Tela - Fotos: Divulgação
Tela – Fotos: Divulgação

O que é quebrar padrões hoje? Para os designers Eduardo Farah e Karina Mondini, tem a ver com uma postura mais leve, slow e consciente. Com trajetórias diferentes e vários pontos em comum, Farah está à frente da Desdobra e Karina, da Tela, duas neomarcas paulistanas que conversam com o universo da arte, flertam com o estilo sem gênero e preocupam-se com ações que possam reduzir o impacto ambiental de suas criações.

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Tudo isso tendo como base a alfaiataria, com referências estéticas vindas do retorno aos clássicos dos anos 1970 – época em que as mulheres entraram de vez no mercado de trabalho apostando em peças elegantes e funcionais – e de exageros contidos pinçados da década oitentista, como as mangas volumosas que Karina adora.

Máximo efeito
A estilista Karina Mondini estava no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, quando encontrou o livro “Pinturas e Platibandas”, da fotógrafa Anna Mariani, que percorreu sete estados do Nordeste fotografando fachadas de casinhas singelas e coloridas, sempre em ângulo frontal, entre 1976 e 1985. “Quase não acreditei, há bastante tempo queria esse título e ele estava esgotado”, conta ela, que viu nas imagens a inspiração perfeita para a primeira coleção da Tela.

Das platibandas – elementos arquitetônicos que emolduram as construções clicadas pela fotógrafa carioca, hoje com 84 anos – saíram elementos geométricos variados, que dão forma aos botões e conectam detalhes de golas, bolsos e mangas. Já a cartela de cores, que mistura tons neutros, adocicados e fortes, faz referência às paredes cobertas por uma mistura à base de pigmentos e cal, com destaque para a estampa pintada pela ilustradora e ceramista Sandra Jávera, paulistana radicada em Nova York.

Já o designer Diego Kattani assina os brincos, colares e cintos. A alfaiataria oversized dialoga com a década de 1980, com ênfase na cintura e dando destaque a mangas volumosas, pregas e recortes. Neste final de ano, a coleção ganha o reforço de peças brancas.

Apaixonada por cinema, arte, moda e arquitetura, Karina conta que encontrou na palavra “tela”, que dá nome à marca, a maneira de conectar todos esses interesses. Não à toa, a estampa criada por Sandra teve o formato de quadro antes de virar print. E também reforça o caráter slow e de ateliê da marca. Parte dos tecidos, por exemplo, veio de acervos antigos de tecelagens. “Encontrei por acaso os algodões vermelho e azul, que tinham tudo a ver com as casinhas. Comecei a montar a cartela por eles”, conta a estilista, que também acrescentou linho natural vindo da Turquia.

Com a coleção na arara do ateliê instalado em um dos prédios icônicos da Avenida São João, no centro de São Paulo, e na Dona Coisa, no Rio de Janeiro, Karina viu suas peças femininas ganharem conotação sem gênero. “Estão chamando a atenção dos homens e estou adorando isso”, diz Karina, que foi estilista da Farm e morou em Milão antes de encarar a própria marca. Agora, planeja novo desafio: a abertura da primeira loja, em 2020.

Industrial Chique

Desdobra - Fotos: Divulgação
Desdobra – Fotos: Divulgação

Desde os 12 anos, Eduardo Farah sonhava trabalhar com moda, mas seu caminho acabou sendo o da arte, mais especificamente, o da escultura contemporânea, que ele constrói unindo materiais diversos e madeira entalhada. No início deste ano, decidiu levar o conhecimento sobre tridimensionalidade para a roupa, junto com o sócio, Matheus Agostino.

Foi assim que nasceu a Desdobra, que chega em dezembro de 2019 à segunda coleção-cápsula, com número enxuto de modelos e cartela de cores – seis opções, do bege ao marinho. O formato de lançar pequenas tiragens contribui para ajustar rapidamente o percurso, controlar o investimento e testar o gosto dos clientes.

A pegada da marca é uma roupa sem gênero e sustentável. “Pensei em um guarda-roupa único”, diz Farah, que não hesita em pegar uma peça emprestada da mãe ou encorajar a namorada a usar algo seu. Por isso, o foco na modelagem que ele chama de industrial é uma de suas principais preocupações. “Sigo padrões de uniforme, com base de alfaiataria, contraste de tecidos e acessórios, como mosquetões”, explica, acrescentando que adora contrastar shape mais bruto com texturas fluidas. “Estou sempre do lado das modelistas, aprendendo muito com elas. Hoje, me sinto mais feliz me dedicando à moda”, comenta.

Tecido, aliás, é uma de suas preocupações. Filho do arquiteto e paisagista Michel Farah, que assina, por exemplo, o corredor verde de mais de sete quilômetros da Avenida 23 de Maio, em São Paulo, Eduardo conta que cresceu em meio aos projetos sustentáveis e de responsabilidade social executados pelo pai. “Essa visão sempre foi muito natural para mim. Por isso, aboli o poliéster, que não é biodegradável, e procuro reutilizar as sobras de tecido”, conta.

A decisão de desprezar estações e investir em coleções continuadas tem a ver com essa produção consciente. “Também estou estudando como levar os retalhos para a escultura”, acrescenta. Com numeração que vai do PP ao GG à venda no showroom, pelo Instagram e na multimarcas Pinga, em São Paulo, Farah acredita na roupa como diálogo. “O mundo está em transformação e isso é fascinante. Temos de descobrir nossas próprias ferramentas e seguir em frente”, diz.

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