A plateia quase virtual dos desfiles
A plateia quase virtual dos desfiles

Nessa segunda-feira (07.03), foi anunciado que Animale e Cavalera estão fora da próxima edição do SPFW, que acontece em Abril. O motivo é o mesmo: aderir ao “See Now, Buy Now”, movimento que garante que os consumidores tenham acesso às peças desfiladas minutos após o fim da apresentação. No texto abaixo, nosso editor de moda, Luigi Torre, explica esse momento da moda. 

Começou com a Burberry, depois veio Tom Ford, seguido por Tommy Hilfiger, Vetements, Diane von Furstenberg, Ralph Lauren e tantos outros. Em comum, a insatisfação com o atual sistema da moda, em que as roupas são apresentadas até seis meses antes de chegarem às lojas. Apresentadas, postadas, visualizadas e fotografadas. À exaustão, diga-se de passagem. O resultado, segundo eles, é a fadiga de produtos. Quando, finalmente, estão à venda, aquelas saias, jaquetas, vestidos e blusas já parecem velhos. Como solução, apostam em eventos desconectados das atuais semanas de moda, em que o que se vê na passarela pode ser consumido imediatamente online e off-line. Ideia que está abalando as estruturas de toda a indústria.

“Num mundo que se tornou cada vez mais imediato, a ideia de apresentar uma coleção meses antes de estar disponível para consumidores é antiquada e não pode mais existir”, disse Tom Ford, em comunicado oficial. Em fevereiro, o estilista desistiu de mostrar seu inverno 2016 na semana de moda de Nova York, para fazer um desfile, em setembro, quando as roupas já estarão à venda. Antes dele, Christopher Bailey, CEO e diretor de criação da Burberry, foi ainda mais ousado: a partir da próxima temporada, vai unir masculino e feminino num evento semestral, e os produtos estarão disponíveis para os consumidores imediatamente após a apresentação. As coleções, no caso, não terão estação definida. Serão chamadas de “Setembro” e “Fevereiro”, meses em que serão apresentadas. Enquanto isso, a Vetements (que ainda depende exclusivamente de multimarcas para comercializar seus produtos), trocou as fashion weeks por pequenos eventos em junho e janeiro, quando acontecem as apresentações (e compras) de resort e pre-fall.

Leia mais: estilistas comentam as mudanças no calendário do SPFW

Final do desfile da Rodarte na NYFW - Foto: Getty Images
Final do desfile da Rodarte na NYFW – Foto: Getty Images

Moda, via de regra, é essencialmente sobre o novo. Mas a verdade é que esta é uma indústria bastante avessa a inovações e rupturas. O pensamento por trás das apresentações e entregas pouco difere daquele aplicado quando telefones celulares eram objetos de filmes de ficção científica. Reclamações sobres os efeitos do atual sistema em seus profissionais – trabalho demais e criatividade de menos, produtos demais, desejos reais de menos – não são novidade. Mas os ventos de mudança de agora tem outra origem: interesse financeiro.

A menina dos olhos de muitas marcas (Twitter, Instagram, Facebook e Snapchat), estragou o cliente. Ninguém mais quer esperar meses para consumir algo que acaba de curtir. Na verdade, todo o recente foco em digital se baseia nas mudanças de comportamento do consumidor. Entre 2009 e 2014, para se ter uma ideia, as vendas online cresceram quatro vezes mais do que as em lojas físicas. Aliás, quase todo o crescimento do segmento de luxo, nos últimos anos, veio do e-commerce. Mais ainda, segundo a consultoria McKinsey & Company, três quartos de todo o consumo de luxo, mesmo em lojas físicas, é influenciado por tudo que os consumidores fazem e veem online.

Natural a moda pedir mudanças. A internet reescreveu o manual de relacionamento entre empresas, mídia e consumidores. É o que a Boston Consulting Group está dizendo para o Council of Fashion Designers of America. Contratada pelo CFDA em dezembro, a consultoria é uma das principais responsáveis pelos planos de mudar as datas da NYFW para perto da chegada das coleções às lojas. Para isso, porém, precisa do engajamento de toda a cadeia de produção. O que funciona para uma grande marca, com lojas próprias e produção em larga escala, não se aplica às menores. Estas dependem das compras de multimarcas para produzir o que mostram, o que dificulta a apresentação com pronta-entrega para o cliente e dá mais poder para o comprador do que para o estilista – na prática só seria apresentado para os clientes o que as lojas adquirirem previamente.

Mas essas não são as únicas questões. Talvez, nem as mais importantes. O consumidor está disposto a pagar o preço cheio pelas roupas ou prefere esperar até que elas entrem em liquidação, meses depois? Querem comprar imediatamente a peça assinada pelo estilista estrelado e com reais qualidades de design ou encontrar semelhante apenas algumas semanas depois numa rede de fast fashion?

Respostas absolutas inexistem. Mas se há algo que se aplica às perguntas acima é o fato de que se a peça em questão for realmente desejável, daquelas que causam suspiro e falam mais pela emoção do que pelo material, nada fará muita diferença. Mais do que quando e como entregar, a real preocupação deveria ser o que entregar. No caso, roupas pelas quais realmente nos apaixonamos. Por estas, bem sabemos, movemos montanhas. Mas para isso, é preciso tempo e dedicação extra. Mas isso já é outra discussão.