquistou o closet de it girls da época, como Marianne Faithful e Patti Boyd, ganhou a passarela do jovem Yves Saint-Laurent e agitou a porta do desfile de Dior, em 1966, na manifestação comandada pela British Society for the Protection of Mini Skirt.

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Yves Saint Laurent - Foto: Divulgação
Yves Saint Laurent – Foto: Divulgação

Esse mesmo caráter revolucionário e transgressor enche de significado o super retorno da peça. No comprimento clássico – 20 centímetros acima dos joelhos -, mas quase sempre micro, tanto resgata a luta feminista do passado quanto contribui para apimentar a discussão atual em torno do comportamento e do corpo feminino.

Chanel - Foto: Divulgação
Chanel – Foto: Divulgação

Por um lado, é considerada pièce de résistance na evolução do pensamento de que a mulher deve exercer o poder de se vestir do jeito que quiser, inclusive de maneira sexy. Por outro, é vista como parte dos recursos, como decotes e transparências, que contribuem para inflar uma imagem hiper-sexualizada da mulher.

São pontos de vista polarizados que atingiram o verão 2019 do diretor criativo Anthony Vaccarello – famoso pela pegada sexy pop – para a Saint Laurent, cujas modelos atravessaram o espelho d’água na praça do Trocadero, tendo ao fundo a majestosa torre Eiffel.

Courrèges - Foto: Divulgação
Courrèges – Foto: Divulgação

Em uma dessas coincidências, que mais parecem obra do destino, na mesma noite as francesas comemoravam uma nova lei que permitiu condenar um homem que deu um tapa nas nádegas de uma jovem de 21 anos em um ônibus e, as norte-americanas, a prisão do comediante Bill Cosby – sem dúvida, duas vitórias do movimento #MeToo, que, em um ano, já mudou a cabeça de muita gente em relação a assédio sexual e estupro, ainda que o quadro mundial esteja longe de ser perfeito.

Ao levar o debate sobre o cerceamento da liberdade feminina para a passarela, a moda contribui para amplificar a mensagem por meio da roupa, justamente um dos pontos de tensão da luta pelo direito de vestir o próprio corpo do jeito que cada uma quiser, sem o temor de ser violentada por suas escolhas.

Isabel Marant - Foto: Divulgação
Isabel Marant – Foto: Divulgação

Reivindicação, aliás, que já ecoava nos anos 1970 sob slogans como “meu corpo, minhas regras” e que acabou por desencadear outros momentos importantes da atual luta feminista: a Marcha das Vadias em 2011, a #primaveradasmulheres em 2015 e, por aqui, a #chegadefiufiu em 2013, do projeto Think Olga.

Mesmo sem linkar diretamente o comprimento da saia com questões feministas, o fato de várias marcas reforçarem a tendência contribui para elevar o tom do debate de que a moda não somente é reflexo da sociedade como ajuda a envergar bandeiras.

Versace - Foto: Divulgação
Versace – Foto: Divulgação

Comparações com a Saint Laurent à parte, o visual sexy que Hedi Slimane injetou na Celine apimenta indiretamente o debate em torno do pertencimento do corpo feminino. Entre rebeldia e hedonismo, a estilista Isabel Marant deu às suas microssaias tempero disco para garotas brilharem nas baladas mais fervidas do planeta, enquanto Karl Lagerfeld encurtou a saia do tradicional tailleur Chanel.

Prada - Foto: Divulgação
Prada – Foto: Divulgação

Yolanda Zobel, nova diretora criativa da Courèges, estreou endereçando à geração Z o item icônico na marca francesa. E Miuccia Prada, que depois de muito tempo voltada para o mídi polarizou comprimentos entre míni e maxi na coleção do Resort 2019, finalmente optou pela versão mais curta para recordar, sem obviedade, os anos 1960 e ressaltar que cobrir simplesmente o corpo é um processo bem diferente do que abraçar a moda como autoexpressão.

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