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Por Jorge Wakabara

Lista dos prazeres dos quais nos privamos por um bom tempo: dar aquela voltinha para conferir as últimas novidades de moda, tomar um café no meio do caminho, descobrir “aquela portinha pela qual você não dá nada”, e que guarda um lugar incrível. A venda online cresceu mais do que nunca, impulsionada pela pandemia e pelo isolamento social, acelerando um processo de digitalização da compra que já era inevitável. Mas esse mesmo isolamento teve um efeito inverso: no momento, as pessoas estão com sede de, simplesmente, passear.

Como uma resposta, marcas autorais começam a ressaltar a importância de um espaço físico para as suas criações. Em grande parte, é uma nova geração descobrindo o prazer de um contato mais direto com a clientela e do oferecimento de uma experiência rica de compra. Algumas optaram pelos Jardins ou pelo centro, em São Paulo, para inaugurar um endereço (como a ALUF, na Consolação), mas chama a atenção o foco recente em um trecho da pacata rua Mateus Grou, no bairro de Pinheiros.

Numa questão de meses, ele passou a concentrar os pontos de venda de diversos criadores: de Neriage e Helô Faria às botas da Corcel e aos acessórios de Karin Reiter e Luiza Dias 111, passando por veteranos como Mareu Nitschke e Plural (que dividem um amplo espaço), e por naturais de outros estados como a Reptilia, do Paraná, e a recém-chegada Greta, de Florianópolis. Isaac Silva, que já tem uma loja na Santa Cecília, também é o dono de uma das portas recém-abertas: “É muito bom saber que a gente vai fomentar uma rua, trazendo nossa moda brasileira para um bairro tão legal e tão querido. A Mateus Grou está em um novo momento e junta gastronomia, arquitetura, arte, decoração, salão de beleza…” Os planos iniciais de Isaac eram outros: ele mirava em novas cidades (Rio de Janeiro e Salvador) como próximos endereços, mas tudo mudou com a pandemia. “Agora uma parte da clientela não vai mais para o centro de São Paulo e eu quero atender da melhor maneira, levando esse axé mais para perto das clientes dessa região”, explica.

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Entre todas as casas, uma particularmente chama a atenção. É a Laundry, que completa 18 anos em 2021. “Isso é muito para uma marca alternativa e independente”, a estilista Patricia Grejanin pontua, “e a nossa venda física sempre foi significativa. Só agora que ela começa a dividir ‘pau a pau’ com a venda digital, sendo que temos site há muitos anos. Adoro ter loja, ela consegue traduzir muito o conceito da marca. Sempre encarei como um lugar ‘sagrado’, muito antes do conceito de flagship ser difundido”. Maria Fernanda Sodré, da A Mafalda, faz coro: “O espaço físico traz credibilidade e posicionamento. É possível mostrar um pouco do que acredito ser o universo da marca.” Ela também lembra que, no caso da A Mafalda, que é de calçados, a clientela consegue experimentar vários modelos “e conta com a nossa equipe de vendas para auxiliar na busca pelos melhores para cada tipo de pé”.

Mas será que a escolha desse trecho da Mateus Grou, que vai do número 500 até a esquina com a Cardeal Arcoverde, foi apenas uma feliz coincidência para tantas lojas? Mais ou menos… Airon Martin, o nome por trás da Misci, convenceu grande parte desses amigos a abrirem ali ou se mudarem para o local: “Fiz de tudo para isso acontecer. É uma zona alternativa à Oscar Freire, um outro lugar onde as pessoas podem conhecer moda autoral. Estou muito feliz com esse início de movimento.” Ah, e tem lugar para tomar um cafezinho, viu? É o Dois Trópicos, que fica do lado da Misci. Aliás, atrás da Misci (literalmente, é só atravessar a loja) tem o Varal, novo point de drinques. E mais para o lado, tem o Chou, o Suri Ceviche… Vai por nós: Mateus Grou é o melhor lugar para voltar a bater perna em São Paulo!