Não fuja das feras!

A padronagem exuberante passa por períodos de altos e baixos na moda, mas agora é hora de investir nos felinos

by redação bazaar

por Vanessa Barone

A estampa de onça – ou de leopardo, seu equivalente na Europa – é um dos itens clássicos da moda que, vez ou outra, ficam na “geladeira”, à espera de um novo momento para mostrar as garras. E esse momento sempre chega para tirar a poeira e dar um novo brilho para esse padrão que entrou na linha do tempo da moda nas primeiras décadas do século 20 e teve o aval de figuras históricas, como os estilistas Christian Dior e Gianni Versace, além de Diana Vreeland, editora de moda da Harper’s Bazaar por mais de 20 anos, e do joalheiro Louis Cartier.

Pois a temporada internacional do Verão 2018 trouxe esse clássico animal print em versão rejuvenescida e com atitude street style. Dior, Prada, Dolce & Gabbana, Saint Laurent, Gucci e Balenciaga foram algumas das maisons que revigoraram a padronagem e puxam a fila para que ela invada também a temporada do Inverno nacional – é esperar para ver.

YSL Verão 2018 - Foto: Divulgação

YSL Verão 2018 – Foto: Divulgação

Balenciaga Verão 2018 - Foto: Divulgação

Balenciaga Verão 2018 – Foto: Divulgação

Gucci - Verão 2018 - Foto: Divulgação

Gucci – Verão 2018 – Foto: Divulgação

A paixão pela estampa felina começou como uma necessidade de aquecer o corpo, o que escondia a sua parte mais bonita por dentro das roupas de inverno – em um tempo em que quase ninguém via problema em abater bichos para transformar em vestimenta.“Quem lançou a moda das peles usadas na parte de fora dos casacos foi Nicolau II, czar da Rússia, em visita a Paris no início do século 20”, diz João Braga, professor de História da Moda.

Com os caminhos abertos para se exibir peles animais e uma forcinha estética trazida pelo movimento art déco, o padrão de onças, leopardos e correlatos começou a sua trajetória fashion. Nos anos 1920, uma de suas maiores fãs foi a cantora e símbolo sexual americano Josephine Baker, que ajudaria a disseminar o modismo ao aparecer usando peças de roupa com a mesma padronagem de seu bichinho de estimação, o guepardo Chiquita. A partir dos anos 1930, mais mulheres famosas foram seduzidas pelas peles felinas, caso das atrizes Audrey Hepburn e Elizabeth Taylor, além de Jackie Kennedy.

A estampa de oncinha ganhou os salões da alta-costura pelas mãos de Christian Dior, que usou o padrão, pela primeira vez, na temporada Primavera/Verão 1947. Segundo o livro Dior, de Marie-France Pochna, eram duas versões de vestido estampado: o traje de noite, Afrique, e o de dia, Jungle.

Em 1949, uma publicidade do perfume Miss Dior também fez alusão ao padrão felino, ao trazer uma ilustração de René Gruau que mostrava uma mão feminina sobreposta a uma pata de leopardo, em uma evocação ao filme A Bela e a Fera, de Jean Cocteau (1946). O aval para o uso da padronagem na coleção da Dior foi dado, provavelmente, por uma das mulheres de personalidade mais marcante que cercava o costureiro na época: Mitzah Bricard.

Mitzah Bricard veste Diornos anos 50 - Foto: Divulgação

Mitzah Bricard veste Dior nos anos 50 – Foto: Divulgação

Adepta da estampa de onça, usada dos pés à cabeça, madame Bricard era responsável pela linha de chapéus da maison. Respeitada por sua vasta cultura de moda e conhecimento da alta-costura, ela foi muito mais do que uma assistente de trabalho para o estilista: foi uma das figuras femininas a exercer grande influência sobre Christian Dior, que a considerava a expressão maior do que era ser chique.

Dizia ainda que madame Bricard era “completamente cosmopolita em sua elegância”. Ela conseguiu não apenas transformar o animal print em um item chique, como também convencer Dior a ser um dos primeiros a adotá-lo na alta-costura. Essa valorização do estilo selvagem africano se alastrou, deixou rastros e influenciou criações posteriores, como a jaqueta Saharienne, da coleção Primavera/Verão 1968 de Yves Saint Laurent – outro símbolo da moda no século 20.

A extravagância dos anos 1980 foi providencial para novamente incensar as onças e os leopardos, que chegaram aos anos 1990 como uniforme do dress for success, graças, sobretudo, às criações de estilistas italianos, como Gianni Versace e Roberto Cavalli. “No Brasil, até os anos 1980, a estampa de animal estava associada a vulgaridade”, afirma João Braga. “Só depois disso foi aceita e virou um clássico, muito por influência do universo da música pop.”

Kaya Gerber - Versace Primavera/ Verão 2018 - Foto: Divulgação

Kaya Gerber – Versace Primavera/ Verão 2018 – Foto: Divulgação

Durante o século 21, os momentos de alta do padrão felino têm sido frequentes: ele marcou presença na Prada, na coleção de Inverno 2007; na Hermès e na Balmain, em 2011; na Burberry, em 2013; e na linha de alta-costura de Jean-Paul Gaultier, no Inverno 2014. Este último apostou forte no universo felino, que incluiu estampas de onças e leopardos em meias, vestidos, casacos e até nos cabelos das modelos. Se agora a ordem é “animalizar” geral, ninguém pode dizer que não foi avisado antes.