Joe Corré, filho da musa da moda punk Vivienne Westwood - Foto: reprodução/Bazaar
Joe Corré, filho da musa da moda punk Vivienne Westwood – Foto: reprodução/Bazaar

Por Juliana Resende

Em dezembro de 1976, o grupo inglês Sex Pistols foi ao Today, programa de então maior audiência da TV britânica, e vomitou uma chuva de
fucks e outros impropérios no ar, bem na hora do chá das telespectadoras. A guerra contra os bons costumes estava declarada. Liderada pelo então osso-duro-de-roer Johnny Rotten e lançando o single Anarchy in the UK, a banda de moleques toscos estava prestes a mudar o mundo jovem: na música, no comportamento e na moda, influenciando corações e mentes criativas, com violência e paixão, por (pasme) 40 anos!

Jaqueta D.I.Y. cravejada de buttons - Foto: reprodução/Bazaar
Jaqueta D.I.Y. cravejada de buttons – Foto: reprodução/Bazaar

As celebrações do aniversário da revolução estão em curso em Londres, oficialmente com o festival Punk.London, de vasta programação. Mas não somente com um viés comemorativo. O provocador Joseph Corré, filho da musa-mor da moda punk Vivienne Westwood e do empresário dos Sex Pistols na época em que a cultura explodiu, Malcolm McLaren, resolveu protestar contra a abdução do punk pelo establishment e prometeu queimar £5 milhões (cerca de R$ 25 milhões – sim, as cifras são altas, mas é o que está sendo divulgado) em memorabilia punk, dia 26 de novembro, em Camden Town.“No dia em que fiquei sabendo que esse evento era promovido por instituições como o British Tourist Board, o British Fashion Council, o British Museum e a Prefeitura de Londres,minha reação foi: O QUÊ!!??”, esbraveja Corré, em entrevista à Bazaar. “Primeiro, por que 40 anos, já que o movimento é anterior a 1976? A impressão é que alguém quis criar um evento já que não havia nenhum casamento real para entreter os turistas”, continua.

Punks na Kings Road, em Londres - Foto: reprodução/Bazaar
Punks na Kings Road, em Londres – Foto: reprodução/Bazaar

A fogueira das vaidades punk, no entanto, vem sendo há muito consumida por todo tipo de gente, de intelectuais a fashionistas, com sua estética demolidora e a mensagem no future, às vezes desbotada, às vezes bem atual. O fato é que o punk sempre foi lucrativo e nunca, never mind the bollocks, saiu de moda.“Estilistas como Vivienne Westwood criaram itens que continuam ícones da era punk ainda em uso hoje, como as bondage trousers (calças com zíperes) e camisetas cortadas”, diz Jen Kavanagh, curadora da exposição que está acontecendo no Museum of London (MoL), até julho, como parte do Punk.London. O museu aceitou doações de roupas e objetos punks do público para a mostra e apareceu de tudo – de buttons a haute couture. “Uma doadora chegou a trazer peças de Zandra Rhodes, que alguns consideram um exemplo do que viria a ser a comercialização do estilo punk”, conta Beatrice Behlen, curadora sênior de Moda e Artes Decorativas do MoL. Behlen se refere à Conceptual Chic Collection de 1977-78, considerada a primeira apropriação do punk pela alta -costura de que se tem notícia.A coleção marca a virada de ca- saca de Rhodes, que trocou esvoaçantes vestidos de seda estampada, pelos quais era famosa, por looks em jersey vermelho-sangue e pink, com amarrações em preto, além de alfinetes, correntes e tachas.“Mas creio que a peça da haute couture mais influenciada pelo punk foi aquele vestido Versace que Elizabeth Hurley usou na première de Quatro Casamentos e um Funeral, em 1994 – que, aliás, não desperta nenhuma simpatia dos punks originais”, lembra Jen Kavanagh. Mas não espere ver vestidos de Alexander McQueen (altamente influenciado pelo movi- mento) no Museum of London. Para Kavanagh,“ao contrário da alta-costura, são as roupas customizadas à base da filosofia DIY (‘do it yourself’, o leitmotiv do punk), como jaquetas e blazers furados com alfinetes, com slogans pintados a mão e cravejados de buttons e badges de bandas, aquelas mais infiltradas no âmago do fast fashion”. Beatrice Behlen ressalta que o mote da exposição “é revelar a experiência punk de cada dia na vida dos londrinos comuns e não das celebridades”.

Coturnos em ação em show na Kilburn National - Foto: reprodução/Bazaar
Coturnos em ação em show na Kilburn National – Foto: reprodução/Bazaar

Por isso, a mostra promete ser um dos pontos altos dessa festa. Serão roupas, fanzines, fotografias e objetos retratando como o punk foi incorporado ao cotidiano da capital britânica. Para selecionar peças de doações, o MoL se uniu aos alunos da renomada faculdade de moda Central Saint Martins. E o que for exibido na exposição passará a integrar o acervo do museu.

:: museumoflondon.org.uk/ :: punk.london/events/