Nina Vladimirschi usacasaco Yves Saint Laurent - Foto: Marina Fragoso Senra/ Harper's Bazaar
Nina Vladimirschi usa
casaco Yves Saint Laurent – Foto: Marina Fragoso Senra/ Harper’s Bazaar

Por Nina Vladimirschi

Você conseguiria viver sem sapatilhas, mocassins ou (preencha aqui com seu sapato de todo dia)? Eu não consigo viver sem mules. Lembro-me até hoje do primeiro modelo que comprei, um Manolo Blahnik de cetim vermelho. Era início dos anos 1990, eu estava em Nova York. De volta ao Brasil, ou melhor, aos corredores da Daslu, onde eu gerenciava o espaço da Gucci, de repente, todas as prateleiras da loja foram dominadas por elas. Dolce & Gabbana, Prada, Sergio Rossi, Chanel… Cada marca tinha dezenas de mules à venda. Eram o retrato das dasluzetes: glamorosas, elegantes, impecáveis.

Eliana só permitia que usássemos peças que ainda estivessem à venda na loja – não que eu precisasse de uma desculpa para por a fogo meu desconto para funcionárias. Em todos os anos por lá, nunca vi meu salário cair inteiro na conta. Boa parte da culpa era das mules. Na época, elas recheavam mais da metade do meu closet. Dos preferidos, cheguei a comprar dois iguais.

Os anos 2000 chegaram, as meias-patas e sapatilhas invadiram as ruas, e a mule, de repente, foi condenada ao limbo – o que teria sido de Carrie Bradshaw sem elas, meu Deus? Nunca mais tinha encontrado um modelo sequer para comprar. Segui usando cada par que tinha, até eles se desfazerem por conta da idade. Confesso que minhas amigas aposentaram as suas. Mas eu segui firme.

1 - Altuzarra; 2 - Rochas; 3 - Casadei; 4 - Gianvito Rossi - Fotos: divulgação
1 – Altuzarra; 2 – Rochas; 3 – Casadei; 4 – Gianvito Rossi – Fotos: divulgação

Há um ano e meio, ao olhar o desfile de verão 2012 da Louis Vuitton, meu coração bateu mais forte. Não foram os vestidos adocicados que me tiraram o sono, mas, sim, as mules de biqueira metálica usadas pelas modelos. Estava com viagem marcada para Nova York e não via a hora de colocá-las nos pés. Na loja, amargamente, cheguei à conclusão de que eram altas demais para mim, afinal, já não tenho mais 20 anos. Voltei para o hotel com um escarpim Prada – naquele momento, um mero prêmio de consolação.

As mules que invadiram o verão 2014 internacional são bem diferentes dos nossos modelos dos anos 1990. Grande parte, como os da Céline e Altuzarra, tem cabedal bem mais fechado. Várias ganharam saltos anabelas – impensável naquela época! Ainda não vejo praticamente ninguém usando nas ruas, mas vou torcer para chegarem logo às lojas! Quem condena a mule nunca experimentou uma: as pernas ficam incríveis em cima de um par!

No auge de sua existência, as mules serviam para qualquer ocasião. Um almoço? Calça cigarrete com mule. Uma festa black tie? Vestido longo com mule. Viagem de avião? Legging com mule. Elas eram nosso uniforme. Uma vez, enquando eu e uma amiga, Carla Maldi Motta, embarcávamos para Boca Raton com as crianças, nos vimos no aeroporto exatamente com o mesmo look: legging preta, camiseta branca, jaqueta jeans e uma bolsa de palha Dolce & Gabbana. Nos pés, as mesmíssimas mules de oncinha, também da marca italiana. Na porta do avião, o comissário de bordo nos analisou da cabeça aos pés. “Uau, que mules!” foi tudo o que ele conseguiu exclamar.

Em julho passado, estava em Miami e quase não acreditei quando vi, na Saks, uma prateleira dedicada a mules Louboutin. Entre as duas cores disponíveis, escolhi a turquesa. Usei já na mesma noite e, desde então, não as tiro mais dos pés. Ai, se arrependimento matasse… Como queria ter trazido também a preta!