Nadège Vanhee-Cybulski - Foto: Divulgação
Nadège Vanhee-Cybulski – Foto: Divulgação

Por Camila Garcia

A aparência monástica que se viu logo nos primeiros looks do début da estilista francesa Nadège Vanhee-Cybulski como diretora criativa do prêt-à-porter feminino da Hermès lembrou os tempos áureos de Martin Margiela na casa (o estilista comandou a maison de 1997 a 2003) e, de cara, já sinaliza a vontade da marca em reforçar ainda mais a característica discreta e de um luxo sensorial, que se percebe pelo toque do cashmere, a maciez do couro e as cores vivas dos lenços de seda pintados à mão.

Resultado de uma escolha primorosa de materiais e técnicas handmade preservadas em seus ateliês para a construção das peças. “A estética da Hermès se baseia no know-how do trabalho artesanal, que é sua força e sua singularidade. Esse conceito me fascina, a maneira como os materiais e as formas podem ser modificados, e como isso pode levar a um outro nível de sofisticação”, explica Nadège, em entrevista exclusiva à Bazaar. “Criar um objeto na Hermès exige muito tempo, disciplina e perícia. Somos todos artesãos que põem algo de si em cada um dos produtos. O princípio se traduz em acabamentos impecáveis e formas perfeitamente cortadas para revelar toda a nossa expertise.”

O fato de ela ter sido escolhida para substituir Christophe Lemaire indica também que a Hermès faz questão de ser reconhecida por esses predicados, sem cair no buzz comercial que dominou várias casas francesas. A estilista tem o background de sempre ter trabalhado em marcas com o mesmo posicionamento, em que produto, matéria-prima e mão de obra são o foco principal, antes de qualquer estratégia de marketing e transformação de imagem para ser replicada nas redes sociais com muitos likes.

Dani Witt (JOY) usa tricô de cashmere, R$ 8.750, e saia de seda e couro, R$ 22.300 | Calça verde de lã, R$ 4,5 mil, e mantô de cashmere, R$ 18 mil - Foto: Hugo Toni | Styling: Lucas Boccalão
Dani Witt (JOY) usa tricô de cashmere, R$ 8.750, e saia de seda e couro, R$ 22.300 | Calça verde de lã, R$ 4,5 mil, e mantô de cashmere, R$ 18 mil – Foto: Hugo Toni | Styling: Lucas Boccalão

Nadège é formada pela Académie Royale des Beaux-Arts belga e começou a carreira na marca de acessórios Delvaux. Trabalhou na Maison Martin Margiela, na Céline, com Phoebe Philo – a rainha do investment dressing, que sempre diz que seu processo criativo é focado 100% nos materiais e no produto, porque seu interesse está justamente em como a mulher se sente usando sua roupa e não como ela parece e é vista – , de 2008 a 2011. E, em seguida, foi diretora criativa da The Row, marca das irmãs Olsen, fundada sob essa mesma cartilha. “À primeira vista, pode parecer uma oscilação entre dois extremos, mas, para mim, é mais como um percurso comum. compartilho com a Hermès uma forte ligação com a autenticidade, de modo que a transição foi natural”, diz, sobre a diferença entre morar nos Estados Unidos e dirigir uma marca americana, a The Row, e voltar a paris para comandar uma das mais tradicionais casas francesas. “Nós nos relacionamos e também temos diferenças, é isso que torna a colaboração estimulante.”

O que faz sua primeira coleção, a de inverno 2015, que você vê nestas páginas, ser tão bem-sucedida e prova que Nadège tem toda a capacidade de controle sobre os três pilares em que a maison foi fundada (a herança equestre, o couro e as estampas de lenço são elementos-chave para a marca criada em 1837 como uma confecção de itens de selaria) é como, de forma tão sutil e nada óbvia, ela se utiliza desses elementos. Exemplos? A estampa de lenço é usada como painel na saia de couro com fenda e combinada a pull de cashmere marinho, completamente irresistível. Marinho também foi a cor utilizada para tingir alguns looks de couro da apresentação. O tom é nada comum para esse material e atualiza imediatamente as peças com espírito equestre. Assim como a nuance do vermelho tão emblemático utilizado para o jacquard de seda (com padrão dos clássicos prints dos carrès), que foi modelado no conjunto de saia e blusa.

Calça de lã, R$ 8.250, e mantô de cashmere, R$ 18.500 | Blusa de seda, R$ 10.400, e calça de lã, R$ 8.250 - Foto: Hugo Toni | Styling: Lucas Boccalão
Calça de lã, R$ 8.250, e mantô de cashmere, R$ 18.500 | Blusa de seda, R$ 10.400, e calça de lã, R$ 8.250 – Foto: Hugo Toni | Styling: Lucas Boccalão

 

Com isso, a francesa consegue trazer para a linha feminina o mesmo que Véronique Nichanian faz tão bem no masculino da marca. Leia-se usar os materiais mais luxuosos que existem para fazer roupas com fins tão casuais e possíveis, justamente por isso tão desejáveis. “Penso na moda inclusiva e intuitiva. Sou movida pela intuição e gostaria de vestir mulheres confiantes. Mulheres que se vistam para elas mesmas, que tenham um senso nato daquilo que lhes serve ou não e saibam brincar com isso. Adoro vestir mulheres de morfologias diversas.”

O verão 2016 de Nadège, sua segunda coleção desfilada no mês passado em Paris, é claramente mais suave, com um perfume esportivo e urbano, vide os tênis usados em vários looks. Mais uma vez, a estilista baseia o processo criativo nos materiais e nas características clássicas da marca.“O mood é de uma elegância espontânea, estilo blasé… é isso que tento atingir – e é com isso que me entendo. pode parecer contraditório, mas é assim que é a modernidade para mim”, sentencia.

A verdade é que essa roupa só será decodificada – e seu savoir faire, apreciado – na experiência de compra, dentro das lojas, os templos dessa filosofia essencialmente francesa.

Blusa de seda, R$ 8.550, saia vermelha, R$ 11.800, bracelete branco, R$ 3.350, bracelete marrom e bracelete vermelho, R$ 2.500 cada (usados em todas as fotos) - Foto: Hugo Toni | Styling: Lucas Boccalão
Blusa de seda, R$ 8.550, saia vermelha, R$ 11.800, bracelete branco, R$ 3.350, bracelete marrom e bracelete vermelho, R$ 2.500 cada (usados em todas as fotos) – Foto: Hugo Toni | Styling: Lucas Boccalão