Foto: Fernanda Candido

Ela é talentosa, bonita e dona de papéis em 17 longas-metragens, fora o que já fez em outras plataformas. Muito, para quem não fez o mesmo, mas para a atriz Mariana Nunes é pouco, porque ela quer mais, muito mais. Presença forte no cinema e no teatro, ela está com o papel da médica Joana, em “Quantos Mais Vida, Melhor!”, trama das 19 da TV Globo, onde contracena diretamente com Matheus Solano, o Dr. Guilherme, e por quem nutre uma paixão, mas que ela diz não acreditar que vai render algo, será? Bem, ela é uma mulher do teatro, atriz e bailarina, curso que fez em Brasília, cidade onde nasceu, e depois foi para a Oficina de Atores da Globo. 

Envolvida com seus trabalhos, ela diz que seu papel mais importante ou de destaque é o que ela está vivendo no momento. Quanto sua arte-mãe, o cinema, ela diz que não o escolheu, mas que foi escolhida. “Isso tem um lado muito bom porque me sinto mais madura para o mercado da TV e foi no cinema que ganhei essa maturidade.” Para sua personagem em “Quanto Mais Vida, Melhor!”, a médica Joana, ela conta que se inspirou em uma pessoa da família. “Na minha madrinha, Jovina Flávia, que é uma profissional da saúde. Ela é dentista e trabalhou durante muito tempo tanto no serviço público como em clínicas particulares. São inúmeras as situações e atravessamentos que uma mulher negra que ocupa uma profissão tão respeitada na área da saúde (como médica ou dentista) passa ao longo da construção de uma carreira sólida.”

Foto: Fernanda Candido

Feminista nata, encara o tema com seriedade. “Primeiro é importante lembrar que o feminismo se apresenta de formas diferentes para mulheres negras, mulheres não negras e mulheres brancas. Mas falando do feminismo como ele é superficialmente entendido (ou não), acho que uma mulher que, hoje em dia, não se considera feminista, talvez não saiba ao certo do que se trata o tema.” Quanto à causa antirracista, ela também é categórica. “Infelizmente é nítido que nem todas as feministas não negras têm um bom entendimento sobre o que é ser antirracista”, avalia. 

Leia a seguir a entrevista que Mariana concedeu à Bazaar.

Voltando lá atrás, como você vira atriz? Ou seja, como tudo começou?

Comecei no teatro. Na verdade, a primeira vez em que subi no palco, ainda criança, foi numa apresentação de balé clássico. Dancei balé até os 18 anos, depois entrei na faculdade de artes Dulcina de Moraes, em Brasília, cidade onde nasci e, desde então, não parei mais. Em Brasília fiz alguns curtas, muitas peças no teatro profissional e ainda estava na faculdade quando fiz a Oficina de Atores da Globo. A partir dessa oficina fiz parte do elenco de apoio da novela “Mulheres Apaixonadas”. Em 2007 fiz meu primeiro longa-metragem, “O Homem Mau Dorme Bem”. Desde então foram muito filmes e alguns trabalhos na TV.

Foto: Fernanda Candido

Quais foram os papéis mais marcantes da sua carreira?

Costumo dizer que o personagem mais marcante da minha carreira é o que estou vivendo no momento porque sempre fico muito envolvida com meus trabalhos. Envolvida até demais (risos). Atualmente estou dividida entre dois personagens: um é bem recente e ainda não posso falar sobre, e o outro é a própria Dra. Joana que, apesar da novela já estar toda gravada, está sendo muito excitante acompanhar com o público a exibição na TV aberta. Mesmo conhecendo a trama, para mim está sendo impossível não me engajar, ficar feliz ou me frustrar com o que vejo, porque pra mim ainda é uma surpresa grande acompanhar o que acontece com a Joana. Poderia citar muitos outros personagens, mas não quero ser injusta ao esquecer de algum tão importante quanto outro que não tenha sido citado.

Você participou de 17 longas-metragens, como o cinema se insere na sua trajetória?

O cinema me escolheu. Sempre quis fazer televisão, mas essa linguagem foi a última a chegar na minha carreira. Isso tem um lado muito bom porque me sinto mais madura para o mercado da TV e foi no cinema que ganhei essa maturidade. Foram alguns filmes com diferentes diretores, algumas diretoras, muitos personagens, muitas histórias e muitos desafios. Como atriz, você lida com muitas ideias que precisam do seu corpo para que possam sair do papel e existir como imagem e isso, se você não estiver trabalhando com pessoas responsáveis, pode te machucar. Acho que posso falar que sou de uma época onde o racismo e o machismo eram mais ostensivos e menos debatidos no cinema e isso, quando não mata sua subjetividade, te deixa mais forte. Hoje me sinto mais forte dentro dos projetos. Sinto que temos conquistado melhores espaços e condições para exercer nosso ofício da atuação, que é algo tão sensível.

Foto: Fernanda Candido

E como foi ter participações em filmes internacionais?

Foram experiências riquíssimas, porém bem distintas entre si. A primeira produção internacional da qual participei foi “Pelé: The Birth of The Legend”, dirigida por Mike e Jeff Zimbalist. Esse filme conta a história do jogador de futebol Pelé e, apesar de ter sido filmado no Brasil, foi todo falado em inglês e tinha uma equipe mista entre brasileiros e americanos. Outra produção internacional foi “São Jorge”, dirigida por Marco Martins e filmada em Portugal, onde passei três meses. Foi uma experiência muito nova filmar fora do Brasil e com uma equipe bem reduzida, diferente das outras produções das quais já havia participado. Com esse filme fomos para o Festival de Veneza, onde ocorreu sua estreia. No mesmo ano em que filmei “São Jorge” em Portugal, também rodei “Zama”, da diretora Lucrécia Martel, na Argentina.

Como surgiu o convite para “Quanto Mais Vida, Melhor!”?

No início de 2019 me chamaram para fazer um teste às vésperas de uma viagem para o Festival de Cinema de Roterdan, onde estreamos o longa “A Morte Habita a Noite”. Na mesma semana, meu pai havia sofrido um acidente e precisaria operar. Lembro que foi uma correria danada, tive que deixar a cachorra no hotel, depois passar nos Estúdios Globo para fazer o teste, ir pra Brasília para ver meu pai, retornar para o Rio e viajar para o festival na Holanda. Eu ainda estava fora do País quando veio o convite para “Amor de Mãe”. Voltei para o Brasil e fui praticamente direto para a prova de figurino e para a viagem até as locações das cenas da novela. Essa experiência foi ótima e inesquecível, até porque foi meu último trabalho antes do longo período de pandemia. Somente em novembro de 2020 veio o convite para a novela “Quanto Mais Vida, Melhor!” que gravamos ao longo de um ano.

Conte sobre Joana, sua personagem? Ela vai ter uma reviravolta?

No atual momento da novela Joana tem se apropriado bastante de sua vida, sendo cada vez mais um bom contraponto para o personagem de Rose. Diferente da esposa de Guilherme, Joana está mais decidida em suas ações. No início da trama ela esconde sua paixão por seu chefe (Dr. Guilherme) e faz de tudo para não se envolver na relação dele com Rose (Bárbara Colen), pois sua ética vem sempre em primeiro lugar. Ela se demite da clínica de Guilherme (de quem era braço direito) e prefere que seu antigo projeto da criação de uma ala para criança carentes com problemas cardíacos, algo tão importante e significativo em seu coração, siga sem ela. Isso a fez sofrer muito, se recolher e entrar em contato com um real desejo de ser mãe e de ter uma produção independente. Acho que essa é uma reviravolta muito importante e que mostra uma Joana ainda mais decidida e dona de sua própria felicidade. Ela está íntima de seu amor próprio, de seus desejos e de seu corpo. Joana entendeu que merece ser feliz e é essa iluminação que eu desejo pra todas nós mulheres. Principalmente nós, mulheres negras.

Essa paixão enrustida dela com o Dr. Guilherme vai se revelar?

Já se revelou. Ela contou para Rose que sempre foi apaixonada pelo Guilherme e atualmente todos sabem disso, inclusive a Celina (Ana Lucia Torre), que fez uso dessa informação a favor do seu plano para separar seu amado filho único e mimado da esposa. Mas essa fase da novela já passou. Joana já conseguiu dizer pro próprio Guilherme que não sabia onde estava com a cabeça quando um dia sentiu algo por ele. Joana já está em outra, está vivendo um momento bom consigo mesma.

Você vê chances de um relacionamento entre os dois?

Vejo zero chances de um relacionamento entre Guilherme e Joana. A doutora Joana é uma pessoa muito correta e tem valores muito firmados. Acho que ela não suportaria nem um mês ao lado do Guilherme, não daria certo. Mas essa é só a minha opinião como telespectadora, (risos). Em novela tudo sempre pode acontecer!

Em que você se inspirou para criar a personagem?

Na minha madrinha, Jovina Flávia, que é uma profissional da saúde. Ela é dentista e trabalhou durante muito tempo tanto no serviço público como em clínicas particulares. São inúmeras as situações e atravessamentos que uma mulher negra que ocupa uma profissão tão respeitada na área da saúde (como médica ou dentista) passa ao longo da construção de uma carreira sólida. São muitas as barreiras pessoais e profissionais a serem ultrapassadas para adquirir o respeito e a credibilidade de seus pacientes e colegas de trabalho.

Foto: Fernanda Candido

Quais são os próximos projetos? Cinema, TV, teatro, série?

Tenho quatro estreias de longas para o ano de 2022. “Alemão 2”, de José Eduardo Belmonte, onde interpreto Mariana, único personagem que também está presente em “Alemão”; o longa “Pureza”, do diretor Renato Barbieri;  “A Morte Habita a Noite”, longa de Eduardo Morotó, e “Grande Sertão: Veredas”, de Guel Arraes e Flávia Lacerda. Estou morrendo de saudades dos palcos e sobre TV ainda não posso contar as novidades.

Como você avalia a presença da mulher negra cada vez mais constante na mídia?

Atualmente o que mais me intriga é a qualidade da presença que a mulher negra tem no audiovisual, é como ela está sendo representada na mídia. Acho que as representações das mulheres negras têm sido maçantes, sem muita subjetividade, hiperssexualizadas ou tendo seu sofrimento social romantizado. Essa nova fase da Joana traz alguma novidade: é uma mulher negra, sim, e que está envolvida com uma questão pessoal e feminina que é a escolha pela maternidade solo. Nesse momento da trama Joana não vive em função da história de outros personagens. Ela vive sua própria vida e isso é muito raro na TV. É muito raro um personagem negro ter sua própria trama.

A causa preta é cada vez mais presente na nossa sociedade, com você se coloca frente a isso?   

Sinto que, muitas vezes, existe uma “cobrança” para que artistas negros se coloquem frente a questões raciais, uma vez que questões raciais não dizem respeito apenas a pessoas negras, mas sim à sociedade como um todo. Acho importantíssimo que as pessoas não negras também se posicionem em relação a esta causa pois, somente quando todos tivermos consciência da falta histórica que o nosso país tem para com os negros, poderemos proporcionar uma realidade menos injusta em termos raciais.

Foto: Fernanda Candido

Você é feminista? Se sim, como vê o tema, ainda mais nos dias de hoje?

Primeiro é importante lembrar que o feminismo se apresenta de formas diferentes para mulheres negras, mulheres não negras e mulheres brancas. Mas falando do feminismo como ele é superficialmente entendido (ou não), acho que uma mulher que, hoje em dia, não se considera feminista, talvez não saiba ao certo do que se trata o tema. Ser feminista é bem mais do que se considerar feminista ou reivindicar esse “título” para si. Ser feminista é lutar para que nossas condições de existência estejam em equidade com as condições de existência de um homem, o que infelizmente ainda não acontece. Muitas mulheres são feministas, agem como feministas em suas vidas, mas nem sequer usam esse termo.  As minhas duas avós, por exemplo, mulheres negras que conseguiram criar e colocar vários filhos e filhas na faculdade contrariando todas a estatísticas, vencendo barreiras impostas às mulheres de sua época e gerenciando toda a estrutura de suas casas e de suas famílias, fazendo uso de suas inteligentes estratégias, eram mulheres feministas. Ser feminista não é competir ou querer ser melhor que o homem. Nem melhor, nem pior, porém com os mesmos direitos. É muito grande a ignorância em torno dessa palavra.